Lutock Wiyo: O General Cabo de Guerra - Gerson Prata

 


Na guerrilha, quando um militar se dirigia ao seu superior hierárquico, batia a pala e dizia: "Dê-me licença, Sua Excelência... Permita-me que avance!"


Muito bem. Agora, depois de bater a pala ao General Lutock Wiyo, posso avançar com o regresso ao passado.

Naquele tempo, antes da assinatura do Acordo de Paz de Bicesse, em 1991, entre os comandantes das Forças Armadas de Libertação de Angola, FALA, de que mais se ouvia falar estava o General Augusto Domingos Lutock Liahuka "Wiyo". É daqueles Generais que fizeram a guerra nas frentes de combate, com a mochila às costas e a arma em punho, sempre lado a lado com os seus intimoratos soldados, na defesa da causa que acreditava justa.


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A sua fama vem de longe. No início da guerra pós-independência, o então Capitão Wiyo fixou-se nas montanhas entre o Cubal e o Ukuma, a sul do Caminho de Ferro de Benguela, e fundou a Região Militar RM-71. Na mesma fase, segundo o Brigadeiro Tchipa, com quem tive o prazer de conversar, o General Chilingutila abriu a RM-50, localizada a norte do CFB, na província de Benguela. Depois de consolidar a RM-71, em 1979, foi transferido para a RM-35 e assumiu o comando da região.

Em 1982, participou no Quinto Congresso Ordinário da UNITA, realizado no Cimbunjango, arredores de Mavinga. Daí foi transferido para a RM-41, nas Lundas, no quadro da expansão da guerra em todo o território nacional.

Um ano depois, em 1983, o destemido comandante foi convocado para participar no Curso de Estratégia Militar, realizado no Centro de Estudos Comandante Kapesi Kafundanga, localizado a mais ou menos 90 km a oeste da Jamba. O curso foi ministrado pelo Alto-Comandante das FALA, o General de Exército Jonas Malheiro Savimbi. Concluiu-o com distinção e foi indicado Comandante da Frente Centro, constituída pelas Regiões Militares RM-50, RM-93, RM-35 e RM-25. Anos mais tarde, foi designado pelo Alto-Comandante das FALA como Cabo de Guerra.

As tropas sob o seu comando eram aguerridas e disciplinadas. Na sua maioria, eram recrutadas nas aldeias situadas nas proximidades das bases de guerrilha da região. Alguns desses recrutas, chamados mancebos, treinavam localmente e, só depois, eram integrados nas colunas militares.

Outros eram enviados para a principal base de apoio da UNITA, a Jamba, a Capital das Terras Livres de Angola, onde, depois de seleccionados no Batalhão de Instrução, eram encaminhados para os campos de treino situados a sul e a leste da Jamba. Ali eram preparados os Batalhões Regulares e Semi-Regulares, bem como as unidades de Comandos, por instrutores sul-africanos e angolanos. Os que não reuniam o perfil eram distribuídos pelas casas dos oficiais.

Pessoalmente, conheci alguns desses mancebos, a quem chamávamos manos, provenientes das RM-50 e RM-71. O meu pai, Bernardo Prata, à época oficial da Direcção-Geral de Pessoal do Comando Operacional Estratégico, teve como segurança um jovem proveniente dessas regiões: o mano Ângelo.

O mano Ângelo contava-nos histórias sobre a vida naquelas paragens. Recordava-se das ofensivas dirigidas por Cara Podre, um destemido comandante das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, FAPLA. Falava com respeito das tropas de Kundi Payama, as Onças das Montanhas. Dizia que se tratava de uma unidade guerreira: "Va loya, ka vakwete okupapala" (Disparam, não brincam).

Mas, mesmo com as tais Onças das Montanhas, as tropas do destacado Cabo de Guerra movimentavam-se livremente por toda a extensão daquele território e efectuavam ataques cirúrgicos às colunas militares.

Essa espécie de livre circulação dos guerrilheiros devia-se, sobretudo, à relação de respeito que estes mantinham com as populações locais. Aliás, os guerrilheiros eram filhos da terra. Conheciam os sobas, as montanhas, os rios e as matas também. Sabiam que não se faz guerrilha sem o apoio do povo, uma vez que eram os populares que alertavam para a presença do inimigo, transmitiam informações sobre os seus movimentos e prestavam outros apoios indispensáveis à sobrevivência e à movimentação dos guerrilheiros.

