O Conto Como Crime Perfeito- Sousa Jamba



Durante muitos anos, li os contos com a condescendĂȘncia com que se olha para um criminoso de pouca monta: interessante, talvez engenhoso, mas incapaz de abalar verdadeiramente a ordem do mundo. O romance, esse sim, parecia-me o grande assalto. Entrava pela porta principal da literatura com mapas, cĂșmplices, tĂșneis, refĂ©ns, cofres, genealogias inteiras e uma ambição capaz de ocupar vĂĄrias geraçÔes. O conto parecia-me outra coisa: um gesto rĂĄpido, uma lĂąmina escondida na manga, um desaparecimento sem aparato.


Demorei demasiado tempo a perceber que estava a confundir dimensĂŁo com perigo.


O romance pode cercar uma cidade. O conto deve abrir uma fechadura no escuro, sem fazer ruído, antes que alguém respire. A sua grandeza não estå na extensão da operação, mas na precisão do golpe. O contista não dispÔe de exércitos, nem de temporadas inteiras, nem de centenas de påginas para convencer o leitor. Tem poucos minutos. Tem uma sala, uma sombra, uma frase. E com isso precisa de deixar uma marca que não desapareça.

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Por isso o conto é, talvez, a forma literåria mais próxima do crime perfeito. Nada deve parecer excessivo. Nada deve denunciar o mecanismo. Nenhuma palavra pode estar no lugar errado, porque uma palavra a mais é uma impressão digital; uma explicação desnecessåria é uma testemunha; uma personagem mal colocada é a janela deixada aberta. O contista trabalha contra a vigilùncia do leitor. Move-se com luvas. Apaga rastos. Coloca, no início, aquilo que só compreenderemos no fim. E quando saímos do texto, jå fomos atingidos.


Num romance, a verdade pode chegar de carruagem. Num conto, ela salta-nos Ă  garganta.


Foi isso que comecei a compreender ao escrever os textos de A Casa das Duas BĂ­blias e Outros Contos. NĂŁo me interessava anunciar sentimentos como quem pendura cartazes numa praça. Queria encontrar o instante em que uma vida inteira se denuncia apesar de si mesma. Em Cerveja com Água, o amor nĂŁo precisava de se ajoelhar, nem de dizer o prĂłprio nome. Bastava aparecer disfarçado de cuidado: uma mulher que enfraquece a cerveja do marido para lhe prolongar os dias; folhas secas retiradas do caminho; duas pessoas idosas que continuam a rir-se das mesmas histĂłrias porque, no fundo, jĂĄ nĂŁo Ă© a novidade que as faz rir, mas a permanĂȘncia. O amor, ali, nĂŁo entra com flores. Entra com ĂĄgua.


Em Elavoko, a culpa também não podia ser tratada como ideia elegante. A culpa, quando é verdadeira, tem corpo. Usa sapatos. Guarda cartas. Envelhece dentro de gavetas. Atravessa oceanos sem comprar bilhete, porque jå vai alojada no peito de quem viaja. Um homem pode mudar de continente para reparar o passado; mas o passado, se ainda estiver vivo, senta-se ao lado dele no avião e espera pacientemente pela aterragem.


Em A Casa das Duas BĂ­blias, a fĂ© nĂŁo se comporta como um sistema. NĂŁo discute. NĂŁo vence debates. NĂŁo precisa de pĂșlpito. Vive numa avĂł que passa os dias entre uma BĂ­blia em umbundu e outra em portuguĂȘs, como quem escuta duas margens do mesmo rio. EstĂĄ no papel gasto, na vela que insiste contra a noite, na mĂŁo pousada sobre a cabeça de um rapaz que a guerra tornou pequeno demais para o prĂłprio medo. A fĂ©, nesse conto, nĂŁo Ă© uma resposta. É uma presença que permanece quando as respostas fugiram.


Foi assim que aprendi a desconfiar das minhas antigas hierarquias. O romance continua a parecer-me uma arte magnífica: uma vasta måquina de tempo, capaz de acompanhar famílias, países, ruínas, amores, derrotas e impérios. Mas o conto pertence a outra ordem de intensidade. O romance constrói uma casa onde podemos viver durante semanas. O conto deixa uma chave dentro da nossa mão e só mais tarde descobrimos que ela abre uma divisão secreta da nossa própria memória.


A brevidade, afinal, nĂŁo Ă© modĂ©stia. É risco. É escrever sem paraquedas. É aceitar que cada frase terĂĄ de carregar mais do que o seu prĂłprio peso. É confiar que uma pequena cena, se for exacta, pode iluminar uma existĂȘncia inteira.


Hoje jĂĄ nĂŁo penso no conto como uma capela ao lado da catedral do romance. Penso nele como uma caixa negra: pequena, resistente, quase invisĂ­vel, mas capaz de guardar, intacto, o momento decisivo de uma vida.


Continuo a amar os romances, com as suas avenidas largas e as suas multidÔes. Mas aprendi a respeitar essa outra forma, mais breve e mais implacåvel, que chega sem trombetas, se senta diante de nós, diz apenas o indispensåvel e desaparece.


E quando damos por ela, levou-nos alguma coisa.


Talvez seja esse o seu triunfo: o romance ocupa tempo; o conto rouba eternidade.

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