Há uma imagem que muitos angolanos conhecem bem: uma casa em construção.
Primeiro levanta-se o muro. Depois vem a porta. Mais tarde chegam as janelas. Às vezes a família entra antes do reboco final. Há cimento num canto, areia no outro, ferros à espera de melhor tempo e uma certeza silenciosa de que, com trabalho, paciência e organização, aquela obra acabará por se transformar em casa.
Angola, em muitos aspectos, também tem sido uma grande construção colectiva.
Fisioterapia ao domicílio com a doctora Odeth, liga agora e faça o seu agendamento, 923593879 ou 923328762
Construímos a paz. Reerguemos instituições. Formámos quadros. Expandimos escolas, universidades, infra-estruturas, serviços públicos, empresas, iniciativas sociais, culturais e desportivas.
Ao longo dos anos, o País foi aprendendo, corrigindo, avançando e procurando encontrar caminhos próprios para responder às expectativas da sua população.
Mas há uma pergunta que precisa de continuar no centro da nossa reflexão nacional e africana: como transformar a energia da juventude em capacidade produtiva, cidadã, criativa e institucional?
Durante muito tempo, habituámo-nos a dizer que os jovens são o futuro. A frase é verdadeira, mas incompleta. Os jovens são também o presente. São o estudante que procura orientação. São a jovem empreendedora que tenta formalizar o seu pequeno negócio. São os recém-licenciados que procuram a primeira oportunidade. São os atletas que treinam com disciplina. São os artistas que transformam talento em identidade cultural. São os técnicos, agricultores, criadores digitais, comunicadores, programadores, professores, enfermeiros, vendedores, motoristas, investigadores e voluntários que, todos os dias, dão corpo a uma Angola em movimento.
A juventude não deve ser vista apenas como faixa etária. Deve ser vista como força estratégica da Nação.
E falar da juventude angolana é, inevitavelmente, falar de África.
O nosso continente vive uma das maiores transformações demográficas do século XXI. África é hoje o continente mais jovem do mundo. A União Africana estima que existam mais de 400 milhões de jovens africanos entre os 15 e os 35 anos. As Nações Unidas têm igualmente destacado que cerca de 70% da população da África Subsaariana tem menos de 30 anos.
Estes números não são apenas estatísticas. São uma responsabilidade histórica.
África tem diante de si uma oportunidade rara: transformar uma geração numerosa numa geração preparada, produtiva, inovadora e comprometida com o desenvolvimento. Mas essa oportunidade não se realiza automaticamente. Uma população jovem pode ser uma grande vantagem, mas também exige educação, saúde, competências, emprego, empreendedorismo, cultura, desporto, tecnologia, cidadania e instituições capazes de organizar expectativas.
A pergunta que se coloca a Angola é a mesma que se coloca a muitos países africanos: como ligar educação a emprego, talento a oportunidade, tecnologia a inclusão, cultura a economia, desporto a desenvolvimento humano e cidadania a participação responsável?
A resposta não está apenas numa instituição, nem apenas numa geração, nem apenas num sector. Está na capacidade colectiva de organizar sistemas que permitam aos jovens aprender, trabalhar, empreender, competir, criar, servir e liderar.
Nenhum País se desenvolve apenas porque tem jovens talentosos. O talento é ponto de partida. O que transforma talento em impacto é método, organização, disciplina, instituições, famílias comprometidas, escolas funcionais, empresas abertas à formação, comunidades participativas e políticas públicas capazes de dialogar com a realidade concreta das pessoas.
Amartya Sen lembra-nos que desenvolvimento é expansão de capacidades reais. Isto significa que desenvolver um País não é apenas aumentar números; é aumentar possibilidades. É permitir que mais pessoas tenham condições para escolher, criar, trabalhar, aprender, participar e contribuir.
Daron Acemoglu e James Robinson mostram que as instituições são decisivas para o destino das Nações. Francis Fukuyama fala da confiança como elemento essencial da prosperidade social. E, olhando para a nossa realidade africana, Achille Mbembe ajuda-nos a compreender que África precisa de ser pensada não apenas a partir dos seus desafios, mas também a partir da sua capacidade de reinvenção.
No caso de Angola, essa reinvenção passa necessariamente pela juventude.
