O "ASSUNTÃO" QUE GANHOU VIDA NOS ÚLTIMOS DIAS
(Semanário Angolense nr 220, de 30 Junho a 7 de Julho 2007)
PREDADORES DO SEXO
O fenómeno alastrou-se e já constitui um caso de assalto puro. Para encontrarem emprego ou serem promovidas, muitas mulheres angolanas são obrigadas a dar o corpo. Do “teste do sofá” a outros “psicotécnicos”, o SA analisa um comportamento social que ameaça tornar o país numa cópia abjecta de Sodoma e Gomorra.
De súbito, a nossa sociedade foi tomada por um fenómeno de perversão e abuso sexual, sem que as pessoas de direito lhe ponham cobro. Ele vem crescendo com todo o mundo a observar, impavidamente. Trata-se do assédio sexual, um tema que o Semanário Angolense aborda nesta edição, em função do número elevado de casos, denunciados ou vividos em silêncio pelas vítimas, que são essencialmente mulheres. Há homens que também sofrem a “pressão” de algumas “duronas”, mas estes são outros quinhentos...
Já todos ouvimos falar de professores que tiram (mau) proveito do seu poder para chumbar ou aprovar estudantes e, com essa arma nas mãos, chantagearem e abusarem de jovens alunas. E é um sem-número de raparigas que não têm outro remédio e acabam vergadas à concupiscência do professor. Este professor está longe de usar a sedução, entendida como uma característica do macho para cortejar a fêmea no mundo natural. Este reles professor não tem nada a ver com Cahitu, o mestre-escola paralítico cunhado numa das obras de Uanhenga Xitu, que se envolve com uma menina, aluna sua, numa aldeia de Icolo e Bengo. Apaixonado, Cahitu usa da sedução e conquista.
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Não é isso que está a acontecer nesta nossa sociedade real, bem real e não fictícia, hoje literalmente invadida por uma classe de homens que aborda o sexo oposto sem usar da conquista. Tendo por objectivo último o sexo e só o sexo, eles transformaram-se em predadores que envolvem a presa pela via da coerção e da chantagem. Predadores do sexo, é o que eles são!
O professor acima aludido deixou de ser o predador mais comum. Conta-se que um importante banqueiro sujeita as jovens candidatas a emprego no seu banco, um dos mais importantes do país, ao “teste do sofá”. Usa, para tanto, um chalé que construiu de propósito para isso em Luanda Sul. Ao que dizem, trata-se de assalto puro: ou as infelizes dão o corpo, ou então não têm emprego.
Vão obrigatoriamente ao “teste do sofá” mesmo raparigas que já tenham passado, com êxito, pelos testes de admissão em uso no banco. Dir-se-ia que o sofá e os desvarios do tarado banqueiro são parte indissociável dos psicotécnicos. Ninguém lhe escapa.
É provável que haja algum exagero em tais relatos. Mas, mesmo que assim seja, já não há com evitar que muitas das jovens que estão ao balcão do antigo e do novo banco que o homem criou se sintam constrangidas diante dos clientes e, já agora, da sociedade. Afinal, a história já rola desenfreada, qual bola de neve. E, para complicar, nenhuma delas tem a marca do “teste do sofá” na testa.
Bancos, escolas primárias, faculdades, restaurantes, ministérios, repartições públicas... a doença, pelos vistos, gangrenou. Já poucos locais existirão nesta Luanda que não tenham sido contagiados pelo “vírus” do assédio sexual, que segue à solta, fazendo cada vez mais vítimas.
É preciso parar essa “pandemia” que tem vindo a provocar estragos silenciosos no interior de inúmeros lares, onde os homens passaram a olhar para as respectivas esposas de soslaio. A suspeição está a ganhar campo e ameaça destruir os frágeis elos que restam em determinadas família.
Os homens ficam geralmente apreensivos (vá lá o diabo tecê-las) quando vêem as mulheres e filhas saírem de casa em busca de emprego . A promoção de uma mulher, ainda que obtida por mérito académico, técnico e profissional, é, na maior das vezes, olhada com desconfiança.
Nos tempos que correm, as mulheres que exercem o ofício de secretária particular viram o respectivo status social cair ainda mais. Um vulgar conflito de trânsito entre um homem e uma mulher que conduza um jipe de luxo termina invariavelmente com ele a atirar o célebre remoque: “a senhora pode chamar o seu amante general que lhe ofereceu o carro, que aqui ninguém tem medo”.
É, pois, para chamar a atenção para o perigo que representa para a sociedade , de um modo geral, e para as famílias, em particular, estarmos a “coisificar” as relações entre homens e mulheres, estabelecendo-as numa base de meras trocas de favores sexuais, onde a afectividade para nada conta, que o Semanário Angolense entendeu escalpelizar o assunto nesta edição.
Não estamos a dramatizar nem a confundir nada. Quando abordámos a temática do assédio sexual, falamos de predadores sexuais que podem perverter o equilíbrio da nossa sociedade, que até prova em contrário mantém-se fundada na família. E esta será sempre uma inigualável ponte entre as gerações, vector de educação, lugar de desenvolvimento afectivo, instância de solidariedade e entreajuda. (Cfr, «A Cultura geral, de A a Z» Plátano, Edições Técnica, 2003.)
É bom que se entenda que os predadores sexuais a que estamos aludindo não constituem, de forma nenhuma, a classe de homens - e isso é universal e milenar - que contesta a instituição da família, em nome da liberdade individual e, sobretudo, sexual. Não são nada disso. Os nossos predadores sexuais não se regem por paradigma algum, nem mesmo moral.
Nem sequer devem ser confundidos com essa figura idílica do imaginário latino denominada D. Juan, o sedutor que corteja as mulheres, se acha insuperável nisso e depois troça delas.
O nosso predador não é nenhum Casanova, estruturalmente apostado em que todas as mulheres rompam os respectivos compromissos por ele. Não é disso que aqui se trata. Ele não age movido pelos valores da afectividade como tal, cujo conceito, no plano sexual, é muito mais profundo e radica na natureza humana, ou melhor, na aptidão para homens e mulheres interagirem por troca de emoções, sentimentos ou paixões.
Falamos, em suma, da necessidade de estruturarmos a nossa sociedade em conformidade com uma vida moral sã. Caso contrário, estaremos a transformar este país numa cópia abjecta de Sodoma e Gomorra.
Nas páginas seguintes, o SA faz um apanhado de situações que nos constrangem e que acontecem todos os dias diante das nossas barbas, conforme ou não casos de assédio sexual. As dúvidas conceptuais, estas são desfeitas por Paulo de Carvalho e Justino Pinto de Andrade.
Severino Carlos
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