Os angolanos andam de súbito irritados porque o chanceler alemão, Friedrich Merz, terá sido citado como tendo declarado que o pão que comeu em Angola não tinha qualidade, que, no hotel onde se hospedou em Luanda, o pão era simplesmente mau. Ninguém sabe ao certo se a frase existe tal como circula nas redes, se nasceu de um exagero de conversa à mesa ou se não passa de uma daquelas graças alemãs, pesadas e literais, que levam alguns a dizer, com malícia pouco disfarçada, que as piadas alemãs são coisas muito sérias e raramente fazem rir quem está de fora. O curioso é a velocidade com que a ofensa se propagou.
Pessoas que quase não tocam em pão, que vivem de funge, batata-doce ou arroz, sentiram-se igualmente atingidas, como se todo o país tivesse sido comprimido numa única carcaça mal cozida ao paladar deste visitante que não apreciou o pequeno-almoço.
Costuma falar-se dos alemães como um povo de precisão e concentração, educado na aspiração obstinada à qualidade. Quando um objecto aparece com a inscrição made in Germany, imagina-se de imediato que ali houve cálculo minucioso, intenção nítida, uma sucessão de testes e aperfeiçoamentos. São tidos por gente técnica, pouco dada ao improviso negligente. Se, apesar de todas as dúvidas quanto à fidelidade da citação, a experiência do chanceler foi de facto tão negativa como se conta, há um ponto incómodo que nos cabe reconhecer: muitos hotéis de Luanda, sobretudo os de topo, servem comida medíocre a preços que roçam o insulto.
Um amigo meu, britânico, ficou estupefacto quando lhe apresentaram uma conta de cem dólares por uma simples salada num desses hotéis. Pagou, levantou-se e, sem grande discussão, decidimos abandonar a elegância artificial do átrio climatizado. Apanhámos um táxi para a Ilha e fomos sentar-nos no Tia Guida 2. Ali, ele e os restantes amigos encheram a mesa de peixe fresco, funje, kizaka, cerveja angolana e mais alguns caprichos de mar e de fogão. Quando chegou a conta, ninguém sentiu o coração apertar; tratava-se de uma despesa normal, compatível com o que se tinha comido e bebido, a anos-luz da sensação de assalto educado que o hotel deixara.
Os hotéis em Angola são, em regra, caríssimos, e a qualidade do serviço raramente acompanha a factura. Mesmo o pequeno-almoço, que deveria funcionar como cartão-de-visita de qualquer casa que se leva a sério, transforma-se muitas vezes numa sucessão de pães cansados, frutas sem graça e cafés distraídos. Se for verdade que o chanceler alemão esbarrou neste padrão de mediocridade, o episódio não deve servir apenas para ferir o orgulho nacional. Não está em causa uma simples susceptibilidade magoada ou uma vaidade ferida. Trata-se de reconhecer que um país que quer respeito precisa de oferecer qualidade real, do pão ao atendimento, para que, numa próxima visita, a mesma figura de Estado possa regressar a Berlim a dizer o contrário: que comeu bem em Luanda, que se surpreendeu com o pão, que vale a pena voltar. Um elogio desses valeria mais do que mil desabafos indignados nas redes.
Ao mesmo tempo, convém lembrar que o mapa do sabor angolano não se esgota nas bandejas anónimas de um hotel da capital. Em Katchiungo, discreta vila do planalto, existe uma padaria chamada Padaria Tropical. Quem conhece sabe: ali coze-se, sem alarde, talvez o melhor pão de Angola.
Não falo por patriotismo inflamado. Vi, mais de uma vez, carros chegarem da Caála, do Kuito, de Menongue, apenas para encher o porta-bagagens de cacetes e carcaças dessa fornada. Eu próprio, que quase não como pão por ser diabético, já traí a disciplina por pura curiosidade e provei, aqui e ali, uma ou duas fatias ainda quentes. A crosta quebra-se com delicadeza, o miolo é denso sem ser pesado e o sabor permanece na memória como eco de cozinha antiga, onde o forno continua a ser o centro da casa.
Conta-se que os donos da Padaria Tropical receberam uma fórmula de um velho padeiro que trabalhara com portugueses e conhecia todos aqueles pequenos segredos de fermentação, de forno e de mistura que não se aprendem em manuais. Essa receita é guardada até hoje com zelo quase religioso, como se fosse o segredo do xarope da Coca-Cola, e o resultado é um pão que se tornou instituição. Quem passa por Katchiungo e cede à tentação de o provar compreende, ao primeiro pedaço, que o chanceler alemão escolheu mal o cenário para testar a qualidade do nosso pão e, talvez sem o saber, subestimou algo de muito subtil: a geografia íntima do paladar, que pode começar nos hotéis mas não termina neles, e que só será verdadeiramente respeitada quando a exigência que hoje reservamos à Padaria Tropical se tornar regra e não excepção.
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