No espaço Grande Entrevista do Polígrafo África, o advogado e membro do Comité Central do MPLA, Tito Cambanje, faz uma leitura crítica da oposição angolana, que considera frágil, pouco estruturada e sem capacidade consistente de governação, chegando a afirmar que espera que “nunca alcance o poder”, embora sublinhe que a decisão cabe sempre ao eleitorado; num contexto de preparação para as eleições gerais de 2027, antecipa uma vitória expressiva do MPLA, sustentada na mobilização interna, no enraizamento social e no crescimento económico do país, apontando o próximo congresso do partido como um momento de renovação e reorganização interna, revisita ainda a sua passagem pelo sector dos jogos, destacando a modernização do sistema e o aumento significativo das receitas fiscais do Estado, e reforça a ideia de que a oposição, incluindo a UNITA, não apresenta propostas concretas nem alternativas sólidas de governação.
Em 2018, foi nomeado pelo então ministro das Finanças, Archer Mangueira, para o cargo de director-geral do Instituto de Supervisão de Jogos. Em resumo, como foi a sua passagem por aquele órgão tutelado pelo Ministério das Finanças?
Deixe-me primeiro dizer-lhe que o sector dos jogos em Angola, durante largos anos, sofreu algumas transformações muito positivas, na medida em que quer os operadores, quer o regulador, estão satisfeitos com o estágio em que o sector se encontra. Quando fomos convidados para exercer, de forma temporária, as funções de director-geral, era justamente para atingir dois objectivos fundamentais.
Primeiro: modernizar o sector, trazendo mais tecnologia, mais conhecimento, mais formação e aproximando-o dos operadores e dos jogadores.
Em segundo lugar: tentar abarcar o maior número possível de quadros altamente competentes e qualificados, para servirem a instituição.
E nós, com muita luta e sacrifício pessoal e familiar, conseguimos fazer isso, sendo certo que atingimos três objectivos fundamentais. Em primeiro lugar, conseguimos criar um diploma para regular o jogo online. Repare que, em muitos países, como França, Inglaterra, Estados Unidos e Espanha, onde o jogo está bem sedimentado, este tipo de jogo é dos que mais contribui para a arrecadação de receitas do Estado.
Em segundo lugar, durante o nosso período, foi possível fazer com que as pessoas tivessem mais noção do que é o sector e do que pode, do ponto de vista social, trazer para as comunidades. Incentivámos os operadores a construírem escolas, hospitais, creches e centros de autismo, para poderem apoiar as comunidades onde estão inseridos.
Outro aspecto importante foi assegurar que a ideia de adição ao jogo fosse mitigada. Promovemos o jogo, somos a favor, porque sabemos que o sector desempenha um papel fundamental na economia. Falava-se da diversificação da economia: é necessário procurar outros sectores para ajudar o Estado na arrecadação de receitas, e o sector dos jogos é preponderante.
Se olharmos para realidades como Macau ou os próprios Estados Unidos, onde o sector está muito desenvolvido, vemos que contribui de forma significativa para a arrecadação de receitas e, consequentemente, para a realização de despesas públicas.
Assim, a estratégia passa por diversificar, explicar os efeitos positivos do sector e fazer com que quer os jogadores, quer o regulador, estejam satisfeitos. Este trabalho está a ser bem feito.
Em termos de arrecadação de receitas fiscais por via dos jogos, do seu ponto de vista, atingiram-se os resultados desejados?
Para ter uma noção, na altura em que começámos a dirigir o sector, encontrámos receitas fiscais abaixo dos mil milhões de kwanzas. Quando saímos, o sector arrecadava acima de 10 mil milhões de kwanzas, e hoje está muito acima desse valor.
Isso é fruto do trabalho que tem sido feito, não só pela direcção que me sucedeu, mas também pela direcção actual, que está a ser bem conduzida por uma senhora altamente competente, com forte suporte do Ministério das Finanças. E tem corrido bem.
Estamos satisfeitos. Significa que o pouco que fizemos serviu de base para a continuidade do trabalho que está a ser realizado actualmente.
O Tito Cambanje foi, igualmente, consultor da actual ministra das Finanças. Que matérias ou assuntos considera mais relevantes, ou que mais se destacaram, durante esse período?
