Um gesto que devia simbolizar união nacional no exterior transformou-se em polémica política e indignação diplomática.
O embaixador de Angola na República do Congo, Vicente Muanda, está a ser duramente criticado após inaugurar a sede do Comité da JMPLA - braço juvenil do partido no poder - durante as celebrações dos 50 anos da Independência Nacional, em Brazzaville.
O acto, realizado no domingo, 09, de Novembro, no bairro Makelekele, foi antecedido por uma marcha partidária que percorreu a Avenida da Corniche, culminando na cerimónia de corte da fita e no descerramento da placa que assinala a abertura do espaço político.
Segundo a própria Embaixada, o evento contou com a presença de diplomatas de países como Argélia, Guiné Equatorial, RDC e Marrocos, além de membros da comunidade angolana residente.
A celebração incluiu ainda um almoço de confraternização e a exibição de um vídeo institucional que exaltava os "ganhos da paz e do desenvolvimento" sob a liderança do MPLA.
Vários analistas e juristas ouvidos por este jornal condenaram o gesto do embaixador, classificando-o como "uma grave violação da neutralidade diplomática" e "um abuso de funções públicas ao serviço de interesses partidários". O analista político Edmilson Manuel considera que a inauguração de uma sede de um partido político, por um representante oficial do Estado angolano, "viola princípios básicos da função diplomática e confunde o papel da República com o do partido que governa.
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A diplomacia representa o Estado, não o partido. Quando um embaixador inaugura uma sede da JMPLA, ele está a usar os meios e a imagem da nação para promover uma estrutura político-partidária. É um precedente perigoso e profundamente antiético"
', sublinhou o analista.
Na mesma linha, o constitucionalista Nsolé Pedro afirmou que o acto "fere o princípio da imparcialidade da administração pública" e
"coloca Angola numa posição embaraçosa perante a comunidade internacional"
"Imagine-se o que seria se um embaixador dos Estados Unidos, França ou Portugal inaugurasse a sede do partido no poder num país estrangeiro. Seria escândalo mundial.
Em Angola, parece que normalizamos a confusão entre Estado e partido" , criticou.
Fontes diplomáticas em Brazzaville, que pediram anonimato, disseram que "muitos diplomatas estrangeiros ficaram desconfortáveis com o tom abertamente político do evento", que misturou símbolos nacionais com propaganda partidária.
"A bandeira nacional estava ao lado da bandeira da JMPLA. O embaixador discursou exaltando as conquistas do partido e não do país. Foi um acto político mascarado de celebração nacional"
", contou
uma fonte próxima da organização.
Outro diplomata angolano no Congo, ouvido sob anonimato, revelou que o evento não foi autorizado oficialmente pelo Ministério das Relações Exteriores (MIREX), e que muitos funcionários da Embaixada foram
"obrigados" a participar.
O episódio surge num contexto em que o MPLA tem sido acusado de usar instituições do Estado para fins partidários, principalmente durante o ciclo das comemorações dos 50 anos da independência.
"Este é o retrato fiel da dependência política que vivemos. Até as nossas embaixadas servem de sede do partido. A fronteira entre Estado e partido é uma linha apagada pelo tempo e pela conveniência", ironizou o comentador social Joaquim Mateus.
Nas redes sociais, o gesto do diplomata gerou indignação e sátira. Muitos internautas partilharam a imagem do embaixador cortando a fita, com legendas como "A diplomacia vermelha em acção" e
"Embaixada ou sede do comité?".
Até a publicação deste texto, o MIREX não se pronunciou oficialmente sobre o caso. No entanto, fontes internas garantem que o gesto do embaixador "não estava alinhado com as orientações protocolares" e que "poderá haver um pedido de explicações formais".
Imparcial Press
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