Durante anos arquivei-a na secção do excesso — instrumentos a mais, um verniz de brilho que alisava o grão. Na cabeça, punha-a ao lado de Pérola, que consegue fazer um tema tradicional em umbundu soar como novo, e de Yola Semedo, cujo tremor de sinceridade sobrevive a qualquer polimento de estúdio. Em comparação, Edna Mateia pareceu-me competente mas genérica, uma cantora à procura de centro. Quanto mais visível se tornava — em painéis, círculos de activismo, entregas de prémios — mais desconfiado eu ficava. Parecia estar em todo o lado, perfeitamente ligada, iluminada pelos ângulos certos. Numa cerimónia, um amigo ofereceu-se para nos apresentar; recusei, pequeno e seguro de mim. Confundi atenção com vazio, visibilidade com vaidade.
Huambo corrigiu-me.
Num Show do Mês ao vivo ali — Edna Mateia a cantar “Wesuwapi”, de Lokua Kanza — o arranjo deixou espaço; a banda escutou; o produtor confiou. O silêncio tornou-se instrumento. A percussão ergueu em vez de atropelar; os metais ficaram dois passos respeitosos atrás de cada vogal. E ali, enfim, estava a voz: um fio de água sobre pedra, paciente e límpido. Outras canções do alinhamento, incluindo repertório em umbundu, floriram com a mesma justeza. A emoção guiou; a técnica seguiu. Sou dos que, quando os factos mudam, mudam de opinião. A verdade é que Edna Mateia sempre fora grande.
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O que me escapara não era apenas a mestria, mas uma espécie de maturação. Canta como uma mulher certa do seu próprio clima. O repertório popular assenta-lhe nas mãos como uma taça gasta pelo uso — provérbios no veio, ditos antigos na aba. Mesmo a presença fala uma língua: tecido que lê o corpo sem gritar, cabelo entrançado em cornrows rentes cujas riscas são mapas, cujos padrões carregam uma sintaxe íntima de parentesco e memória. Poucos entendem que o cabelo pode ser um arquivo. No caso de Edna, as tranças saúdam a linhagem e o pano responde do mesmo modo, enquanto a música recolhe tudo em fôlego. Reverência sem aparato. Calor sem excesso. A canção avança a deslizar, e Huambo — o hálito de eucalipto, o fresco do entardecer — parece inclinar-se para ouvir.
Culpei os discos. Devia ter culpado a moldura.
O que ela precisa agora é de um guardião do ar. Quincy Jones fez isso por Michael Jackson — tons que lisonjeiam o grão, arranjos aparados até ao osso, autores emparelhados como sílex e aço, o silêncio tratado como membro da banda. Disciplina, não deslumbramento. Edna precisa do seu Quincy: alguém que proteja o núcleo e desenhe o espaço em torno da voz para que a voz possa caminhar por dentro dele.
E, para lá de um Quincy, os nossos cantores precisam de uma casa. Berry Gordy construiu uma — a Motown — com salas para letristas, uma banda da casa ao fundo do corredor, controlo de qualidade implacável e uma escola de fraseado, postura, tempo e repertório. Fundador, sim, mas também arquitecto: lançou Stevie Wonder, Marvin Gaye, Smokey Robinson, Diana Ross & the Supremes e, assim, mudou não apenas a música afro-americana, mas o centro da corrente dominante. Não se limitou a prensar discos; criou um ecossistema onde momentos se convertiam em catálogos. Angola precisa dessa fábrica paciente de sentimento: um lugar onde uma voz como a de Edna encontra as canções certas na hora certa, onde a arte cresce por centímetros silenciosos em vez de por acidentes de viralidade.
Imagine: uma sala pequena em Huambo, soalho de madeira, uma porta aberta para a noite. Uma guitarra, um baixo como rio constante, uma bateria que sabe calar-se. Um microfone. Uma tomada, talvez duas. Clássicos em umbundu cosidos a novas melodias escritas para a sua tessitura e o seu andamento narrativo. As vozes de apoio respondem-lhe, não a abafam; as cordas chegam como luz a atravessar uma mesa; o ritmo ergue, não disputa. Sem xaropadas. Sem papel-de-parede. A respiração como percussão. O espaço como arranjo. A verdade na tomada.
Gestores e produtores deviam mover montanhas por isto. Não para erguer um pedestal, mas para abrir um caminho. Dêem a Edna Mateia a sala certa, os ouvidos certos, a insistência certa, e a silhueta do seu som reconhecer-se-á desde o primeiro compasso. O orgulho de Huambo, sim — mas também uma bússola. Ela toca algo profundamente nosso: o silêncio antes de um provérbio, o riso depois de dito, o pó que se levanta quando a multidão começa a bater palmas ao compasso.
Um dia recusei uma apresentação. Hoje esperaria no fim do corredor sem nada a dizer senão desculpe e obrigado. A mente muda; o ouvido aprende. Às vezes a lição chega como uma nota longa que faz uma cidade suster a respiração. Te tupandula!
Se ouvirmos tempo suficiente, escutamos o que as vogais transportam — história, fome, um rumor de chuva. Se ouvirmos mais, talvez escutemos o que escondem.
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