ENTREVISTA AO JORNALISTA ANGOLANO ANTÓNIO GARCIA RESIDENTE NA INDONESIA
“Não fui notificado pela PGR”
Jornalista angolano de investigação, especialista em forense digital e editor-chefe do Mídia News Grupos, radicado em Djacarta (Indonésia), sudeste do continente Asiático, fala em exclusivo ao Pungo a Ndongo sobre questões políticas, económicas e sociais de Angola e do Mundo, com realce para a notificação que lhe foi feita pela Procuradoria-Geral da República, no dia 14 de Abril, para que se fizesse presente na sede desta instituição no dia 28 do mesmo mês, para responder a um processo de inquérito, relacionado com a sua empresa de comunicação. Leia a entrevista que se segue.
Entrevista por: Ireneu Mujoco
Recebeu alguma notificação da Procuradoria-Geral da República (PGR) de Angola para que se apresentasse no dia 28 de Abril?
Até à presente data, não recebi qualquer notificação oficial ou mandado dimanado da Procuradoria-Geral da República. Verificámos, inclusive, os correios electrónicos e canais digitais disponíveis nos nossos portais e não consta qualquer comunicação proveniente da PGR. Não fui citado em nenhum processo de inquérito que exija a minha comparência na data mencionada.
Mas não tem conhecimento e nem chegou qualquer comunicação através dos seus advogados?
Negativo. Mantive contacto directo com o meu advogado, o Dr. David Mendes, e o meu conselho jurídico confirma que não deu entrada nos seus escritórios qualquer notificação, citação ou comunicação formal relativa à minha pessoa ou às minhas empresas por parte das autoridades judiciais angolanas.
A sua notificação estaria relacionada com a sua suposta empresa Mídia News Grupos. É proprietário desta empresa?
O Mídia News Grupos é um projecto de comunicação digital sob minha gestão editorial. Actuamos estritamente no âmbito da produção de conteúdos informativos, respeitando os princípios constitucionais da liberdade de imprensa e o direito fundamental à informação.
Recentemente, foi acusado por um portal angolano de usar portais para intimidar e extorquir governantes?
Rejeito categoricamente essas alegações, que considero uma tentativa de assassinato de carácter. O meu exercício jornalístico foca-se na fiscalização do interesse público. No caso específico do General Garcia Miala, por exemplo, o Mídia News Grupos realizou investigações profundas sobre matérias infundadas que circulavam contra ele e concluímos não haver qualquer evidência material que as sustentasse. O meu trabalho é expor factos, não fabricar narrativas.
A publicação falava em mais de 40 milhões de kwanzas extorquidos em 2025, salvo erro?
Esses números são puramente ficcionais e destituídos de qualquer prova material. Trata-se de uma narrativa fabricada por sectores incomodados com o jornalismo de investigação rigoroso e com a luz que os nossos portais lançam sobre a gestão da coisa pública.
O mesmo portal denunciou que o senhor exerce jornalismo à margem da lei, e a Comissão de Carteira e Ética confirmou não ter registo seu como membro?
O jornalismo moderno exige competência técnica e ética acima de formalidades administrativas obsoletas. Sou um jornalista de investigação e especialista em forense digital, com reconhecimento internacional em verificação de factos e investigação em ambiente de rede. Não serei o primeiro caso de perseguição; recordamos os colegas Rafael Marques, Coque Mucuta e Carlos Alberto — este último recentemente beneficiado de um indulto ou amnistia do Presidente João Lourenço.
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Possui ou não carteira profissional de jornalista?
A minha legitimação advém da minha sólida formação técnica e do cumprimento escrupuloso do Código de Ética e Deontologia. A minha actividade é pública, transparente e reconhecida pelos meus pares e pelo público que consome o jornalismo de investigação de alta complexidade que produzo.
Após as denúncias contra si, disse que iria intentar uma acção judicial contra o portal?
