JÁ PODEMOS COMEÇAR A DIZER ADEUS JOÃO LOURENÇO

 


Existe uma velha licção da História que atravessa séculos, continentes e sistemas políticos: os grandes poderes raramente são destruídos pelos seus adversários externos. Quase sempre começam a morrer por dentro. Antes da queda, instala-se a autoconfiança excessiva. Depois vem o isolamento da liderança, a substituição da crítica pela bajulação, a ilusão de que a máquina do poder é capaz de controlar todas as variáveis e, por fim, a incapacidade de interpretar os sinais que surgem dentro da própria organização. Quando o líder deixa de ouvir os seus militantes, passa a ouvir apenas aqueles que dependem dele para permanecer no poder. É nesse momento que nasce o princípio do fim.


A actual disputa interna no MPLA desperta reflexões que vão muito além da simples apresentação de candidaturas. Independentemente do desfecho do processo, alguns acontecimentos revelam erros estratégicos que, à luz da História política, merecem atenção. Não porque determinem inevitavelmente um resultado, mas porque reproduzem padrões observados em inúmeros regimes que, durante muito tempo, acreditaram ser inabaláveis.

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O primeiro desses erros foi transformar uma candidatura à presidência do partido num acto quase administrativo. João Lourenço comunicou a sua intenção ao Bureau Político, mas não procurou convencer a base militante das razões que justificariam a renovação do seu mandato. Todo grande líder compreende que a autoridade formal não substitui a legitimidade política. Um presidente pode controlar os órgãos dirigentes, mas só permanece forte quando mantém viva a confiança daqueles que sustentam o partido.


A História está repleta de exemplos. O último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, descobriu demasiado tarde que o verdadeiro problema não vinha apenas do Ocidente. O sistema soviético começou a desmoronar quando as próprias elites do Partido Comunista deixaram de acreditar na sua capacidade de liderança. O golpe fracassado de agosto de 1991 mostrou ao mundo que o maior inimigo da União Soviética já não estava em Washington; encontrava-se dentro de Moscovo. Meses depois, um império que parecia eterno desaparecia do mapa.


Situação semelhante ocorreu na Roménia. Durante décadas, Nicolae Ceaușescu acreditou que o controlo absoluto do Estado garantia também o controlo do partido e da sociedade. No entanto, quando realizou o famoso comício de Bucareste, em dezembro de 1989, esperava ouvir aplausos. Pela primeira vez, ouviu vaias. Bastaram alguns segundos para perceber que o medo já não era suficiente para sustentar o regime. Dias depois, o seu governo havia caído e o casal presidencial seria executado. O momento decisivo não foi a força da oposição, mas a perda da autoridade sobre aqueles que durante anos lhe haviam demonstrado fidelidade.


Também o Estado Novo, em Portugal, não caiu porque um exército estrangeiro invadiu Lisboa. O regime foi derrubado quando sectores das próprias Forças Armadas concluíram que o sistema já não conseguia responder aos desafios políticos, económicos e militares do país. A Revolução dos Cravos demonstrou que nenhum regime resiste quando as suas próprias estruturas deixam de acreditar no projecto que defendem.


O mesmo aconteceu com o sistema do apartheid na África do Sul. Embora a pressão internacional tenha sido importante, a mudança tornou-se inevitável quando uma parte significativa da elite governante concluiu que manter o modelo significaria conduzir o país ao colapso. A transição nasceu tanto das pressões externas quanto das divisões internas do próprio poder.


Os impérios da Antiguidade também ensinam a mesma lição. O Queda do Império Romano do Ocidente costuma ser lembrado pelas invasões bárbaras, mas estas apenas aceleraram um processo de decomposição que já durava décadas. Corrupção administrativa, disputas entre generais, crises sucessórias, perda de legitimidade política e incapacidade de renovar as instituições corroeram lentamente Roma. Quando os invasores chegaram, encontraram um império enfraquecido por conflitos internos. O inimigo externo apenas empurrou uma estrutura que já apresentava profundas fissuras.


O mesmo padrão repetiu-se no Império Otomano. Durante séculos considerado uma das maiores potências do mundo, foi perdendo capacidade de adaptação enquanto disputas internas, crises económicas e resistência às reformas consumiam a sua vitalidade. Quando chegou a Primeira Guerra Mundial, o império já era descrito como “o homem doente da Europa”. O colapso militar foi apenas a etapa final de um longo processo de desgaste interno.


Nem mesmo o Terceiro Reich escapou a essa lógica. Nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, multiplicaram-se conflitos entre dirigentes, disputas de poder e tentativas de sobrevivência política. A confiança de Adolf Hitler nos seus colaboradores diminuía diariamente, enquanto muitos dos seus aliados já procuravam negociar o futuro. O colapso militar coincidiu com o colapso da confiança dentro da própria liderança.


Esses exemplos demonstram que a sobrevivência política nunca depende apenas da força institucional. Ela depende, sobretudo, da capacidade de preservar a confiança dos que integram o núcleo do sistema. Quando os dirigentes passam a receber apenas informações filtradas, quando os assessores deixam de alertar para os riscos e passam apenas a confirmar aquilo que o líder deseja ouvir, instala-se um fenómeno conhecido na Ciência Política como “isolamento decisório”. O governante continua cercado de pessoas, mas torna-se progressivamente incapaz de compreender o ambiente político real.


É precisamente neste ponto que qualquer liderança deve exercer prudência. Uma candidatura construída sem ampla mobilização da base, uma recolha de assinaturas percebida como pouco transparente, uma apresentação antecipada da candidatura, a ausência de um gesto político de reconhecimento aos militantes e a eventual subestimação de concorrentes internos são elementos que alimentam interpretações sobre o estado da coesão partidária. Em política, perceções frequentemente produzem efeitos tão relevantes quanto os próprios factos.


Os números, por sua vez, possuem uma força simbólica extraordinária. Eles tornam-se narrativas. Tornam-se manchetes. Tornam-se argumentos. Independentemente da validade jurídica das candidaturas ou da evolução do processo interno, a comparação entre os apoios declarados passou a integrar o debate político e inevitavelmente influencia a perceção pública acerca da correlação de forças no interior do partido.


A História também mostra que os últimos momentos de um poder raramente são marcados pela ausência de força. Pelo contrário. Frequentemente são os períodos em que o aparelho estatal parece mais robusto, mais centralizado e mais confiante. Porém, por trás dessa aparência de estabilidade, multiplicam-se sinais silenciosos: dirigentes que deixam de aparecer, aliados que evitam comprometer-se, discursos que já não mobilizam, decisões tomadas por círculos cada vez mais restritos e uma crescente distância entre a liderança e a realidade. O poder continua de pé, mas a legitimidade começa a desaparecer.


É por isso que os maiores estrategas políticos sempre defenderam que o primeiro dever de um líder não é derrotar a oposição, mas preservar a unidade da sua própria organização. A oposição pode explorar divisões; dificilmente consegue criá-las sozinha. São as fraturas internas, a perda de confiança e os erros de avaliação que normalmente transformam partidos aparentemente invencíveis em organizações vulneráveis.


A História não determina o futuro, mas oferece advertências. Ignorá-las é um risco que muitos líderes, antes considerados insubstituíveis, pagaram caro. Afinal, os impérios não costumam ruir quando os seus inimigos se tornam mais fortes. Eles começam a cair quando deixam de perceber que as suas muralhas já estão rachadas por dentro.


Hitler Samussuku

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