Quem é consultor de uma pessoa muito inteligente como a senhora ministra das Finanças tem de ter noção de que o nível de exigência é muito grande. Trabalhámos em sectores diversificados, muito ligados à questão dos impostos e à preocupação de aumentar a arrecadação de receitas.
Recordo-me de um trabalho que foi muito bem desenvolvido, ligado à Refinaria de Cabinda. Na altura, havia grandes debates porque quer o investidor, quer a Sonangol, quer o próprio Ministério das Finanças tinham de trabalhar em conjunto para encontrar uma solução boa, estratégica, nacional e patriótica.
Que solução seria essa?
Tratava-se de uma solução que conseguisse conjugar o interesse do investidor e salvaguardar o interesse do Estado angolano. O Estado pretende atingir vários fins, desde logo a empregabilidade das pessoas naquela região. É sua missão assegurar que as pessoas tenham emprego, e encaramos o emprego como uma forma de redistribuição da riqueza.
Daí a necessidade de assegurar o objectivo do investidor, que quer aplicar capital e, durante um determinado período, beneficiar de isenção fiscal sobre alguns impostos. Assim, só uma decisão com visão de longo prazo permitiu conciliar os interesses do investidor e do Estado, para que o projecto avançasse.
Felizmente, a opção técnica foi bem conseguida. Foi possível salvaguardar o interesse do investidor e, ao mesmo tempo, os vários interesses do Estado angolano. Trata-se de um empreendimento com impacto na vida das pessoas, sobretudo na criação de emprego.
Os intervenientes na região estão satisfeitos, porque, quando se implementa um projecto dessa dimensão, há vários factores que concorrem para o seu sucesso.
Quando olhamos para a Refinaria de Cabinda, recordamos que o empreendimento resultou do esforço colectivo de muitas pessoas, algumas anónimas e outras mais expostas. Isso demonstra que faz sentido trabalhar para servir o bem comum.
Este foi um dos trabalhos em que, na qualidade de consultor da senhora ministra das Finanças, procurámos dar o melhor contributo. O resultado é visível, impactante, e reflecte-se nas famílias e nas empresas.
O MPLA VAI VENCER AS ELEIÇÕES DE 2027 COM MAIORIA QUALIFICADA
É membro do Comité Central (CC) do MPLA, e o seu partido realiza congresso em Dezembro próximo. Já são conhecidas algumas mudanças, como a redução do número de membros do CC e a atribuição de uma quota de 15% para os CAP. Qual deverá ser a sua posição nesse novo quadro?
O MPLA é um partido maduro e comprometido com os anseios do povo angolano. No congresso que vai decorrer nos dias 9 e 10 de Dezembro, teremos um momento de revitalização, não só nas ideias, mas também na questão da juventude.
Como sabe, foi aprovado um documento com algumas linhas orientadoras, incluindo as questões que referiu. Para mim, o essencial não está nos números. Faz sentido que militantes que emergem da base tenham espaço, porque o MPLA é um partido que nasce do povo, está enraizado no povo e trabalha para satisfazer as necessidades colectivas e o bem comum.
O essencial é haver transformação. Isso é o mais importante. Será um congresso de renovação nas idades, mas também nas ideias políticas, com o objectivo de aproximar o partido da sociedade, de onde surgem contributos importantes para responder às necessidades colectivas e ao interesse público.
O que se espera são debates sérios, centrados na resolução dos problemas das famílias e das empresas, e que contribuam para fazer de Angola um país melhor para viver. É isso que acredito que vai acontecer, porque o MPLA tem um papel determinante na dinâmica da sociedade.
Assim, a questão central é que seja um congresso de ideias, com reflexão sobre temas com impacto na vida das famílias e das empresas, tendo sempre como fim o interesse público. E, naturalmente, preparar o partido para os desafios que se aproximam, nomeadamente as eleições gerais de 2027.
Um partido capaz de mobilizar os sectores mais dinâmicos da sociedade, empresários, médicos, professores, artesãos e artistas, estará mais preparado para esses desafios. A forma como o MPLA está a trabalhar, de forma muito organizada, com muita cautela e a mobilizar todos esses sectores mais amplos da sociedade, leva-me a acreditar piamente que o MPLA vai vencer, vai vencer as eleições com uma maioria qualificada.
A DEMOCRACIA NÃO SE CONSUBSTANCIA APENAS NA EXISTÊNCIA DE VÁRIOS CANDIDATOS
Ao nível do diálogo interno, já é possível antever a possibilidade de múltiplas candidaturas à presidência do partido?
