ENTREVISTA OU PROJECÇÃO INTERNACIONAL? João Lourenço fez o seu papel. O jornalista é que não fez o dele- Carlos Alberto



A entrevista concedida por João Lourenço à CNN Portugal, na véspera dos 50 anos da Independência, foi apresentada como um momento de reflexão sobre Angola e o mundo. Mas, para além do cenário diplomático, o que se viu foi um Presidente a fazer bem o seu papel - o de político, estratega e comunicador - e um jornalista a falhar redondamente no seu - o de perguntar, confrontar e esclarecer.


É preciso dizê-lo sem rodeios: João Lourenço soube aproveitar a ausência de profissionalismo do jornalista português para discursar sem oposição, projectar-se internacionalmente e reforçar a sua imagem num momento de incerteza política interna. Quem esteve à altura da função que ocupa foi o político. Quem ficou aquém foi o jornalista.


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Um Presidente à vontade, um entrevistador desconfortavelmente ausente


João Lourenço não foi surpreendido em momento algum. Falou com segurança, traçou os contornos de uma Angola moderna e diplomática, elogiou os seus próprios feitos, evitou assuntos incómodos - e saiu ileso.

O jornalista ofereceu-lhe esse conforto. Não o interrompeu. Não o pressionou. Não pediu exemplos concretos. Não confrontou promessas de João Lourenço com resultados concretos. Permitiu, na prática, que a entrevista fosse um discurso político - exactamente o mesmo que aconteceu com a entrevista à TPA, dirigida por Ernesto Bartolomeu, e com a de Carlos Rosado e Adalberto Costa Júnior, que também mereceram a minha apreciação. 


E, neste campo, João Lourenço tem experiência, diga-se. Quando o jornalista abriu o microfone, o Presidente viu o palco perfeito para brilhar fora de portas.


A arte de não perguntar: quando o silêncio vale mais do que as palavras


Ao longo da entrevista, o jornalista teve várias oportunidades de exercer o seu ofício. Quando se falou de “democracia consolidada”, podia ter perguntado por vários episódios que contrariam essa narrativa, como prender manifestantes pelo simples facto de se exprimirem nas redes sociais, episódios de agressões, na via pública, contra políticos da oposição, e a intenção de se implementar uma lei que penaliza mais quem critica abertamente nas redes sociais do que quem rouba ao Estado nem presta contas. 


Quando se falou de “liberdade de imprensa”, podia ter questionado o controlo do Estado sobre a TPA, a RNA, o Jornal de Angola, a TV Zimbo, o jornal O País, a Rádio Mais e outros órgãos sob a alçada do Executivo. Podia ter referido o encerramento indirecto de portais independentes que denunciam tudo e todos à margem da lei, como o Portal "A DENÚNCIA", e a prisão de jornalistas simplesmente por denunciarem a corrupção na Justiça e na Administração Pública. O próprio Presidente da República, João Lourenço, teve de indultar neste ano um jornalista, que ficou preso quase dois anos e foi maltratado nas cadeias.


Quando se mencionou o “combate à corrupção”, podia ter evocado os processos abafados e as denúncias que nunca chegaram aos tribunais. O caso de Higino Carneiro - que até é pré-candidato ao cargo de presidente do MPLA - cujo processo foi engavetado sem explicações públicas, é um deles. Há outros. Mas não fez nada disso.


Quando se falou das manifestações contra a subida do preço do gasóleo, o jornalista não foi capaz de fazer analogias com outros países que têm um custo de vida inferior ao de Angola, um nível de empregabilidade mais elevado e um salário mínimo abismalmente superior ao angolano, para além de medidas compensatórias do Estado que evitam que os cidadãos sofram tanto com o preço do combustível.


O jornalista não fez o contraponto. Limitou-se a olhar para João Lourenço. Ficou preso à superficialidade. Foi um espectador privilegiado, com lugar na primeira fila do Palácio Presidencial, mas sem coragem para se levantar e intervir.


A sucessão em 2027: pergunta feita, resposta permitida


A pergunta sobre o futuro político de João Lourenço era previsível. E a resposta também: “penso calado”, disse o Presidente.

Qualquer jornalista que conheça o contexto político angolano teria, no mínimo, insistido:

- Quando o senhor Presidente fala da necessidade de emergir um jovem está a dizer que irá influenciar a escolha do sucessor?

- O candidato do MPLA será eleito em Congresso ou designado em gabinete?

- Há garantia de que o seu afastamento será real e não uma simulação?


Nenhuma dessas perguntas foi feita.

João Lourenço agradeceu, claro, sorriu e seguiu com o guião.


Quando o palco é internacional, mas a imprensa continua pequena


É legítimo que um Presidente procure usar a imprensa internacional para melhorar a sua imagem. Não há crime nisso. É estratégia.

A falha está em quem deveria representar o jornalismo com independência - e deixou-se encantar pelo título de "Chefe de Estado africano".


João Lourenço não forçou o jornalista a calar-se. Apenas aproveitou o facto de ele não ter estudado os temas abordados, principalmente os internos.


O político jogou, o jornalista assistiu


Numa entrevista política, há dois papéis distintos: o do entrevistado, que procura convencer, e o do jornalista, que tem o dever de interrogar.

João Lourenço desempenhou o seu papel com habilidade: comunicou, defendeu-se, projectou-se.

O jornalista, infelizmente, falhou o seu: não confrontou, não aprofundou, não serviu o público.


Resultado?

O poder saiu reforçado.

O jornalismo saiu diminuído.

E o povo angolano perdeu, mais uma vez, uma oportunidade de ver o seu Presidente a responder às perguntas que realmente importam.


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