O GAME – A UNIVERSIDADE DO CORPO- Ademar Rangel



Em Angola, o termo GAME não é um torneio de PlayStation nem campeonato de xadrez. 


É a sigla invisível para “prostituição de alto nível” — aquele mercado de luxo onde o corpo é moeda e o Instagram é o currículo. Um negócio que se vende com filtros dourados e hashtags motivacionais, mas que, no fundo, é só o mesmo pão com chouriço embrulhado em saco Prada.


E é aqui que entra a “Dulce” (claro que é um nome fictício).


Menina de classe média, criada no tempo das vacas gordas. Viagens para a África do Sul como quem vai ao Candando, roupas de marca e perfumes que custavam mais que propina de universidade. Acabou por se habituar tanto ao luxo que se desabituou da escola. Desde a décima classe que Dulce já tinha descoberto um método revolucionário de avaliação: não se estudava para passar de classe, negociava-se. E os professores? Bem… tinham sempre um “visto” para notas altas — só que o visto era de corpo inteiro.


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Com a crise económica, Dulce subiu a fasquia. Já com 16 anos, trocava olhares e números de telefone com senhores respeitáveis (na ficha criminal, claro). Em troca, vinham iPhones, malas importadas e jantares em restaurantes onde a água custava mais do que o salário mínimo. A mãe, distraída com novelas e fofocas em grupos de WhatsApp sobre a nova mulher do pai, nunca perguntou de onde vinha tanto mimo. O pai, já na sua segunda família com filhos de fralda, tratou de desligar a ficha da primeira.


Os anos passaram. E, como qualquer negócio onde entra concorrência mais nova, mais fresca e menos gasta, Dulce começou a perder mercado. A clientela já não era aquela “nata” que oferecia viagens para Paris, mas sim senhores que achavam que pagar uma pensão suja no bairro — daquelas com chinelo incluído — já era romantismo suficiente. O GAME, que antes, para além de dinheiro, envolvia mimos e conquista, transformou-se numa verdadeira transacção monetária: um serviço remunerado e frio.


Os abortos foram-se acumulando (por algum motivo, angolano não gosta de camisinha), o brilho foi-se apagando, e o sorriso ficou mais cansado.


Até que veio o convite: Dubai. O Éden prometido. 


As amigas pintaram o cenário: noites de luxo, festas privadas, champanhe que nem se pronuncia bem. Mas, no currículo do GAME, Dubai é a “prova final”. A noite de “extravagâncias árabes” foi tudo… menos luxo. Foi humilhação, foi degradação, foi o tipo de experiência que não se deseja nem a um cão vadio.


E Dulce, como tantas outras, voltou para Angola com malas cheias de coisas que não valiam nada e um diagnóstico que valia tudo: HIV.


Aos 25 anos, estava desempregada, sem casa e sem família. A mãe afastou-se para “não ter problemas”, o pai nem quis ouvir falar. Um dia, cruzou-se na rua com colegas do ensino médio — agora licenciadas, com carreiras, com brilho nos olhos. Olharam para ela com pena. Ela podia ter sido uma delas. Podia. Mas escolheu o atalho, e o atalho, como sempre, acabou num beco sem saída.


No GAME, a regra é simples: o luxo é temporário, mas a conta chega sempre. E, ao contrário do que se posta no Instagram, não existe filtro para as cicatrizes da alma.



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