O distinto General destacava-se igualmente pela organização das suas bases. Entre as suas bases mais famosas, conforme me contou o Brigadeiro Mwalupassa, que combateu naquela região como soldado de infantaria do Batalhão Bate-Cubano, estavam Cilembo Cuti e Vipwapwalakata, esta última localizada, algures, nas montanhas próximas da aldeia de Etalangala, na área do Mbimbi, município do Bailundo. Foi nessa aldeia que nasceu o destemido comandante e escritor Celestino Samandjolo, conhecido pelo nome de guerra Nambi-Ye-Pengwe. Deixou uma obra escrita intitulada Negritude.

Nessas bases praticava-se a agricultura, para colocar em prática o lema: Combater, Produzir e Aprender. Quanto à prática da agricultura, o General Lutock Wiyo foi um dos grandes incentivadores, pois tinha formação de Regente Agrícola, obtida no Chivinguiro, na Huíla, durante o período colonial. Esse conhecimento ajudou-o a traçar estratégias para sanar a fome na RM-35.

Também se preocupava com a saúde dos guerrilheiros. O Hospital Central passou a ter uma componente formativa, cujos responsáveis eram os experientes enfermeiros Frederico Hama e Cisoka.

Foram criados Centros Escolares. Os jovens que estudavam nestes Centros, como foram os casos de Matos Mwelwisenge e de Ekumbi, eram encaminhados para prosseguirem os estudos no Instituto Polivalente Loth Malheiro Savimbi. Este Instituto foi a primeira instituição de ensino da guerrilha a leccionar até ao Quinto Ano do Liceu, constituindo uma importante referência no esforço de formação dos jovens em plena guerra.

Conhecido pela sua bravura e determinação, participou em várias operações militares. Ficou conhecido pela alcunha de Tetuli-Wiyo, que significa: "embosquem-no, está a vir!"

Dada a sua capacidade de gestão, organização e mobilização, em 1988 foi convocado para o Quartel-General, na Jamba, onde assumiu a pasta de Comissário Político Nacional das FALA.

O cessar-fogo decretado antes da assinatura do Acordo de Paz de Bicesse encontrou-o na zona do Bié. Foi ele quem iniciou os primeiros contactos com as FAPLA, representadas pelo comandante Eusébio.

Com a assinatura do Protocolo de Lusaka, em 20 de Novembro de 1994, foi enviado para Luanda, a fim de integrar as Forças Armadas Angolanas, na companhia de oito Generais, nomeadamente: Ben-Ben, Chilingutila, Mbunji, Wenda, Regresso, Tchipa, Ndjele e Long-Fellow.

Actualmente reformado, pedi-lhe encarecidamente, ao telemóvel, que me falasse de alguns pormenores sobre as últimas batalhas em que participou, nomeadamente a Batalha dos 55 Dias, no Huambo, em 1993, e o desbaratamento da Coluna Salva-Vidas, na localidade de Membassoco, precisamente em Calondende.

Segundo o jornalista Jaime Azulay, no seu texto publicado no Club-K, intitulado "Membassoco: Aqui se decidiu a batalha do Huambo em 1993", e no qual relata a sua própria participação na caravana, a coluna Salva-Vidas, comandada pelo destemido comandante Lili-Vali, saiu de Benguela com destino ao Huambo, com a missão de abastecer e reforçar as tropas governamentais que se encontravam encurraladas na antiga Nova Lisboa.

Durante a conversa telefónica com o digníssimo General, confesso que não me revelou quase nada. Percebi, nas entrelinhas, que nem tudo é para falar ao telefone. Para um bom entendedor, meia palavra basta. Por isso, planeei uma visita à sua casa, para ver se consigo recolher dele alguns detalhes desses pedaços de história que ajudam a contar a nossa própria história.

Um aparte: Hoje, 23 de Agosto, o nosso indomável Cabo de Guerra, Augusto Domingos Lutock Liahuka "Wiyo", a quem a minha mãe chama carinhosamente de tio Tock, completa mais uma feliz primavera. Só tenho a desejar ao avô Wiyo muitos e longos anos de vida, com saúde, paz e alegria.

Agora termino.

Dê-me licença, meu General! Permita que me retire!

Voltarei...

Benguela, 23 de Agosto de 2026
Gerson Prata

 

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