O novo aeroporto ergue-se como tronco da cidade de Luanda, na árvore da vida, onde pousam e partem voos de inúmeras companhias, aves metálicas que rasgam o céu aberto com o ímpeto de quem conhece o caminho das nuvens.
Na nossa sofrida floresta de betão, ele acolhe partidas e regressos, viagens rápidas, (in)esperadas, quase sonhadas, uma linha de movimento no corpo cansado da velha cidade de Luanda.
É neste coração suspenso entre a terra e a nuvem que se chega à terra dos Axiluanda, como quem regressa à terra dos sonhos ou simplesmente à terra prometida, onde a memória ainda reflecte a tradição dos nossos povos, amigos do sol, da chuva e dos mares.
Nesse embalar de troca de pista, mudam-se serviços e oportunidades, mudam-se lugares onde, antes, o viajante e outros cidadãos encontravam a sua sobrevivência nos arredores do Aeroporto 4 de Fevereiro e zonas adjacentes.
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Restaurantes, hospedarias, hotéis, casas de câmbio a céu aberto, agências de viagens e mesmo intermediários e mixeiros observam a clientela a desaparecer como água de um rio seco em tempo de cacimbo. Pouco se fala; sente-se apenas uma mudança subtil na alma do Cassenda, Cassequel do Lourenço e Mártires de Kifangondo, onde os oeste-africanos comandam a troca do dólar americano, que, ao que parece, tem os dias contados nas quatro paredes do vento.
O próprio KFC, que tinha filas abarrotadas, observa também o rio minguante, clientes a desaparecer progressivamente. O irritante eco das aeronaves virou saudade; já não se ouvem as asas metálicas a rasgar a rosa dos ventos, nem outras aeronaves a imitarem o voo das aves de rapina na zona do Rocha Pinto, a rasparem os telhados de chapa de zinco, para o arrepio dos mais sensíveis, muitos deles moradores no bairro das Bombas.
Aquele bairro de que diziam as antenas de TV ter tido um paiol desativado logo após o tempo da guerra, mas nem todas as bombas aceitaram abandonar o local. Algumas, disfarçadas, ainda acompanhavam o dia a dia dos novos moradores, em silêncio, sem nada dizer a quem passava todos os dias na linha vermelha, sem ao menos se alarmar quando serviam de limite na baliza de futebol dos miúdos. Assim era o perigo quieto, o perigo sem alarme, o perigo a fingir que não era perigo.
Mas a saída do aeroporto da rua 21 de Janeiro para a zona do Bom Jesus não deixou apenas um vazio no dia a dia dos comerciantes, mixeiros e moradores. Deixou também um vazio na menina dos olhos dos curiosos. Aquela menina que quase tudo observa e não fala. Os apreciadores da cidade de Luanda, aqueles que gostavam de vê-la de cima para baixo, perderam parte da sua bela vista.
E não foram só as aves que emigraram assim que as árvores foram desaparecendo da cidade e arredores, como ágeis fantasmas.
As aves já não mergulham em nuvens de admiração quando observam de cima para baixo…
Mas a mudança do tronco de voo das aves metálicas também se afirma como sinal de progresso no caminhar de Angola pela estrada do desenvolvimento. Um salto importante foi dado nas escadas desse progresso. Embora o pesado investimento tenha custado ao bolso do cidadão, ele eleva-nos para mais próximo do céu.
Assim, encontramos uma estrutura à altura dos aeroportos da idade contemporânea, convencional na forma, mas simbólica na ambição.
Quanto ao olhar dos que colam o rosto à janela do pássaro de metal, sejam os mais ou menos medrosos, há uma descoberta que se impõe com a maravilha da reserva natural da Quiçama, um convite aberto ao encanto da criação divina, guardando para todos o quadro da beleza da sua essência.
Neste ângulo, daqueles que só o voo permite, revela-se um segredo que poucos ainda aprenderam a contemplar.
Aquela chegada a Luanda, nos voos das nossas companhias de bandeira, a TAAG, e outras também proporcionavam, sim, mas havia qualquer coisa de ritual quando a TAAG chegava, principalmente das províncias do “sul do sol”, como dizia o poeta Rui Duarte de Carvalho. Havia um compasso, um anúncio discreto de “estás a voltar, estás a chegar à terra prometida”.
Ao contornar o Atlântico, a norte da Baía de Luanda, era-nos oferecida uma revelação ímpar. A aeronave desenhava a curva e, acima de Cacuaco, na linha da refinaria da Petrangol, iniciava a sua descida quase em linha recta, como uma ave de asas abertas sobre a floresta de betão.
E então os passageiros, muitos com o coração nas mãos, colavam a menina dos olhos às janelas, substituíam o mundo pelo vidro transparente e observavam do alto a cidade da Kianda como nunca.
Era uma vista rara e maravilhosa. Uma vista que se entranhava na emoção de quem a testemunhava. Uma visão que ficava marcada na memória dos mais sensíveis.
Os quintais das antigas indústrias do Cazenga eram observados quase à lupa. A refinaria da Sonangol, deitada como um corpo cansado, barriga para baixo. Os seus tanques de combustível, de boca aberta para os céus. As ruas, como linhas costuradas na arquitectura da velha cidade, elevavam a bela vista. Os engarrafamentos, vistos com olhar de água, lentos, quase imóveis, quase bonitos. A cidade, prédios alinhados, respirações verticais. O estádio da Cidadela e os bairros adjacentes oferecem um ângulo outro, um ângulo novo, um ângulo nosso.
Até os dejectos do Cassequel, misturados com alguns N'gulos, tinham presença naquele quadro do realismo.
E quando o dia vira de costas e a cortina da abóbada celeste nos entrega a sombra da noite, a velha cidade de Luanda, vista do alto, parece um lençol negro, azul-ciano e diamantes espalhados sobre o seu tecido, ou simplesmente uma escurecida com estrelas que confundem diamantes.
A ave metálica da bandeira nacional desce, com o rosto da palanca e o seu eco a invadir os ouvidos dos mais assustados, enquanto muitos rezam para que a aterragem seja tão suave quanto a de um pássaro no tronco da selva de betão da cidade.
Luanda abre-se como uma tela pictórica, um quadro assinado por Viteix, expoente máximo das artes plásticas em Angola. As ruas, com linhas costuradas como rendas, reflectem os faróis das viaturas e os postes de iluminação pública, pontos de luz que confundem a população com estrelas, quando na verdade são apenas janelas de apartamentos e residências espalhadas pela terra dos axiluandas.
Quanto mais a ave de metal se aproxima do solo, mais se revela o encanto da urbe à noite. Uma cidade mais velha que Nova Iorque, Tóquio e tantas outras grandes urbes da civilização contemporânea.
Na janela dos pássaros de metal, a menina dos olhos brilhava como cristal. Nós, moradores desta linha de aterragem, bairros Nelito Soares, Neves Bendinha e Cassequel, víamos as nossas casas a partir do alto, sobretudo em dias de sol aberto.
Toda esta visão, esta oportunidade de observar uma das mais antigas cidades da África Austral, poderá agora estar adiada, ou guardada apenas no imaginário, sobretudo para os que conheceram Luanda vista de barriga para cima, com sol ou com lua.
Essa Luanda aérea, essa Luanda suspensa, que já não chega como antes, mas que continua a existir na memória de quem a viu um dia a partir do céu, sem nunca esquecer os pés no chão.
Pombal Maria
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