No debate económico nacional, o discurso da Sonangol é dominado pela tese do sacrifício e da austeridade. No ano anterior, à margem do fórum “Conversas Economia Sem Makas”, o administrador executivo e director financeiro da petrolífera estatal, Baltazar Miguel, justificou o adiamento da dispersão de 30% do capital da empresa em Bolsa para 2026 com o peso das subvenções estatais aos combustíveis.Na óptica do administrador, a vantagem entre o preço de importação e o preço de venda é o grande entrave para atrair investidores e sanear as contas do grupo.
No entanto, o cruzamento destas declarações públicas, com a recente notícia publicada pelo Club-K, compõem a fuga de informação querevela uma realidade paralela muito mais gravosa.
Enquanto a Sonangol se queixa de perdas operacionais e negoceia com oExecutivo a liquidação de um dívida de 4,5 mil milhões de dólares, as suas próprias subsidiárias não core, como a MSTelcom (que mudou actualmente para Mercury) e a ACS (Angola Comunicações e Sistemas), continuam a funcionar como um saco azul privado. A asfixia da maior empresa pública do país não se deve apenas a factores macroeconómicos, mas sim ao abuso de confiança e à pilhagem sistemática operada por pesos pesados da estrutura.
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O Escândalo ganha contornos de absurdo corporativo quando secompara a sua remuneração e a dos directores sob a sua alçada da Sonangol e os chefes de departamento da ACS.
Como se justifica que, numa empresa tecnicamente falida, que acumula um prejuízo histórico e cujos custos operacionais chegam acima dos150% das suas parcas receitas, o vogal exposto da administração seja o quadro individual mais dispendioso da subsidiária?
A ACS, sob a gestão única e directa de Bruno Neto e Edson Mancoca, foi descaracterizada das suas funções originais de telecomunicaçõespara funcionar como um entreposto de desvios sob facturação fictícia.
O esquema mais gravoso operado pela gestão consistia num sistema de duplicidade de folhas salariais que configura um claro crime deabuso contra a casa-mãe, onde a gerência submetia à Sonangol mapas depessoal com valores substancialmente inflacionados para garantir orepasse de verbas de comparticipação destinadas a salários. Aos funcionários, contudo, eram emitidos recibos com valores bastante inferiores aos declarados á petrolífera. A diferença financeira entre valor libertado pela Sonangol e os ordenados pagos era desviada para fora do circuito contábil oficial, alimentando o “saco azul” da administração.
Para além da fraude salarial, a área de compras liderada por Bruno Neto instituiu um monopólio interno para a assistência técnica à MSTelcom e à ACS bem como fornecedores que eram aliciados a infeccionarem os preços sob pena nunca poderem operar seja na subsidiária e extensível à casa-mae. Através de contratos de exclusividade forçados, todos os serviços eram canalizados aos seus fornecedores com facturação sobre-dimensionadas, milhares de milhões de kwanzas foram transferidos do erário público directamente para contas privadas dos envolvidos.
A Blindagem familiar e a incoerência no topo do poder
Esta rede de desvios ajuda a decifrar a feroz resistência de Bruno Neto àaplicação integral de um plano de optimização de pessoal e transformação da empresa. Manter a autonomia da folha de pagamentos da ACS e adiar o processo de transição corporativa é a única forma de garantir a continuidade do fluxo de desvios.
Mas como consegue um administrador com este histórico de resultados negativos, que recentemente liderou um investimento fracassado de 20milhões de dólares em rede móvel sem retorno, manter-se inamovível enquanto sucessivas comissões executivas caem ao seu lado?
A resposta reside no nepotismo que asfixia a gestão pública do país. Bruno Neto é ligações directas com o próprio Baltazar Miguel, odirector financeiro da Sonangol, que na sua imprensa defende a austeridade e o fim das subvenções aos cidadãos comuns. Beneficia também da cumplicidade de Osvaldo Inácio, outro administrador de peso na petrolífera.
Esta blindagem familiar funciona como um autêntico “colete à prova de bala” contra qualquer inquérito sério, neutralizando as auditorias dasconsultoras internacionais e mantendo Bruno Neto no controlo efectivo dos cordões financeiros do grupo.
Nota: A análise entre o discurso de Baltazar Miguel e a realidade do que acontece escancara a incoerência cia que atrasa o desenvolvimento de Angola. Para a opinião pública, a Sonangol apresenta-se como umainstituição rigorosa que precisa de cortar nas subvenções sociais para se tornar sustentável aos olhos dos investidores globais. Nos bastidores, porém a mesma Sonangol tolera e subsidia a pilhagem sistemática dos seus activos não-core para manter os luxos e os desvios de figuras protegidas pela hierarquia familiar do poder.
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