Em meados de 2017, quando se preparava para escolher um novo presidente e um novo governo, Angola viu nascer uma controvérsia que iria entrar no debate político que então decorria. O mote fora dado por Lopo do Nascimento, um militante histórico do MPLA, partido no poder, que, suspeitando que José Eduardo dos Santos, presidente da República cessante, quisesse continuar a liderar o partido depois das eleições, advertiu para o que aos seus olhos parecia ser um mau passo.
“Só acho que não seria uma boa ideia se ele se mantém como presidente do MPLA, porque isto gera um poder bicéfalo. (...) O partido é que orienta, (...) pelo que é recomendável a retirada do Chefe de Estado também dessas funções”.
Tomado pelas entrelinhas desta advertência, o jornalista, Luís Costa entregou-se à escrita do livro, “A Sucessão, a Bicefalia e Outras Histórias”, que será lançado no próximo dia 30 de outubro, pelas 18h30 horas, na livraria Sá da Costa, no Chiado, Lisboa. Celso Filipe e Victor Silva, farão a apresentação. Em Luanda, o livro conhecerá a luz oficial no dia 13 de Novembro, pelas 17h00, no auditório da Universidade Lusíada de Angola.
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E esse pronunciamento feito por Lopo do Nascimento já era em sim, um desafio, José Eduardo dos Santos parecia menos preparado com a forma virulenta que alguns juniores se referiram a ele nas reuniões do Comité Central.
O livro expõe nuances da coabitação entre José Eduardo dos Santos e João Lourenço, antes e depois das eleições, durante muitos anos harmoniosa, fria algumas vezes, e competitiva outras tantas.
Em Dezembro de 2017, escreve Luís Costa, “por três vezes no espaço de uma semana, embora não estivessem separados por um tabuleiro, José Eduardo dos Santos e João Lourenço agiram como se estivessem numa partida de xadrez.” E acrescenta: “Os discursos e posições tomadas pelos dois nesse período, não só mostram algumas diferenças, como revelam motivações e a intenção velada, de um e de outro, de se imporem como autoridade política acima de todos.”
Luís Costa retoma no livro uma declaração histórica proferida por José Eduardo dos Santos, em agosto de 2001, que parecia pender para a sua sucessão. O então presidente disse que “quer elas (as eleições) se realizem em 2002 ou em 2003 (…) o candidato (do MPLA) desta vez não se chamará José Eduardo dos Santos”.
No livro Luís Costa sugere que tal declaração colocou o MPLA orfão. Outros viram uma oportunidade. João Lourenço mostrou-se disponível para concorrer ao cargo. Essa decoração tambem mobilizou a atenção de uma tertúlia de militantes do MPLA oriundos de Catete, entre os quais, vários notáveis. Julgavam alguns deles, que o substituto de José Eduardo dos Santos podia sair daquele grupo.
Se esses militantes se julgaram em condições de oferecer um candidato, para algumas chancelarias ocidentais essa declaração seria uma surpresa. Segundo Luís Costa, “a conclusão a que se chegou em meios diplomáticos em Paris, Moscovo, Londres, Washington e particularmente em Lisboa, era de que a declaração feita por José Eduardo dos Santos sinalizava que afinal havia muita coisa que lhes escapava”.
Luís Costa revisita nesta obra casos que puseram em evidência o protagonismo dos vários poderes que gravitavam à volta de José Eduardo dos Santos. Alguns geraram aquilo que ficou conhecido por “futunguismo”, outros deixaram à vista quão relevantes eram a Sonangol, os veteranos da luta pela Independência, ou os serviços de inteligência. Luís Costa cita dois casos que envolveram alguns “maquisards” ou veteranos das células clandestinas. No primeiro caso, Santana André Pitra “Petroff”, Hermínio Escórcio, José Condessa de Carvalho “Toka”, Alexandre Rodrigues “Kito” e Lopo do Nascimento, foram protagonistas de uma manifestação de apoio a Joāo Lourenço,em sua casa, quando já se punha a possibilidade de José Eduardo dos Santos continuar na presidência do MPLA. O outro caso aconteceria uma semana depois. Luís Costa avança: “Avisado do que tinha acontecido em casa de João Lourenço, José Eduardo dos Santos marcou para terça-feira, 19 de Setembro, um almoço no palácio. Aos cinco que tinham estado em casa de João Lourenço, juntaram-se Julião Mateus Paulo “Dino Matross”, João Luís Neto “Xiyetu”, Luzia Inglês Vandúnem “Inga”, António dos Santos França “N'dalu”,” e também, “Nandó” e “Kopelipa”.
Luís Costa desvenda ainda no livro, pormenores da última viagem de Isabel dos Santos a Luanda - durou menos do que 24 horas - assim como da tentativa gorada de Sergey Lavrov, ministro russo das Relações Exteriores, de se avistar com José Eduardo dos Santos, aquando de uma visita de algumas horas que efectuou a Angola, a 5 de Maio de 2018, data do aniversario de João Lourenço.
O Autor
Luís Costa nasceu em Luanda em 1963. Viveu a infância em Luanda e no Kuito. Foi repórter e editor do Jornal de Angola, correspondente em Luanda da Voz da América e da TSF. Assinou centenas de textos em publicações angolanas e portuguesas. Foi oficial de informação da Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola, UNAVEM II e apresentador do seu programa de rádio, “Os Caminhos da Paz”. De 1995 a 2008, foi “âncora” do serviço de língua portuguesa para África, da Voz da América, em Washington. De 2008 a 2025, foi produtor e editor multimédia da redação central da Voz da América em Washington. Estreou-se como autor, em 2025, publicando, “Mário Torres: Percurso de um Combatente Urbano Clandestino”, (CINVESTEC, Universidade Lusíada de Angola). Luís Costa vive em Alexandria, Virgínia, EUA.
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