O professor Beto era gago. Mas não gaguejava quando me dava reguadas por causa da tabuada no Colégio Tambarino. Causa: Esquecer-me do lenço da OPA. Era obrigatório quando se assinalava uma efeméride política. Calções azuis. Camisola azul-oceano.
Pela manhã, quando se içava a bandeira e se entoava o hino da República, todo o mundo parava onde estivesse. Dentro ou fora da escola. Púnhamos a mão direita no lado esquerdo do peito. Os transeuntes paravam. Os carros também. Era o respeito pelos mais altos símbolos do Estado angolano.
Tempos do MPLA-Pioneiro. Tempos do Arrastou Comando. Bate o Pé Esquerdo. Há histórias de pessoas que terão levado chumbo por não pararem quando a bandeira estivesse a ser içada ou o hino a ser entoado. Nunca vi. Mas já ouvi falar. Naquela altura. Éramos patriotas. Por educação ideológica. Outros tempos. Hoje os tempos são outros. Políticos que não sabem entoar o hino. Desrespeitam os símbolos da República.
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Diogo Cão chegou à foz do Congo. Foi entre 1482 e 1483. Explorou a costa de Angola. Contactou o Reino do Kongo. Quinhentos e quarenta anos depois, outro Diogo chegou. João Diogo. Ao Cuanza-Norte. Não veio explorar. Veio provar uma coisa. João Lourenço escolhe mal. Muito mal. Não contactou o Kongo. Contactou o brasão com a sola suja do sapato.
O governador é antipatriota. João Diogo Gaspar. Escolhido a dedo por Lourenço. O resultado está à vista. Mandou fazer capachos. Para a porta. No capacho está escrito: “GOVERNO PROVINCIAL DO CUANZA-NORTE”. E o brasão. O brasão da República. Fez da República um objecto para limpar os pés. O Estado debaixo dos pés. Os pés do homem de Lourenço.
Ontem falei de quintal sujo. Hoje João Diogo trouxe a pá. E o capacho. João Lourenço tem mau dedo. Escolhe João Diogo. João Diogo escolhe capacho com brasão. O povo limpa o pé no brasão. Três camadas de burrice.
O que João Diogo fez é crime. Grave. Lei n.º 2/18, de 28 de Janeiro. Lei dos Símbolos Nacionais. Artigo 23.º. Ultraje aos símbolos. É punível. Símbolo no chão é ultraje. Leva pisão. Poeira. Cuspe. Se fosse um cidadão, já estava detido. Como é governo, vira lapso.
Prova do que escrevi ontem. Trocaram técnicos por aduladores. Gente que nunca trabalhou. Nenhum técnico autoriza isto. Nenhum. Símbolo sobe. Não desce. Vai para bandeira. Para parede. Para diploma. Nunca para o chão. Só bajulador faz. “Chefe, pus o logótipo em todo o lado. Até na porta”. E João Diogo bate palmas. Bajulador do chefe maior.
É profecia involuntária. Governo que pede para ser pisado, será pisado. O povo já pisa. Nas redes. Nos táxis. Nas filas do hospital. Agora é oficial. E pago com dinheiro do OGE. João Diogo Gaspar é aposta pessoal de Lourenço. Novo quadro. Jovem. Dinâmico. Está a mostrar trabalho. Mostrou isto. Transforma a República em capacho.
Cuanza-Norte é terra de Nginga. Terra de respeito. De mais-velhos. Pôr símbolo no chão é ofender os ancestrais. Lourenço queria limpar o quintal. Mas com João Diogo a fazer capacho, quem limpa o pano? Quem faz capacho da República, faz capacho do povo. E o povo vai lembrar-se. Quando for pisar. Na urna.
Pergunto à PGR do Cuanza-Norte: cidadão que pisa brasão na rua é detido? E governador que manda pisar? Resposta: prisão. Crime contra a Segurança do Estado. Artigo 23.º da Lei n.º 2/18 é lei. João Diogo violou. Tem de responder. Está feita a queixa-crime. Que as autoridades façam o que tem de fazer.
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