Alguém me perguntou, pelo WhatsApp, na manhã de ontem, 21, com pertinência:
“O caso do Armindo Laureano não é semelhante ao da Hariana Verás, da TPA? Afinal, ela também representa interesses junto do Governo dos EUA?”.
A resposta é simples: sim, são casos comparáveis - e ambos são eticamente problemáticos.
Hariana Verás foi assessora de imprensa da Embaixada de Angola em Washington e depois passou a representar a TPA junto dos centros de poder norte-americanos. É a primeira africana credenciada na Casa Branca, no Pentágono e no Senado. Um feito inédito, sim. É motivo de orgulho para muitos angolanos, neste ponto de vista.
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Mas também é um caso clássico de conflito de funções: diplomacia e jornalismo activo não combinam. Foi por isso que elaborei um artigo recente a criticar a sobreposição desses papéis. E lembro-me de que a jornalista Ana Margoso também o fez, com a frontalidade que lhe é característica.
Hariana podia continuar na diplomacia - já que mostra inclinação para isso - e a TPA indicar outro(a) correspondente para os Estados Unidos. Por uma questão de ética, resolvia-se o problema.
Armindo Laureano, por sua vez, acaba de ser nomeado assessor do Governo de Espanha, ao serviço do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Em vez de suspender a sua actividade jornalística, anunciou com orgulho o cargo num editorial do Novo Jornal, que ele próprio continua a dirigir.
No mínimo, ele devia resguardar-se. Mas não: mostra o atropelo como vanglória.
Pior ainda: apresenta-se como representante da classe jornalística angolana nesse novo papel - o que não é apenas um abuso simbólico, mas uma traição ética.
Ambos os casos expõem uma promiscuidade crescente entre jornalismo e poder institucional.
Não se pode servir dois senhores. Quem representa interesses diplomáticos não pode continuar a fazer jornalismo activo, nem orientar editoriais, nem assinar reportagens que se dizem independentes.
O cenário é ainda mais grave
Fontes próximas à TPA confirmaram-me que Hariana Verás não possui Carteira Profissional de Jornalista válida em Angola.
Para conseguir o credenciamento junto da Casa Branca, ela recorreu à documentação antiga do Jornal Folha 8, bem como a passes da Orion, do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA), da União dos Jornalistas Angolanos (UJA) e de algumas publicações em jornais angolanos.
Porém, não apresentou qualquer documento da principal entidade competente: a Comissão da Carteira e Ética de Angola.
Dito de outra forma: a correspondente da TPA nos Estados Unidos não está inscrita nem credenciada na única instituição legalmente autorizada a reconhecer o exercício da profissão em Angola.
Isto não é apenas um lapso burocrático - é uma violação grave da legalidade e da ética profissional.
Isto reforça a tese de que a própria Hariana não sabe - ou finge não saber - distinguir o que é jornalismo do que é diplomacia. Ou, pior ainda, sabe e atropela o código de ética deliberadamente, por saber que ninguém poderá retirar-lhe a Carteira Profissional, porque não a tem.
O jornalista português Mário Crespo, uma das vozes mais respeitadas do jornalismo lusófono, foi directo nas suas críticas: acusou Hariana Verás de confundir jornalismo com relações públicas, de se mostrar simpática à administração Trump e de se colocar ao serviço de uma narrativa que favorece interesses políticos concretos, em vez de questioná-los.
Para Crespo, trata-se de uma quebra grave da deontologia profissional: quando se troca a pergunta difícil pelo aplauso, o jornalismo deixa de ser imprensa e torna-se propaganda.
Essa crítica foi aprofundada pela jornalista Niki Menezes, que considerou, numa reflexão pública, que a intervenção de Hariana na Casa Branca abriu “uma caixa de Pandora”.
Segundo ela, o gesto deixou de ser apenas um acto simbólico e passou a ser alvo legítimo de escrutínio ético e profissional.
Destacando as palavras de Mário Crespo, Niki apontou o abandono da distância crítica e a cedência ao capital de influência como sinais de alarme.
E terminou com um alerta claro para toda a classe:
“O papel do jornalismo não é fazer amigos no poder. É fazer perguntas, mesmo quando a resposta é incómoda.”
Um erro justifica outro?
Não.
Se o meu vizinho rouba, eu não posso roubar também com o argumento de que ele o faz. Cada um tem a sua responsabilidade e o seu compromisso - ou falta dele - com o público.
Isto para dizer o seguinte: o facto de Hariana Verás estar a atropelar as regras não dá legitimidade ao Armindo Laureano para fazer o mesmo. Ele não pode justificar-se com o erro dela.
O Novo Jornal não é a TPA. Se a TPA quer deixar os seus créditos em mãos alheias, paciência. Mas o Novo Jornal tem história, tem jornalistas sérios, tem uma reputação - e não pode perder tudo isso por vaidade ou conveniência de uma só pessoa.
A classe jornalística precisa urgentemente de recuperar o seu espelho interno.
Se começarmos a justificar o que condenámos noutros - só porque agora é “um dos nossos” -, estamos a declarar a falência da ética profissional e a morte pública da nossa profissão.
No caso de Laureano e Hariana, que é o debate do momento, se a função é diplomática ou política, o jornalista deve afastar-se automaticamente da redacção. Sem meias palavras.
Nem precisava ninguém escrever sobre o assunto. Era o recomendável - para que o Novo Jornal e a Televisão Pública de Angola pudessem ser tidos como órgãos imparciais e o jornalismo angolano pudesse ser respeitado dentro e fora do país.
O próprio jornalista deve sentir-se impedido de estar numa redacção quando tem vínculos com interesses político-partidários ou diplomáticos - com assessorias para defender determinados interesses, ainda por cima interesses de governos estrangeiros, alguns dos quais, no caso de Laureano, contra o nosso próprio país, segundo a denúncia do jornalista Artur Queiroz, o que é ainda mais grave.
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