Há uma gravação a circular de um antigo militante da UNITA. É uma daquelas confissões políticas a que Angola, país de prodigiosa fertilidade neste género literário, já se habituou: o homem abandona um partido e, exactamente no momento em que atravessa a porta, descobre que passou anos no interior de uma conspiração. Enquanto lá esteve, eram camaradas; sai, e os antigos companheiros transformam-se em suspeitos, adquirindo cada reunião do passado a gravidade retrospectiva de uma sessão clandestina cujas actas aguardam apenas um procurador diligente.
Na gravação, o antigo militante ataca com particular fervor Nelito Ekuikui e Adriano Sapinala e regressa à velha acusação de que a UNITA é, no essencial, uma associação tribal ao serviço dos Ovimbundu e do Planalto Central. Há ideias que sobrevivem graças à sua inteligência; outras, mais afortunadas, sobrevivem porque ninguém lhes exige o incómodo de apresentarem provas novas.
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Há poucas semanas circulou outra gravação, de Nice Zulu, também em desavença com Sapinala, que teria cometido a maior das imprudências: referir as limitações académicas de alguém. Um homem pode perdoar que lhe ataquem o partido, a família, o automóvel e até a honra; sugerir-lhe mais dois livros é, manifestamente, declaração de guerra. Ofendido, Nice Zulu vestiu o ressentimento pessoal com o fato solene da questão étnica. Sapinala deixou de ser um indivíduo em conflito e tornou-se o Planalto Central; Nelito Ekuikui converteu-se numa etnia com pernas; a UNITA passou a ser uma longa reunião de parentes, interrompida ocasionalmente por congressos e fotografias de grupo. Em Angola, uma discussão entre dois homens raramente conserva a humildade de ser apenas isso: começa numa frase mal recebida e, antes do almoço, já envolve tribos, antepassados e, havendo disponibilidade intelectual, a Conferência de Berlim. O ressentimento pessoal é emoção pequena; chamar-lhe «questão étnica» oferece-lhe gabinete, escolta e importância histórica.
Convém, porém, introduzir aqui uma pequena inconveniência chamada pensamento. O PRS, por exemplo, surgiu de uma preocupação legítima com as populações do Leste; podemos discutir a história do partido e as suas insuficiências sem desembainhar imediatamente o sabre da acusação étnica. A pergunta séria não é se essas populações têm direito a preocupações regionais, mas como incorporá-las numa estratégia nacional de desenvolvimento equitativo:/ trabalho cansativo, que exige números, história e alguma capacidade de ouvir. Gritar «tribalismo» é mais económico: resolve a questão antes de a estudar. Uma província pede estradas: tribalismo. Uma região pergunta pelo investimento: regionalismo. Uma população nota que produz riqueza sem escolas dignas: divisionismo. A este ritmo, pedir água potável será em breve considerado forma agressiva de separatismo.
Suspeito que algumas acusações de tribalismo escondem um desconforto mais profundo, nem sempre consciente. Os preconceitos eficazes raramente pedem licença à consciência; instalam-se antes dela, arrumam os móveis e, quando damos por nós, já vivem na sala principal. Há quem não se incomode com o que certas figuras do Planalto Central fazem, mas com o simples facto de ocuparem espaço e recusarem o lugar que uma antiga hierarquia psicológica lhes reservara.
Angola possui hierarquias invisíveis, que não constam da Constituição nem foram publicadas em Diário da República, mas nem por isso deixam de viver, poderosas, na cabeça de muita gente. Nessa ordem imaginária, um analfabeto embriagado pode sentir serenidade aristocrática ao considerar-se superior a um doutorado com trinta anos de trabalho, bastando que proceda da geografia social correcta. O bêbedo não precisa de ler; tem origem. O doutorado pode ter estudado décadas e, ainda assim, ser chamado a apresentar a sua licença étnica para pensar.
O mais perigoso é que esta hierarquia acaba por destruir alguns dos que se imaginam seus beneficiários. Um homem pode passar a juventude convencido de nascer no andar superior da nação; depois abre a carteira e não encontra dinheiro, procura competências e descobre que o apelido, por histórico que seja, não domina Excel nem apresenta contas. Certas relações compensavam quase tudo; mas o país muda, o mundo muda mais depressa, e no sector privado surge a pergunta de brutal simplicidade: o que consegue fazer? Não onde nasceu, não quem é o tio: perguntas hostis à metafísica tribal, pois o mercado, com todos os seus defeitos morais, é relativamente indiferente a genealogias que não acrescentam valor à factura.
É então que a velha hierarquia produz vítimas entre os seus próprios beneficiários imaginários, e nasce o ressentimento contra os disciplinados, os instruídos, os que avançaram; terreno magnífico para o populista, esse comerciante de dignidade sem esforço. Não estudaste? É o sistema. Não te disciplinaste? És vítima. Aquele outro preparou-se melhor e apresenta resultados? Tribalismo. Doutrina consoladora, que absolve o indivíduo de qualquer encontro desagradável consigo próprio.
Nesta ordem antiga, alguns grupos podem cantar, cultivar, jogar futebol e morrer heroicamente pela Pátria; mas disputar o comando da imaginação nacional já parece ambição excessiva. Quando uma figura do Planalto Central se levanta e demonstra competência, a antropologia política é convocada: já não dirige uma instituição, instala o «poder Ovimbundu»; já não tem ambição política, tem projecto étnico. A ambição de uns chama-se liderança; a dos outros, tribalismo.
A UNITA deve ser examinada e criticada, e Ekuikui e Sapinala não merecem imunidade. Mas não podemos aceitar a curiosa matemática nacional segundo a qual três Ovimbundu numa sala constituem conspiração tribal, enquanto dez pessoas de outra origem, instaladas há décadas nos lugares principais do Estado, representam apenas a bela diversidade de Angola. Há preconceitos que se tornam invisíveis não porque desapareceram; estão apenas sentados há tempo de mais na cadeira principal.
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