Quando uma família investe na educação de um filho, não está apenas a formar uma pessoa. Está a investir no futuro de uma comunidade. Quando uma escola orienta melhor os seus alunos, está a reduzir incertezas. Quando uma empresa abre espaço para estágios e aprendizagem, está a preparar o seu próprio futuro. Quando uma federação desportiva organiza melhor os seus escalões de formação, está a construir disciplina, identidade e representação nacional. Quando uma associação cultural apoia jovens criadores, está a proteger memória e a gerar valor. Quando uma comunidade escuta os seus jovens, está a fortalecer o tecido social.
Por isso, a juventude deve estar no centro das decisões familiares, empresariais, sociais, académicas, culturais, desportivas e institucionais.
Não basta celebrar os jovens em datas especiais. É preciso criar mecanismos permanentes de acompanhamento, formação, orientação e integração.
Não basta dizer que o empreendedorismo é importante. É preciso ensinar gestão, literacia financeira, ética de trabalho, cultura de poupança, uso produtivo da tecnologia e capacidade de transformar ideias em soluções.
Não basta formar licenciados. É preciso formar pessoas capazes de resolver problemas reais. Não basta valorizar o desporto quando há medalhas. É preciso reconhecer o desporto como escola de disciplina, saúde, liderança, inclusão e identidade nacional.
A juventude angolana precisa de oportunidades, mas também precisa de exigência.
Este ponto é importante. Valorizar os jovens não significa retirar-lhes responsabilidade. Pelo contrário. Uma juventude preparada deve ser chamada ao esforço, ao estudo, à pontualidade, ao mérito, à seriedade, à leitura, ao trabalho, ao respeito pelas instituições, à participação cívica e à construção de soluções.
Também aqui há uma responsabilidade dos próprios jovens.
Nenhum País se transforma apenas por expectativa. Transforma-se por participação. A juventude deve procurar formação, organizar-se melhor, evitar atalhos fáceis, desenvolver competências, respeitar processos, aprender com os mais velhos e, ao mesmo tempo, trazer novas ideias para a vida pública, económica, cultural e social.
Angola precisa da energia dos jovens, mas precisa também da sua disciplina.
Precisa da sua criatividade, mas também da sua consistência.
Precisa da sua voz, mas também da sua preparação.
Precisa da sua ambição, mas também do seu compromisso.
Este desafio torna-se ainda mais relevante quando olhamos para o continente africano como espaço de futuro económico.
A Zona de Comércio Livre Continental Africana representa uma das maiores apostas de integração económica do mundo, reunindo um mercado de mais de mil milhões de pessoas. Mas nenhum mercado continental será plenamente aproveitado se os jovens africanos não forem preparados para produzir, inovar, competir e cooperar.
A integração africana não deve ser vista apenas como circulação de bens. Deve ser também circulação de ideias, competências, conhecimento, serviços, cultura, tecnologia e talento. Angola, pela sua história, geografia, juventude, recursos, identidade cultural e posição estratégica, tem condições para participar activamente nessa construção.
Mas participação continental começa com preparação nacional.
Se queremos uma Angola mais produtiva, precisamos de jovens preparados para produzir. Se queremos uma Angola mais inovadora, precisamos de jovens expostos à ciência, tecnologia e criatividade. Se queremos uma Angola mais saudável, precisamos de desporto, prevenção e educação. Se queremos uma Angola mais participativa, precisamos de cidadania responsável. Se queremos uma Angola mais competitiva, precisamos de transformar talento em competência.
A juventude africana não é apenas uma promessa bonita para discursos. É o maior teste da nossa capacidade colectiva de organizar o presente e preparar o futuro.
Uma casa em construção só se transforma em casa quando cada parte cumpre a sua função: o alicerce, as paredes, o tecto, as portas, as janelas e as pessoas que lhe dão vida.
Também uma Nação se constrói assim.
Com memória.
Com trabalho.
Com responsabilidade.
Com juventude preparada.
E com a convicção de que o desenvolvimento de Angola será tanto mais forte quanto maior for a capacidade de transformar a energia dos seus jovens em futuro comum, dentro de uma África que também procura afirmar-se, cooperar e ocupar o seu lugar no século XXI.
Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação



0 Comentários