A sincera admissão de Vera Daves: a macroeconomia precisa da geopolítica para sobreviver - Joaquim Jaime



Há quem diga que a economia é a arte de fazer previsões sobre o futuro com base no comportamento do passado. A geopolítica, por sua vez, é a arte de nos lembrar que o futuro raramente se comporta como esperamos. A recente e sincera admissão da Ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, ao reconhecer que, em 2019, subestimou os factores externos ao afirmar que "se sobrevivermos a 2020, os próximos anos serão muito melhores", é mais do que um exercício de humildade. É uma aula magistral sobre a evolução do pensamento económico num mundo volátil e a prova definitiva da importância da geopolítica na definição das políticas macroeconómicas, especialmente para economias expostas como nossa.


Em 2019, a perspectiva da ministra, ainda no início da sua jornada, reflectia um olhar predominantemente endógeno sobre os desafios do país. O foco eram as reformas internas, a diversificação económica e o ajuste das contas públicas. Era uma visão ancorada nos princípios clássicos da macroeconomia, que analisa agregados como o PIB, a inflação e a dívida, e desenha políticas fiscais e monetárias para os estabilizar. O pressuposto, ainda que não declarado, era o de um mundo relactivamente previsível, onde as variáveis externas (preço do petróleo, procura chinesa, taxas de juro internacionais) flutuariam dentro de parâmetros conhecidos.


O ano de 2020, no entanto, não foi um ano de flutuações previsíveis. Foi um ano de rutura sísmica. A pandemia da COVID-19 não foi apenas um choque de saúde pública; foi um choque geopolítico e geoeconómico que paralisou cadeias de valor, redefiniu o papel do Estado e desencadeou uma enxurrada de liquidez global que viria a transformar-se numa crise inflacionária e no aperto monetário mais rápido em décadas. Para Angola, dependente das exportações de petróleo, a súbita queda da procura global e o colapso dos preços foram um golpe directo nas contas públicas e na estabilidade cambial. A previsão macroeconómica de 2019 ruiu não por má concepção técnica, mas porque o tabuleiro geopolítico global foi violentamente sacudido.


A maturidade que a ministra agora demonstra reside exactamente na compreensão de que a política macroeconómica já não pode ser feita numa torre de marfim de indicadores internos. Ela tem de ser concebida no terreno lamacento da geopolítica. Para países como o nosso, com elevada exposição a choques externos, esta integração não é uma opção, é uma questão de sobrevivência financeira e social. Podemos elencar três razões fundamentais para esta simbiose forçada:


1. A "geologização" do preço das commodities


O principal pressuposto do Orçamento Geral do Estado angolano é o preço do barril de petróleo. Este preço, outrora visto como uma simples variável de oferta e procura global, é hoje um artefacto geopolítico de primeira ordem. As decisões da OPEP+ são negociações de poder entre potências petrolíferas com agendas políticas distintas. A transição energética nos países ocidentais não é apenas uma política ambiental, mas uma estratégia geoeconómica para reduzir a dependência energética de regiões voláteis. Guerras e sanções (como as impostas à Rússia) reconfiguram fluxos energéticos inteiros. Ignorar esta camada de análise é como navegar um navio petroleiro olhando apenas para o céu, ignorando as correntes submarinas.


2. A diplomacia da dívida e do investimento


A gestão da dívida pública, um pilar da política macroeconómica, transcendeu a análise de taxas de juro e prazos de maturidade. Hoje, a escolha entre emitir dívida nos mercados internacionais, recorrer a credores bilaterais (como a China) ou a instituições multilaterais (como o FMI) é uma decisão profundamente geopolítica. Cada opção carrega um peso estratégico: envolve alinhamentos, condicionalidades e a criação de dependências futuras, perda ou ganho de soberania sobre decisões estratégicas, etc. Da mesma forma, a captação de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) para projectos estruturantes, como o Corredor do Lobito, transforma-se num jogo de xadrez global, onde Angola pode (e deve) equilibrar a influência de potências como os Estados Unidos e a China em seu benefício, sem transformar-se num peão no tabuleiro geopolítico de interesses externos.


3. A vulnerabilidade das cadeias de abastecimento


A inflação importada é um flagelo para economias como a angolana, fortemente dependentes de bens alimentares e manufacturados. A guerra na Ucrânia expôs de forma brutal como um conflicto regional pode disparar os preços dos cereais e dos fertilizantes, corroendo o poder de compra das famílias e pressionando as contas externas. A política macroeconómica moderna, atenta à geopolítica, já não vê a segurança alimentar e energética apenas como uma questão de mercado, mas como um imperactivo de resiliência nacional. Isto implica políticas de incentivo à produção interna (substituição de importações, por via de políticas industriais), diversificação de parceiros comerciais (friend-shoring) e constituição de reservas estratégicas.


A afirmação da ministra Vera Daves é, por isso, um marco. É o reconhecimento de que o Ministério das Finanças de um país exposto como Angola precisa de ter, ao seu lado, não apenas uma equipa de economistas, mas também de geopolíticos e geoestrategistas. É preciso ler os relatórios do FMI, mas também os do International Crisis Group e dos institutos de relações internacionais. É preciso dominar a política monetária, mas também compreender as tensões no Estreito de Ormuz, no Canal do Suez,  no Canal do Panamá, nas rotas comerciais do Ártico ou no Mar do Sul da China.


Se sobrevivemos a 2020 foi, em grande parte, devido à resiliência do povo e a ajustes de última hora. Para que os próximos anos sejam "muito melhores", como desejamos, a política macroeconómica angolana terá de ser, cada vez mais, uma política de antecipação geopolítica. A humildade da ministra em reconhecer o que ignorava é o primeiro e mais importante passo para uma governação económica mais inteligente, mais resiliente e verdadeiramente consciente do mundo em que vivemos. O futuro pertence aos que compreendem que, na encruzilhada do poder e da economia, a geografia ainda é o principal destino.


Publicidade 


Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação 

Postar um comentário

0 Comentários