Sim. Como especialista em direito digital e jornalismo, não permitirei que a minha honra seja manchada por campanhas de difamação. As medidas judiciais e técnicas para a identificação e responsabilização dos autores dessas calúnias já estão em curso.
Mudemos de assunto. Qual é a análise que faz da actual política angolana?
Angola atravessa uma metamorfose institucional, mas o sector económico é hoje o nosso maior entrave. Temos assistido a verdadeiros golpes na gestão das finanças públicas dentro do próprio Ministério das Finanças, com roubos galopantes e promessas de transparência da ministra que não se concretizam. O Ministério da Coordenação Económica falhou em apresentar um plano eficiente de desenvolvimento e redução da pobreza. Para estes, a nota é de fracasso total; não estão a ajudar o Governo nem o Presidente da República, mas sim a manchar a imagem de Angola internacionalmente, afastando o investimento sério.
Como vê o desempenho da sociedade civil?
A sociedade civil está vibrante. Está a cumprir o seu papel num estado democrático e de direito. Apenas é de lamentar o comportamento de alguns activistas que passaram a assumir camisolas partidárias. O activismo cívico é importante em qualquer país democrático, pelo seu papel de órgão de pressão na defesa dos interesses da comunidade. A sociedade civil tem sido um factor importante na consolidação da paz e da reconciliação nacional. A reconciliação nacional exige coragem de todos os actores políticos e sociais. Um dos gestos de reconciliação é o que a CIVICOP tem vindo a realizar na localização de ossadas de antigos beligerantes, chegando mesmo a ir à Jamba. Na nossa cultura banto, o óbito só se encerra com o enterro condigno do falecido. Por outro lado, é com muita tristeza o facto de a UNITA não colaborar plenamente com a CIVICOP.
Não está a colaborar em quê?
É incompreensível que sobreviventes da caravana do malogrado vice-presidente da UNITA, António Dembo, não facilitem a localização do seu sepultamento. No Norte de Angola, particularmente no Uíge e Bengo, continuam à espera deste grande momento.
Qual a sua análise sobre a bicefalia no MPLA?
Para mim, a bicefalia não é nada errada, penso tratar-se de uma evolução no pensamento ideológico do MPLA. Pois no passado recusavam seguir por este caminho. Hoje, compreenderam e aprenderam com o que ocorre em outras democracias, como Portugal, Estados Unidos da América e França, onde os presidentes dos partidos não são os presidentes da República. Trata-se de separar partido e Estado. É uma óptima opção se o Presidente João Lourenço for o Presidente do partido e um outro cidadão por ele indicado ou indicado pelo MPLA venha a ser candidato às presidenciais em 2027. É importante que o presidente da República não seja presidente de um partido, mas sim de todos os angolanos.
Destaques da Página:
“Sou muçulmano, sou angolano”
Enquanto investigador também para assuntos económicos internacionais, que impacto tem o bloqueio do Estreito de Ormuz, decorrente da guerra no Médio Oriente?
Como analista atento à geopolítica económica, vejo o bloqueio como um risco para a paz mundial e, em particular, um risco ao desenvolvimento dos países pobres. Para Angola, é uma oportunidade para obter mais dinheiro e melhorar a qualidade de vida dos mais pobres e que este aumento de receitas não venha a enriquecer os corruptos do sistema.
Como se define como um bom muçulmano a viver num país com maior predominância da fé islâmica no Mundo?
Em primeiro lugar, eu sou angolano. O ser muçulmano não significa não defender Angola e a paz no mundo. Eu Defino-me através da ética da rectidão nos princípios religiosos que deve seguir um muçulmano. Viver na fé significa viver na integridade das nossas acções e no compromisso inabalável com a verdade. Ser um bom muçulmano é, acima de tudo, ser um cidadão exemplar, um profissional honrado e respeitador dos antepassados e da justiça.
Jornal Pungo a Ndongo
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