A Casa das Duas Bíblias e outros contos nasceu, na verdade, numa cozinha americana. A minha mãe visitava-me nos Estados Unidos e, naquele espaço doméstico saturado de vapor, cheiros familiares e movimentos antigos das mãos, instalara-se a intimidade particular das conversas que só acontecem quando as defesas baixam e a vida, por instantes, deixa de representar-se a si própria. Foi então que ela, com a lucidez prática das mães africanas, me disse: “Não escrevas apenas livros polémicos sobre política. Escreve sobre a vida do nosso povo. Escreve as histórias engraçadas das nossas pessoas. Escreve coisas que nos celebrem. Que permitam às crianças compreender quem somos. Escreve sobre Angola.”
Prometi-lhe que o faria.
Naquele momento, porém, a promessa parecia quase irrealizável. Eu deixara Angola em 1976, ainda criança, e as minhas recordações do país sobreviviam em estado fragmentário, como películas antigas corroídas pela humidade do tempo. Restavam-me imagens dispersas: vozes interrompidas, cheiros sem origem precisa, sombras, ruídos de quintais, emoções que já tinham perdido o contexto. Durante décadas escrevi longe da terra natal, entre aeroportos, bibliotecas estrangeiras, empregos sucessivos e aquela solidão discreta que costuma acompanhar quem vive demasiado tempo entre línguas, geografias e fronteiras interiores.
E a literatura séria exige mais do que imaginação.
Escrever não consiste apenas em inventar histórias. Consiste em convocar sociedades inteiras para dentro da página. Um escritor precisa de compreender a forma como as pessoas falam quando estão cansadas; aquilo que escondem; aquilo que receiam; as hierarquias invisíveis da família, da religião, da pobreza, da ambição e da sobrevivência. Sem esse conhecimento íntimo, a escrita pode tornar-se tecnicamente admirável, mas espiritualmente vazia, como um edifício impecável onde ninguém realmente habita.
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Foi regressando a Angola, cada vez com maior frequência, que comecei finalmente a perceber o que a minha mãe verdadeiramente me pedira. Ela não queria propaganda sentimental sobre o país. Queria humanidade. Queria atenção. Queria que eu olhasse para os angolanos não como matéria política ou histórica, mas como matéria literária.
E foi então que comecei a encontrá-los.
Um camionista Bié que, durante vinte anos, nunca abandonou o mesmo banco da igreja, não por excesso de devoção, mas por excesso de amor à mulher que o observa do lado oposto do corredor. Uma jovem que vende milho assado no mercado do Huambo com três aventais sempre impecavelmente limpos e que discute passagens bíblicas em inglês perfeito enquanto devolve o troco. Um homem que fugiu de Angola aos dezanove anos depois de engravidar uma rapariga, viveu décadas no Canadá como se tivesse nascido canadiano, e regressa apenas para descobrir que a filha herdou os olhos da mãe e a testa severa do avô. Uma vendedora de mel e batata-doce, à beira de uma estrada do planalto, capaz de resolver equações mentalmente enquanto alinha ananases ao sol e que, quando um marido tardio tenta impor autoridade, inclina apenas a cabeça e continua a trabalhar, como quem concede à arrogância masculina a importância exacta de uma mosca passageira.
Pessoas concretas, não abstrações. Rostos, não símbolos.
Há nesta colectânea um alembamento em Luanda onde quatro mil dólares circulam de bolso em bolso ao ritmo de um drama familiar tão intenso que dispensa qualquer palco; há uma avó que compara duas Bíblias, uma em umbundu e outra em português, procurando a verdade nesse intervalo minúsculo e vertiginoso entre duas línguas, enquanto a artilharia faz estremecer o soalho da casa; há um amor que começa à saída de uma igreja num domingo do Huambo e só atinge maturidade quando dois rostos marcados por nódoas negras se sentam lado a lado, num quintal de Luanda, decidindo que ou enfrentarão juntos o mundo, ou já nada vale realmente a pena; há Leonor, rapariga habituada a pesar tomates no mercado, que descobre, numa noite de festa, que o corpo conserva uma ciência do ritmo que a pobreza não conseguiu destruir; e há ainda um mãe que, numa aldeia holandesa, dilui discretamente a cerveja do esposo com água porque o velho não suporta a violência alcoólica da bebida local, percebendo nesse gesto mínimo, quase invisível, a verdadeira natureza do amor..
Foi trabalhando com o brilhante editor Arlindo Isabel que A Casa das Duas Bíblias encontrou finalmente a sua forma definitiva. O próprio título contém alguma coisa da essência angolana: um país de memórias múltiplas, crenças sobrepostas e narrativas concorrentes, onde diferentes gerações e diferentes versões da história coexistem, por vezes em tensão, por vezes em silêncio, dentro da mesma casa nacional.
Sempre amei o conto porque o conto se aproxima profundamente da memória africana: fragmentário, oral, intenso, capaz de sugerir universos inteiros através de episódios aparentemente pequenos. Num conto, cada frase precisa de carregar atmosfera, carácter, tensão humana e música. Não existe espaço para desperdício.
O leitor não encontrará aqui a Angola dos discursos oficiais nem a Angola esterilizada dos relatórios internacionais. Encontrará antes a Angola das cozinhas fumegantes, das lavras, dos mercados de madrugada e dos alembamentos que terminam em escândalo; a Angola das igrejas onde se canta Luther Vandross em umbundu; a Angola dos quintais onde mulheres de quarenta anos reconstroem a própria vida a partir de ruínas; a Angola onde o sofrimento e a graça frequentemente habitam a mesma frase e, não raras vezes, a mesma pessoa.
A promessa feita à minha mãe naquela cozinha americana foi finalmente cumprida.
A Casa das Duas Bíblias Outros Contos será publicada na União dos Escritores Angolanos em Luanda no dia 3 de Junho 2026 às 16h00
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