Missão do Dondi…- Sousa Jamba



Os missionários americanos e canadianos que, em 1914, fundaram a Missão do Dondi, onde nasci em 1966, tinham um traço em comum que os atravessava a todos, do mais discreto ao mais exuberante: eram grafómanos; escreviam tudo, alinhavavam relatórios, diários, listas, cartas, inventários, como se cada gesto e cada refeição, cada aula e cada culto, merecessem permanecer fixos no papel. O Dr. Anthony Burgess, o médico que me trouxe ao mundo numa chuvosa manhã de Janeiro, dificilmente poderia imaginar que aquele recém-nascido, enfaixado algures num dos seus registos clínicos, passaria, mais de meio século depois, a inclinar-se sobre os mesmos papéis, a seguir com o dedo a caligrafia firme dos que o antecederam.


A maior parte desses documentos repousa hoje nos Estados Unidos, em arquivos tranquilos, o que torna ainda mais premente o desejo de que a IECA venha um dia a organizar uma investigação metódica sobre as suas próprias origens em Angola; origens que, quanto mais as lemos, mais se revelam moral e intelectualmente impressionantes. Dos poucos papéis a que tive acesso, emerge um retrato nítido e, ao mesmo tempo, comovente: gente bem formada, de inglês depurado, segura dos objectivos que perseguia, prisioneira, é certo, de alguns limites do seu tempo, mas movida por um amor intenso ao evangelho e por uma obsessão quase artesanal com a boa administração, com regulamentos claros, com rotinas precisas, com a difícil arte de transformar uma visão religiosa em instituição sólida, verificável, quotidiana.


Nos relatórios descobre-se um interesse quase microscópico pela vida diária dos rapazes trazidos das aldeias para o internato. Regista-se o que comiam, dia após dia: os feijões, o peixe seco, a mandioca, o que vinha de casa e o que a missão acrescentava. Observa-se que aquela dieta talvez não lhes desse energia suficiente para acompanhar matérias exigentes; recomenda-se vitamina C, insiste-se na fruta fresca; escreve-se com inquietação sobre o abuso de peixe salgado e o risco de futuros problemas cardíacos. Exaltam-se as virtudes do feijão, pela proteína que oferece, e insiste-se no ensino de pomologia, no cuidado com os pomares, no cultivo de novas frutas; não para que o evangelho circulasse sozinho, abstracto, mas para que viesse acompanhado de uma maneira de viver que incluísse saúde colectiva, corpos mais resistentes, mentes menos cansadas, aptas para a disciplina de um currículo rigoroso.


O que mais impressiona, porém, é o carácter profundamente terra-a-terra desta missão: a curiosidade genuína pelas biografias dos alunos, pelas línguas que falavam, pelas culturas de que vinham. Os estudantes chegavam de Bailundo, Chissamba, Camundongo, Elende e de outros lugares do planalto; traziam consigo lealdades regionais, pequenas rivalidades, memórias de conflitos antigos que viajavam com eles como bagagem invisível. Nas cartas e relatórios adivinha-se uma preocupação persistente com essas tensões; os missionários interrogam-se sobre o que fazer para as atenuar, como criar entre aqueles rapazes uma espécie de espírito de corpo que os fizesse identificar-se mais com o evangelho, com a escola, com a comunidade do Dondi, do que com a colina exacta, o soba preciso, o vale concreto de onde tinham partido. Imaginaram regras comuns, actividades partilhadas, turmas deliberadamente misturadas; experimentaram, com maior ou menor sucesso, forjar uma pequena elite que fosse, antes de tudo, filha daquele projecto moral e intelectual.


Há, ainda hoje, muito que podemos aprender com essa geração. Há alguns anos, não longe do lugar onde nasci, entrei numa escola de um bairro periférico e encontrei crianças sentadas em latas, alinhadas em filas improváveis, sem carteiras, quase coladas umas às outras. Por um instante, a imagem convocou o desconforto de um porão de navio negreiro: corpos miúdos, silenciosos, disciplinados demais para a precariedade que os cercava. As crianças eram de uma cortesia comovente, levantavam-se para cumprimentar o visitante, mas o cenário traía uma resignação antiga à falta de meios. Os missionários do Dondi ter-se-iam escandalizado. 


Já entre 1914 e 1920, os nossos pais e avós se sentavam em carteiras sólidas, bem construídas, semelhantes às das escolas dos Estados Unidos; para aqueles homens e mulheres, oferecer educação de qualidade a africanos era questão de honra, medida íntima da sua própria fé. E, em grande medida, conseguiram. O meu pai tornou-se exímio em álgebra, e foi ali, nos quadros negros e cadernos da Missão do Dondi, que aprendeu a movimentar com naturalidade letras e números, como se o planalto angolano, por momentos, falasse a linguagem abstracta da matemática.


Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação 

Postar um comentário

0 Comentários