O MPLA é um partido maduro e a ideia de múltiplas candidaturas sempre esteve presente na sua base. É normal que, num partido com esta dimensão, os militantes se sintam livres para eleger os seus órgãos e os seus líderes.
As candidaturas múltiplas não são de afastar, desde que respeitem os comandos legais do partido, nomeadamente os estatutos e os demais documentos internos. Tudo deve decorrer dentro desse quadro.
Pode também acontecer que os militantes, através dos órgãos competentes, identifiquem um perfil com experiência comprovada e reconhecido saber, reunindo condições para avançar. Nessa situação, os militantes tenderão a unir-se em torno daquilo que for determinado pela liderança.
A questão central não é a rejeição de candidaturas, mas o respeito pelos mecanismos internos do partido.
Como sabe, Maurício, falo aqui na qualidade de advogado, professor universitário e político, mas não tenho mandato para falar em nome do MPLA. Refiro-me à minha experiência. O MPLA saberá, no momento certo, definir o instrumento a utilizar para a escolha do líder no Congresso, que terá lugar nos dias 9 e 10 de Dezembro.
O Tito Cambaje falou dos Estatutos e de outros regulamentos do MPLA. Objectivamente, qual é a razão que leva o MPLA, até aqui, a nunca ter realizado eleições internas com múltiplas candidaturas, uma vez que os próprios documentos internos do partido preveem essa possibilidade? Isso não fere a democracia interna?
Maurício, levanta aqui um debate interessante sobre a questão da democracia. A democracia não se consubstancia apenas na existência ou não de vários candidatos. Podemos ter eleições com vários candidatos e, ainda assim, existir apenas um candidato sério, sendo os restantes candidatos de faz de conta, candidatos a brincar.
Há vários critérios para aferir quando estamos perante um processo democrático, transparente, livre e justo.
O que quer dizer “candidatos a brincar”?
Quando se parte do pressuposto de que só há democracia quando existem vários candidatos, está-se a dizer que, quando há apenas um candidato, não há democracia. Não é essa a questão central.
A questão é saber se a forma como se elege determinado camarada respeita os ditames da democracia: se a eleição é livre, justa e transparente. O número de candidatos não determina, em bom rigor, se estamos ou não perante uma democracia.
Vemos, a nível global, várias eleições em que há alguém que concorre para ganhar e outros que estão apenas para fazer número, para dar a ideia de abertura e de concorrência, quando, na prática, essa concorrência não existe, porque um candidato está mais à vontade e controla melhor a máquina do sistema.
Podemos também ter uma candidatura única que respeita todos os comandos legais e que é eleita de forma transparente, justa e livre por todos os militantes.
NUNCA VI CLIMA DE HOSTILIDADE CONTRA O CAMARADA HIGINO CARNEIRO
Como responde às acusações de que Higino Carneiro tem sido hostilizado pela direcção e por alguns militantes, por manifestar a intenção de se candidatar à liderança do partido?
Muito sinceramente, Maurício, nunca vi nenhum clima de hostilidade. Essa questão sobre o camarada Higino Carneiro é, para mim, nova. Tenho de me basear em factos, e os factos não apontam nesse sentido.
Não vejo um clima de hostilidade; pelo contrário, vejo um ambiente de camaradagem e de companheirismo. O essencial, para mim, é colocar sempre os interesses de Angola e do MPLA em primeiro lugar, e só depois os interesses individuais.
Numa entrevista à TPA, o Presidente da República e do MPLA revelou que, numa audiência concedida a Higino Carneiro, este terá manifestado a intenção de concorrer à presidência pelo MPLA. Em Dezembro do ano passado, num comício do partido, João Lourenço disse que a personalidade a quem vai passar o testemunho não pode estar mais cansada do que ele. A interpretação generalizada foi a de que a mensagem tinha como destinatário o general Higino Carneiro. Não é essa a sua leitura?
Não faço essa leitura. O senhor Presidente da República, ao longo do seu mandato, tem feito várias intervenções relevantes e, neste caso em concreto, entendo que a ideia central foi a de que, quando deixar a presidência, é importante que o MPLA e Angola sejam liderados por alguém que faça igual ou melhor, e que esteja bem preparado em vários aspectos, não só físicos, mas também ao nível das ideias, com propostas inovadoras para dar continuidade ao crescimento e ao desenvolvimento económico sustentável.
