Convém dizê-lo sem rodeios: o Ministério da Agricultura e Florestas acertou ao restringir a importação de partes avulsas de frango. A medida não é um “banho-maria protecionista”; é política industrial elementar: travar a entrada de rejeitos de baixo valor, preservar divisas, recentrar a procura no frango inteiro e, sobretudo, abrir espaço económico para a produção nacional crescer.
Quem conhece a fileira avícola sabe que o comércio mundial opera por vasos comunicantes: os peitos e demais cortes nobres ficam onde rendem mais; asas, dorsos, pescoços e miudezas escoam-se, a preço de saldo, para mercados menos exigentes. Ao impedir que Angola seja o destino habitual dessas sobras, o Governo corrige um incentivo perverso e envia um sinal cristalino: importem frango inteiro; o valor acrescentado faz-se cá dentro.
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Isaac dos Anjos é, além disso, a pessoa indicada para executar esta guinada. Não fala de cátedra; fala de granja, de pinto do dia, de planeamento em tempos apertados, de sanidade e de cadeia de frio. Quem passou por operações reais — cronogramas de engorda (35 dias para 1 200 gramas), conversão alimentar, vacinação, mortalidade — nem romantiza nem demoniza: organiza, executa e presta contas. É exatamente o perfil que este momento exige.
Dizer que “produzir frango é simples” não menospreza a complexidade da cadeia; relembra que, com regras claras e apoio certeiro, a avicultura é uma das vias mais rápidas para ampliar proteína acessível. Daí a justeza de restrições faseadas às peças avulsas e a manutenção da porta aberta ao frango inteiro: tragam o produto integral, desmancha-se e embala-se no país, geram-se empregos e competências, pagam-se impostos em Angola e ganha-se músculo para, paulatinamente, substituir importações.
Na entrevista, impressionou a insistência do ministro numa evidência tantas vezes esquecida: em matéria de segurança alimentar, devemos procurar proteínas também onde sempre estiveram — nas zonas rurais. O meio rural é um reservatório vasto de alimentos e saberes que podem e devem transformar-se em produto: dos catatos ao peixe miúdo (tuqueia), da caça controlada à garoupa nas cadeias costeiras. Há, ainda, espaço para inovação ancorada em tradições regionais. Os tubérculos de orquídeas silvestres usados na Zâmbia para confecionar chikanda — em que o teor proteico provém sobretudo do amendoim — podem inspirar, em Angola, linhas de valor assentes em investigação agronómica, colheita sustentável e processamento rigoroso (secagem, moagem, embalamento, rotulagem). Feito com critérios ambientais e sanitários, sem pressão sobre espécies protegidas e com certificação à prova de exportação, isto cria rendimentos locais, ligações transfronteiriças e novos produtos nacionais.
Restringir, por si, não basta.
O passo seguinte é dar lastro operativo à produção. Isso começa na base, com incubatórios a funcionar, fornecimento regular de pintos do dia e ração competitiva, microcrédito orientado para pequenos e médios produtores e serviços de extensão rural que apareçam no terreno para resolver problemas concretos — biossegurança, densidades, ventilação, água, manejo. Prossegue no meio da cadeia, com matadouros regionais certificados, transporte refrigerado fiável, normalização de cortes e rotulagem, e com contratos de compra que envolvam o retalho, as cantinas públicas e a alimentação escolar, apoiados em calendários de abate que estabilizem preços ao consumidor. E fecha o circuito com governação e disciplina de fronteira: licenciamento transparente, inspeção sanitária sem atalhos, combate à subfaturação e ao dumping de sobras, bem como estatísticas públicas, semanais, sobre produção, importações e preços, para reduzir boatos e dar previsibilidade ao investimento.
Convém, também, ampliar o foco da proteína. Angola não tem de comer apenas o que a moda urbana dita. A diversidade local pode — e deve — coexistir com a avicultura moderna, desde que enquadrada sanitária e ambientalmente. A estratégia nacional de nutrição ganha quando integra o que já existe com o que pode escalar com qualidade e preço estável.
Os críticos dirão que restrições encarecem o cabaz. Encarecem se forem mal desenhadas e se o Estado falhar na execução. Quando bem feitas, reequilibram a estrutura de preços: retiram espaço à sobra importada, criam margem para a transformação local e protegem o consumidor através da competição entre produtores nacionais e frango inteiro importado — ambos sob regras. O que encarece, e empobrece, é exportarmos dezenas de milhões de dólares, em poucos meses, para pagar rejeitos alheios enquanto as nossas escolas carecem de carteiras e os nossos jovens carecem de trabalho.
Eis o ponto: a decisão não é ideológica; é de dignidade económica. Valor criado aqui paga salários aqui, compra milho aqui, repõe impostos aqui. Valor que entra já desossado e sem margem sai logo em divisas e deixa pouco mais do que plástico e ossos na nossa economia.
Isaac dos Anjos tem currículo e espinha para conduzir a travessia.
Cabe-lhe agora transformar o princípio em prática, com calendário público das medidas, metas trimestrais de substituição, uma linha de apoio dedicada a pequenos produtores, compras públicas com pagamento contra entrega e um pacto com o retalho que proteja o consumidor enquanto a oferta local escala. Não é prometer; é fazer — e mostrar. Restringir peças de frango não é fechar o país; é abrir caminho para que Angola deixe de viver de sobras. O ministro está certo. E, com o campo a produzir e a indústria a transformar, o país também estará.
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