Abel Tchivukuvuku voltou a cometer um erro estratégico



Há erros políticos que se cometem no silêncio de um gabinete e há outros que, paradoxalmente, ganham dimensão precisamente quando chegam aos tribunais. Ao decidir levar Adriano Sapiñala à Justiça por alegadas declarações difamatórias proferidas num encontro realizado em França, entre amigos e simpatizantes da UNITA, Abel Tchivukuvuku pode ter transformado um episódio pontual numa crise política de maiores proporções.


Durante o encontro, ao responder a uma pergunta, Adriano Sapiñala terá afirmado que Abel Tchivukuvuku perdeu credibilidade social e política em consequência da polémica envolvendo uma suposta “caixa térmica” azul, que aparece em vídeos amplamente difundidos nas redes sociais desde 2022 e nos quais Tchivukuvuku surge acompanhado de avultadas quantias em dinheiro.


Fisioterapia ao domicílio com a doctora Odeth, liga agora 923328762 ou 914771757


É importante separar, neste caso, acusação política, suspeita pública e prova judicial. A circulação de imagens nas redes sociais, por si só, não demonstra a origem, a legalidade ou a finalidade do dinheiro. Muito menos permite concluir automaticamente pela existência de um crime. Essas questões deveriam ser esclarecidas pelas instituições competentes mediante investigação séria, independente e transparente.


O problema político começa precisamente aí.


Num país onde existe uma profunda crise de confiança nas instituições, qualquer processo judicial envolvendo figuras políticas da oposição pode adquirir uma dimensão que ultrapassa largamente os limites de uma disputa entre indivíduos. Se um deputado é rapidamente constituído arguido ou réu na sequência de uma denúncia apresentada por um adversário político, a pergunta que inevitavelmente surge na sociedade é: estamos perante o funcionamento normal da Justiça ou diante de mais um episódio de instrumentalização das instituições?


É neste terreno que Tchivukuvuku corre um risco estratégico.


Ao recorrer aos tribunais, pode ter imaginado que encerraria politicamente a polémica. Pode acontecer precisamente o contrário: o processo poderá reabrir todas as discussões que as redes sociais alimentaram desde 2022. A Justiça, neste contexto, deixa de ser apenas o lugar onde se decide uma eventual questão de difamação e transforma-se também no palco onde o público volta a perguntar pela origem do dinheiro, pelas circunstâncias das imagens e pelas relações políticas que surgiram posteriormente.


Entre essas circunstâncias está o telefonema atribuído a Tchivukuvuku para Bento Kangamba, dirigente do MPLA, no qual teria manifestado desagrado relativamente à circulação das imagens. O facto de a conversa ter sido gravada e posteriormente divulgada acrescentou combustível às especulações públicas. Mais uma vez, porém, uma gravação ou um vídeo não substituem uma investigação formal nem constituem, isoladamente, prova de qualquer crime.


Mas a política raramente espera pela sentença dos tribunais.


Em sociedades marcadas pela polarização política, a percepção pública muitas vezes produz efeitos antes da verdade judicial. E é justamente essa percepção que pode prejudicar o PRA-JÁ Servir Angola. Tchivukuvuku construiu parte da sua trajetória política sobre a promessa de representar uma alternativa ao sistema dominante. Qualquer aproximação percebida entre o seu partido e estruturas do poder pode, portanto, produzir um custo político elevado.


O processo contra Sapiñala pode ser explorado pelos seus adversários como mais uma evidência da tese de que Tchivukuvuku e o PRA-JÁ estariam politicamente mais próximos do MPLA do que do povo que clama por mudanças . Não importa, para essa narrativa, se a acusação é juridicamente procedente ou não: importa o modo como o processo será interpretado pela sociedade.


E aqui reside o paradoxo.


Tchivukuvuku pode ter entrado no tribunal para defender a sua honra e acabar por sair politicamente mais exposto. Sapiñala, por sua vez, pode transformar a condição de acusado num espaço de visibilidade política. Quanto mais o processo avançar publicamente, maior poderá ser o interesse dos cidadãos pelas alegações que lhe deram origem.


A política angolana conhece bem esse fenómeno: quando a confiança nas instituições é baixa, processos judiciais envolvendo opositores raramente permanecem processos meramente judiciais. Tornam-se narrativas políticas.


Por isso, o verdadeiro erro estratégico de Abel Tchivukuvuku talvez não esteja em procurar a Justiça para defender a sua reputação. Todo cidadão tem esse direito. O erro poderá estar em não calcular que, num ambiente político profundamente desconfiado das instituições, uma batalha judicial pode produzir exactamente o efeito contrário ao pretendido.


Em vez de silenciar a polémica, pode ressuscitá-la.


Em vez de enfraquecer Sapiñala , pode oferecer-lhe uma tribuna.


E, em vez de proteger a imagem do PRA-JÁ, pode alimentar a narrativa dos que procuram apresentar Tchivukuvuku como mais uma personagem da velha política angolana.


No fim, o tribunal decidirá a questão jurídica. Mas a sociedade fará, inevitavelmente, o seu próprio julgamento político.


E esse julgamento, em Angola, costuma ser muito menos previsível do que qualquer sentença.

Hitler Samussuku

Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação 

Postar um comentário

0 Comentários