Só faz sentido alguém substituir outro se for para dar continuidade às coisas boas que foram feitas durante o mandato. Vejo a questão mais nesse sentido: alguém com novas ideias, com capacidade de acompanhar o que se passa no mundo e com o compromisso de assegurar o bem-estar dos angolanos e o bem comum.
Interpreto a afirmação nesse plano mais amplo, de renovação e capacidade de liderança, e não numa perspectiva de personalização. Respeito outras leituras, mas não vejo a questão nesses termos.
SEU LEGADO PODE SER CARACTERIZADO PELA SENSIBILIDADE SOCIAL, PELA CORAGEM E PELO PATRIOTISMO
À medida que 2027 se aproxima, e considerando o fim do actual ciclo constitucional do Presidente da República, que legado entende que João Lourenço deverá deixar?
Falar sobre o legado do Presidente João Lourenço levar-nos-ia a um debate mais longo, mas pode ser resumido em três traços fundamentais: patriotismo, coragem e sensibilidade social.
Basta olhar para os investimentos realizados no sector da saúde, bem como noutros sectores como a cultura e o desporto. Trata-se de áreas que revelam uma atenção particular às necessidades da população.
De forma resumida, o seu legado pode ser caracterizado pela sensibilidade social, pela coragem e pelo patriotismo, bem como pela preocupação com o outro. A ideia de humanização e de empatia, de sentir a dor do outro, é algo que nem sempre está presente na acção política, mas que se reflecte em várias políticas públicas implementadas.
Destaca-se também a forma como enfrentou os problemas, sem os evitar. Essa postura de encarar as dificuldades de frente é uma das suas características. A sua formação militar poderá também explicar a presença de valores como a disciplina, a honra e o respeito no exercício das suas funções.
Apesar do investimento no sector da saúde, como fez questão de referir, a malária continua a ser a maior causa de morte no país. Não lhe parece que tem havido falhas?
Não diria falha. Onde alguns veem falhas, eu vejo desafios. Os investimentos em grandes hospitais foram efectivamente feitos. O que pode ser melhorado, e aí está o desafio, é o reforço do investimento em unidades de saúde de menor dimensão.
Nesse ponto, concordo que o investimento deve continuar. No entanto, o combate à malária não se resolve apenas com a construção de hospitais. Passa também pelo saneamento básico, pela melhoria das condições de vida e pelo bem-estar das populações.
Os investimentos têm sido feitos de forma transversal. Como sabe, há investimentos orientados para o crescimento e desenvolvimento económico sustentável cujo impacto não é imediato na vida das famílias e que levam tempo a produzir efeitos.
Repare, Maurício: alguém que vive no Bié ou em Luanda e que, no passado, tinha de fazer grandes deslocações para tratar problemas básicos de saúde, hoje já pode contar com infra-estruturas hospitalares que permitem resolver essas situações. Isso demonstra a preocupação em não deixar ninguém para trás.
Do mesmo modo, quem antes precisava de uma junta médica para tratamento no exterior, ou quem sofria de insuficiência renal e tinha de se deslocar, pode agora receber tratamento no país, mais próximo da família. Isso reforça a ideia de um Estado que procura dar resposta às necessidades dos cidadãos.
O CRIME DE CORRUPÇÃO É MUITO DIFÍCIL DE PROVAR
Que lições podem ser retiradas do combate à corrupção para evitar erros no futuro?
O primeiro pilar fundamental é que a corrupção é um crime muito difícil de provar. E, quando é provada, é necessário criar mecanismos eficazes e eficientes não só para a combater no Estado, mas também nas igrejas e na sociedade em geral.
Entendo que a sociedade não acompanhou, ao mesmo ritmo, o combate à corrupção pretendido pelo Presidente da República. Esse é um aspecto importante a ter em conta.
Olhando para o direito comparado, verifica-se que, quando há actos de corrupção com capitais no exterior, as economias onde esses valores estão domiciliados raramente procedem à sua devolução.
Assim, coloca-se a questão dos mecanismos a adoptar para recuperar esses valores. Uma das vias passa através de bens, sobretudo quando o dinheiro se encontra em países como a China ou na Europa, onde esses recursos acabam por beneficiar essas economias.
