A Álgebra da Reputação- Sousa Jamba



O mundo é o que é, e não aquilo que, por conveniência de gabinete, gostaríamos que fosse. Poderia parecer uma banalidade indigna de se escrever, se a política não tivesse desenvolvido, ao longo dos séculos, uma extraordinária vocação para viver da esperança de que os factos, quando suficientemente inconvenientes, acabem por adquirir melhores maneiras.


Há leis que regem certas relações de causa e efeito com a mesma teimosia com que a álgebra rege uma equação. Podemos não gostar delas; isso não lhes altera o resultado. Numa equação não é possível multiplicar de um lado e esperar que o outro permaneça delicadamente indiferente; na política sucede algo semelhante, com a diferença de que os governos têm, por vezes, a vantagem de possuir ministros, assessores e especialistas de comunicação encarregados de explicar que a aritmética, no seu caso, deve ser lida em contexto.


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Tomemos um exemplo, como convém a quem prefere a demonstração à afirmação.


Um país deseja convencer o mundo de que é uma democracia. Contrata, para o efeito, empresas de relações públicas em Washington; promove conferências em Bruxelas; envia delegações, organiza seminários, produz documentos em inglês irrepreensível sobre estabilidade institucional, Estado de direito e ambiente favorável ao investimento. Nada disto é inútil: a reputação tem valor económico, e o investidor sério, ao contrário do aventureiro, não pergunta apenas onde estão os diamantes ou o petróleo, pergunta também onde estão os tribunais, como funciona a Polícia e se uma decisão de terça-feira continuará válida na quinta. Faz depois uma análise SWOT, expressão suficientemente inglesa para conferir dignidade científica às preocupações mais óbvias.


Gastam-se, portanto, milhões para responder correctamente a estas perguntas. E então aparece o Uíge.


Não chega por meio de um relatório de organização hostil, nem de investigação paciente de jornalistas desconfiados; chega num telemóvel, provavelmente de segunda mão, com bateria ainda mais fraca do que o argumento oficial. É esta, talvez, uma das crueldades da era moderna: durante séculos o poder teve o privilégio de escrever a versão oficial dos acontecimentos; hoje, qualquer cidadão com bateria suficiente escreve a versão concorrente, e por vezes é essa que a CNN, a BBC e a Al Jazeera preferem citar.


Chegamos assim a uma lei incómoda da comunicação política contemporânea: quanto mais dinheiro se gasta a parecer democrata, mais caro fica ser desmentido de graça. A empresa de relações públicas cobra honorários avultados; o telemóvel cobra apenas bateria, e nunca falta rede.


Há depois a questão da ordem pública, que merece o mesmo escrutínio algébrico. Diz-se que determinada intervenção foi necessária para «repor a ordem», expressão elegante que pressupõe uma ordem anterior, entretanto perdida e agora restaurada. Surge, porém, uma pequena dificuldade lógica quando aquilo que gera a desordem é precisamente a acção destinada a evitá-la: cria-se a agitação que justifica a força, e emprega-se a força para terminar a agitação que ela própria ajudou a produzir. Poucos sistemas administrativos alcançam tal grau de auto-suficiência; a desordem, nestes casos, passa a fabricar a sua própria justificação, como uma fábrica que produzisse simultaneamente a matéria-prima e o cliente.


Semelhante é o destino da poeira da Praça da Independência. Diz-se, primeiro, que a praça não tem qualquer problema de higiene; explica-se, logo a seguir, que ninguém deveria incomodar-se com essa poeira, visto que os jovens da oposição já tinham pisado terreno pior em Negage. Ora, se a poeira não existe, dispensa-se a explicação; se a explicação se torna necessária, é porque a poeira, contra todas as garantias oficiais, conseguiu existir. Não se pode sustentar em simultâneo que uma coisa não é e que, sendo, se deve tolerar; ou melhor, pode-se, como a experiência demonstra todos os dias, mas não se pode exigir que a lógica assine por baixo.


Resta o comandante colocado diante das câmaras, rude, pouco articulado, com maneiras de chefia de aldeia numa instituição que possui, nas suas fileiras, oficiais instruídos e perfeitamente capazes de falar sem transformar a explicação em segunda crise. O problema deixa então de ser pessoal; torna-se institucional, porque as instituições são sempre julgadas pelas pessoas que escolhem para as representar, e a televisão, infelizmente, não transmite os méritos invisíveis.


Não temos jurisdição sobre a CNN, os diplomatas ou a opinião internacional. Podemos mandar retirar um cidadão da praça. O que não podemos é mandar retirar a praça do telemóvel.

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