Tragedia Angolana- Sousa Jamba

 


Íamos no carro. Abri as janelas. Não queria música; queria ouvir a estrada.

Seguíamos em direcção ao Huambo, Carlitos ao volante, a neta Arlete a dormir serenamente no banco de trás. O capim estava castanho. Em vários pontos, as pessoas queimavam o mato, e o fumo subia devagar; sentia-se o cheiro do capim seco misturado com o da terra vermelha. Nas margens dos rios, via-se ainda a promessa da fertilidade; o resto permanecia seco. De manhã fizera frio. Agora havia um sol duro, sem piedade, que batia na estrada, nas árvores e nos ombros das pessoas que caminhavam junto à berma.

Esta é, mais ou menos, a estrada onde nasci. Não exactamente: nasci na missão do Dondi, em 1966, no Katchiungo, então ainda chamado Bela Vista, e a minha mãe levou-me depois para o Katchilengue, onde o meu pai abrira, pouco antes, uma escola. Uma escola parecia coisa simples: uma sala, algumas carteiras, um quadro, crianças de olhos atentos. Mas, no tempo colonial, nada era simples. Havia papéis, autorizações, esperas, carimbos e silêncios; havia sempre mais uma porta, mais uma razão para que o indígena não avançasse depressa demais. O meu pai queria ensinar; o sistema queria dificultar. E assim começou a minha vida: entre uma missão, uma escola e aquele velho medo colonial de que um africano aprendesse demasiado.


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Saí de Angola em 1976, por causa da guerra civil. A minha família pertencia à UNITA; o meu irmão ocupara um cargo de relevo no movimento, e, quando se tem um irmão num lugar desses, há sempre quem comece a imaginar coisas a nosso respeito. Eu era apenas uma criança, mas era parente de sangue, e, em tempos assim, o sangue também passa a ser documento. A família dividiu-se: uma parte foi para a Namíbia; a minha mãe e o meu irmão mais novo seguiram para o que hoje é a República Democrática do Congo; eu cresci na Zâmbia. Nos anos 80, voltei brevemente à zona então sob controlo da UNITA.

Uma vida assim deixa marcas. Não são apenas datas; são caminhos, fronteiras, nomes de rios, malas pequenas, despedidas apressadas, silêncios nunca explicados. Estava agora de volta ao Planalto Central para promover a minha colectânea de contos, A Casa das Duas Bíblias, a lançar no dia 23 de Junho, na Biblioteca Municipal do Huambo. Vinha também para me religar às minhas raízes. Descobri que quase toda a escrita séria que faço acaba por me trazer de volta a esta região; é como se a página conhecesse o caminho antes de mim.

E nós continuávamos.

Carlitos falou devagar. Disse que devia ter havido um acidente mais à frente; percebia-se pela forma como as pessoas se juntavam, porque, em Angola, a multidão anuncia muitas coisas antes de se ver a coisa em si.

Um carro saíra da estrada. Capotara. Ficara ali, de lado, como um animal abatido.

À medida que avançávamos, vimos uma ambulância. Empurravam uma maca; havia alguém que sobrevivera. Depois vimos os outros. Um rapaz novo estava no chão, de calças de ganga e T-shirt, e o corpo já não parecia pertencer-lhe: era apenas corpo. Mais adiante havia outro, de bruços, sobre o asfalto seco. A morte estava ali com uma naturalidade terrível.

Havia também uma mulher vestida de preto que sobrevivera. Chorava, em estado de choque, e, sempre que olhava para os agentes da polícia e para a cena do acidente, começava a tremer ainda mais. Ouvi alguém dizer que precisava de ser afastada dali, porque o que vira era demasiado horrível para suportar.

Algumas pessoas olhavam. Outras falavam entre si. Havia até quem risse, não por alegria, mas por nervosismo, por não saber que rosto se deve pôr diante da morte. Ao longe, um homem subiu para a traseira de uma carrinha. Queria filmar tudo. Iria mandar aquelas imagens para a televisão nacional? Iria mostrá-las na internet, onde a morte dos outros depressa se transforma em conteúdo?

Sentimos, Carlitos e eu, um alívio silencioso por Arlete ainda dormir, por ainda não ter visto mais uma tragédia angolana.

Será que tantos anos de guerra nos tiraram a capacidade de espanto?

Escrever a sério significa, para mim, olhar para trás: voltar sobre os próprios passos, saber de onde viemos e por que razão escolhemos uma estrada e não outra. Só então podemos olhar para o presente com alguma seriedade. E talvez, se tivermos sorte e coragem, possamos pensar num futuro melhor.

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