Nesses casos, é necessário encontrar soluções alternativas, como as que têm sido adoptadas em alguns países da América do Sul, tendo em conta as dificuldades em recuperar directamente os montantes financeiros.
Quando diz “através de bens”, quer dizer o quê, objectivamente?
Dou-lhe um exemplo concreto: se houver um país que produza camiões ou materiais agrícolas e nesse país estiverem domiciliados recursos financeiros, pode ser mais eficaz celebrar um acordo para que esses valores sejam recuperados sob a forma de bens, em vez de insistir no repatriamento do dinheiro.
Isto porque há regiões que, do ponto de vista jurídico, tributário e financeiro, são consideradas opacas, os chamados paraísos fiscais, que não partilham informações com outros Estados. Esses recursos acabam por sustentar essas economias.
Assim, a estratégia pode passar por negociar para que, em vez de regressar o dinheiro propriamente dito, haja compensação em bens ou outros recursos, garantindo o cumprimento do acordo de forma efectiva.
Há quem entenda, por exemplo, que o combate à corrupção foi personalizado. Não é essa a sua percepção?
Quem vê nestes moldes está a minimizar o esforço que foi feito. Na minha visão, há aqui uma assimetria de informação.
Aquilo que vi, incluindo os números e relatórios da própria Procuradoria-Geral da República, mostra que, nos últimos anos, a PGR teve um grande Procurador-Geral, um grande patriota, o Dr. Fernando Pitta Gróz, que fez um trabalho notável e que deve ser reconhecido.
Agora, podemos sempre discutir se, em determinadas situações, o caminho poderia ter sido outro. Isso já é outro debate.
Sendo jurista, como avalia a autonomia dos três poderes? Considera que o actual modelo de “nomeação” do Procurador-Geral da República é o mais adequado?
Penso que sim. Depois, podemos discutir a questão do mandato. Por exemplo, poderia ser um mandato único, mas mais longo, o que talvez assegurasse outras condições.
O modelo actual, de forma geral, não põe em causa a independência nem a imparcialidade. Ainda assim, é um tema que pode ser debatido de forma transversal, com historiadores, sociólogos, colunistas, jornalistas, juristas e antropólogos, sobre se é preferível haver dois mandatos ou um único mandato mais longo.
É um debate que existe em muitos países. Por exemplo, nos Estados Unidos, o juiz do Supremo Tribunal Federal tem um mandato vitalício. Ou seja, há vários modelos possíveis e todos podem ser analisados.
Penso que o modelo actual ainda não foi plenamente testado, mas, em bom rigor, não fere a independência nem a imparcialidade, quer dos magistrados do Ministério Público, quer dos juízes, incluindo o Presidente do Tribunal Supremo.
O facto de, por exemplo, após a votação dos magistrados que elegem uma lista de três juízes, ser o Presidente da República a nomear quem deve ser o PGR, podendo indicar o menos votado, não lhe parece uma violação ou interferência?
Não, não vejo dessa forma. Repare que, mesmo noutros sistemas, como o norte-americano, os juízes do Supremo Tribunal são escolhidos pelo Presidente, que tende a nomear pessoas alinhadas com a sua linha política.
Ou seja, havendo ou não um processo de selecção prévia, depois compete ao Presidente da República designar quem vai dirigir o órgão. Não me parece que isso, por si só, constitua uma violação do princípio da independência.
Além disso, nos casos que conheço, os magistrados que integram essas listas são pessoas de notório saber jurídico, reputação ilibada e capacidade para resolver problemas. Esse é o ponto essencial.
Os juízes ou procuradores não dependem apenas do método de nomeação, mas sobretudo da forma como exercem as suas funções. Devem cumprir escrupulosamente a Constituição, a lei e a sua consciência.
A questão central não está tanto no método, mas sim no exercício concreto das funções e no respeito pelo ordenamento jurídico.
TEMOS UMA OPOSIÇÃO MAIS DE REACÇÃO DO QUE DE ACÇÃO
Numa entrevista à LAC, afirmou que o MPLA vencerá as eleições de 2027 com mais de 60% a 70% dos votos. No entanto, os dados indicam que, desde 2008, o partido tem perdido, em média, cerca de 10% dos votos por eleição. Como fundamenta essa previsão?
Como sabe, o MPLA é um partido maduro e o único com capacidade de responder cabalmente às aspirações do povo angolano. O MPLA não está na política apenas pelo poder em si, mas como um instrumento para transformar o país e melhorar a vida das famílias.
As eleições vencem-se com organização, forte capacidade de mobilização e com a consciência de que é preciso continuar a transformar a vida das populações.
Há vários factores que concorrem para a dinâmica eleitoral. A minha afirmação baseia-se num estudo que li, que aponta precisamente para esses elementos.
Quais são os factores?
Passo a explicar. Desde logo, a forma e a capacidade de mobilização que o MPLA tem, bem como o seu enraizamento nos sectores mais dinâmicos da sociedade, contrastam com aquilo que é o perfil da oposição.
Temos uma oposição mais de reacção do que de acção, e que não consegue, na minha perspectiva, gerar confiança no eleitorado. Como sabe, as eleições não se vencem apenas com o eleitorado de base, vencem-se com a população no seu todo.
Nas últimas eleições, em 2022, houve muita gente que não foi votar na convicção de que o resultado estaria já definido. Esse é um dos factores a considerar.
Hoje, a forma como o MPLA está a mobilizar os seus militantes, simpatizantes e amigos, reforçando a responsabilidade de participação activa em 2027, contribui para esse dinamismo. Recebo frequentemente mensagens de pessoas que querem regressar à militância, inscrever-se e participar mais activamente, o que demonstra esse envolvimento crescente.
Por outro lado, entendo que a oposição é fraca em termos de ideias, de enraizamento social e de propostas que contribuam de forma efectiva para o interesse público.
Importa também referir que a economia angolana tem vindo a crescer, sobretudo o PIB não petrolífero, devido à diversificação, com investimentos na agricultura, serviços, indústria e sector mineiro. Quando o petróleo funciona como catalisador desses sectores, o impacto do crescimento acaba por se reflectir na vida das famílias e das empresas.
Naturalmente, esse impacto não é imediato para todos, mas vai sendo sentido progressivamente.
A confiança no MPLA resulta, na minha leitura, da percepção de que apresenta soluções para os problemas existentes e de que enfrenta os desafios de forma directa, sem os evitar. Isso gera confiança não apenas entre os seus militantes, mas também entre cidadãos sem filiação partidária, que procuram estabilidade e capacidade de resposta.
No fundo, quando um jovem que vai atingir a maioridade em 2027 olha para o espectro político, tende a procurar quem lhe ofereça melhores garantias de continuidade dos estudos, acesso à saúde e resolução dos seus problemas e, na minha perspectiva, essa percepção recai no MPLA.
Essa é a sua percepção?
A política é, muitas vezes, uma questão de percepção. No entanto, mais do que a percepção, o que acaba por falar são os factos.
Quando um jovem que vive no Lobito, no Bié ou em Luanda verifica que existe um hospital próximo de si e que deixa de ter de suportar os custos que anteriormente tinha no acesso à saúde, sendo que, para qualquer social-democrata, o sector da saúde é sempre central, isso é um dado concreto.
Há também um aspecto importante que se prende com a capacidade de apresentação de ideias, nomeadamente sobre inteligência artificial, sobre os pilares em que deve assentar o crescimento da economia e sobre soluções concretas para a diversificação económica.
Podemos olhar para experiências de países vizinhos, como a Namíbia e o Ruanda, por exemplo, no que diz respeito à digitalização da administração pública e às políticas de desenvolvimento. A questão é saber que soluções concretas estão a ser propostas para garantir crescimento e desenvolvimento económico sustentável.
Na minha perspectiva, não se vê, com a mesma consistência, essa capacidade de apresentação de soluções por parte de outros actores políticos.
ESPERO QUE, NUNCA GOVERNEM
Entretanto, os outros nunca governaram…
A questão central não está no facto de nunca terem governado. Espero que, nunca governem. A política é, em termos gerais, um facto ou uma acção humana orientada para a conquista, o exercício e a manutenção do poder. Quem está no poder procura manter-se, e quem está na oposição procura, um dia, chegar ao poder.
Eu espero, efectivamente, que a oposição angolana nunca alcance o poder, mas quem decide é o povo angolano. E o povo é quem mais ordena.
Se o povo é quem mais ordena, caberá a ele escolher livremente quem considera ter maior capacidade, melhor organização e, fundamentalmente, quem consegue mobilizar os sectores mais dinâmicos da sociedade para conquistar a sua confiança e o seu voto.
Acredito que os angolanos, de forma consciente, darão um voto de confiança ao MPLA e que a oposição perderá de forma significativa as eleições de 2027.
A oposição, na minha perspectiva, não apresenta ideias nem soluções. Não basta estar no Executivo ou na oposição para ter relevância política. Muitas vezes, quem está na oposição pode apresentar propostas para sectores concretos, como a saúde ou o sector mineiro, sugerindo alternativas ao que está a ser feito no poder.
Mas isso não acontece com a consistência necessária. Não há, na minha leitura, apresentação estruturada de ideias ou soluções.
O LÍDER DE UM PARTIDO NA OPOSIÇÃO LANÇOU UM LIVRO COM FOTOGRAFIAS, COM PAPERS, COM DISCURSO; NÃO TEM NADA, MAIS FOLCLORE DO QUE CONTEÚDO
Partidos na oposição, com a UNITA à cabeça, apresentaram propostas de leis na Assembleia Nacional que, entretanto, foram “chumbadas”…
Nunca vi nenhuma grande ideia concreta no sentido de que, para este caminho que vocês estão a dar ao país, nós temos uma ideia rigorosamente diferente, e que no final do dia o impacto na vida das famílias e das empresas será este e aquele, porque já foi verificado naquele, naquele e noutro país, com as condições estas… nunca vi. Não há nenhuma ideia em concreto que nós consigamos pelo menos parar para pensar. Farei uma pergunta retórica: quando é que, por exemplo, um militante da oposição escreveu um artigo a propor soluções, um livro, um paper sequer a propor soluções… nunca vi… Não há nada de novo.
O líder de um partido na oposição lançou um livro com fotografias, com papers, com discurso; não tem nada, mais folclore do que conteúdo.
Tendo em conta as margens que apresentou, olhando para a realidade nacional, taxa de desemprego elevada, custo de vida elevado, não lhe parece que o seu MPLA está desacreditado? Ainda assim, acredita que o MPLA vencerá as eleições nas margens que indicou?
Como sabe, quem fez o estudo não fui eu. A questão central é que quem vota fá-lo por vários factores. As pessoas votam, muitas vezes, por sentimento, outras por ideologia, e outras ainda por identificação política ou social.
E normalmente, quem vota não são apenas as pessoas que estão nas redes sociais. Vota também quem sente o impacto do Kwenda na sua vida, quem vive no Lobito e percebe que determinadas políticas públicas têm impacto na sua família e na sua actividade económica.
Há, portanto, vários factores que concorrem para um resultado eleitoral.
A forma como vejo o trabalho que tem sido desenvolvido em sectores como a saúde, o saneamento e o apoio aos pequenos e grandes agricultores é relevante. Se olharmos para exemplos internacionais, como a Alemanha, vemos que a sua força económica assenta muito nos pequenos e médios empresários, que fazem a economia circular.
Em Angola, os investimentos na diversificação económica têm procurado fortalecer pequenos produtores e agricultores, permitindo que estes sintam os efeitos das políticas públicas e ganhem confiança no sistema.
Esses actores acabam por ser dos primeiros a reconhecer se há continuidade de políticas que consideram positivas.
O investimento em curso para o crescimento do PIB não petrolífero é também um factor importante. O objectivo de diversificação económica, tendo o petróleo como catalisador de outros sectores, visa precisamente produzir efeitos na vida das famílias e das empresas, garantindo crescimento sustentável.
Depois das eleições de 2027, caso o MPLA vença, é provável que se viva novamente um cenário político de bicefalia dentro da vossa organização partidária. É a favor da bicefalia?
O essencial é o partido estar à altura dos seus desafios. Qualquer solução ou modelo que venha a ser encontrado será, naturalmente, amplamente discutido, e o MPLA saberá, de forma sábia, encontrar a melhor solução.
Acredito que o MPLA segue sempre os seus estatutos e regulamentos internos. E a questão central não é o poder pelo poder, mas o uso do poder como instrumento para transformar positivamente a vida das famílias e das empresas.
Por isso, no momento certo, surgirá esse debate interno, e o que deverá prevalecer será aquilo que for melhor para os angolanos e para o próprio MPLA. O partido é maduro e saberá decidir em conformidade com os seus interesses estratégicos e com o interesse nacional.
Polígrafo África
Publicidade
Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação



0 Comentários