Neve Armadilhada- Sousa Jamba



Há africanos que guardam a neve como se guarda um ressentimento antigo. Eu sou um deles. Vi-a, pela primeira vez, em Londres: caiu com elegância de postal, silenciosa, quase polida; e, no entanto, senti nela qualquer coisa de hostil, como se o mundo se tivesse vestido de branco para disfarçar uma lâmina. Não é apenas o frio. É a ideia de um inverno armado. A ideia de guerra no gelo, com a respiração a sair da boca como fumo de oficina, e os corpos a aprenderem, tarde demais, que a paisagem também pode ferir.


Por isso me dói, com uma dor nada abstracta, a notícia de jovens africanos atraídos para a Rússia por promessas simples e meticulosamente embrulhadas: emprego, salário, uma espécie de estabilidade, um contrato limpo como papel novo. Dizem-lhes: segurança, limpeza, restaurantes, condução; uma vida em que o esforço, enfim, rende. Chegam, porém, e o acolhimento muda de rosto. Há treinos duros, por semanas, que lhes arrancam a inocência à força. Depois, o destino verdadeiro: a frente. O barro. A neve. A morte.


A oferta, contam, é tentadora para quem vive num país em que o futuro se tornou luxo: dezoito mil dólares; no fim, cidadania russa. Um fim que, muitas vezes, não chega. Ou chega na forma mais cruel: silêncio administrativo, promessa sem assinatura, homens enterrados longe, sem honras, sem nome, sem regresso. A guerra, para eles, não é causa. É bilhete.


E há algo de especialmente humilhante nesta mecânica. Não é só exploração. É um velho costume do mundo, agora com uniforme novo: fazer do pobre um instrumento; do estrangeiro, um escudo; do negro, uma peça substituível. Circulam vídeos em que soldados russos troçam de africanos aterrorizados, como se o medo alheio fosse entretenimento. Há relatos de homens enviados para “aparecer”: avançam primeiro, expõem-se, denunciam a posição inimiga, e só depois se move a máquina principal. O corpo africano como isco, como marcador, como carne destinada a medir distâncias. É a definição de descartável, dita sem precisar de palavras.


A relação histórica entre África e Rússia adensa este quadro com um romantismo de arquivo. Houve a Guerra Fria; houve o tempo em que Moscovo apoiou movimentos de libertação; e, em várias capitais africanas, aprendeu-se a pronunciar “Rússia” com respeito. Esse respeito, porém, não traz reciprocidade garantida. A propaganda cultiva amizades estratégicas, desenha mapas de influência, assina protocolos. A rua tem outra gramática: ali, o preconceito age sem diplomacia; o racismo vulgar dispensa passaporte; o insulto circula com a mesma naturalidade que em qualquer outra esquina do mundo. O que se celebra nos discursos oficiais não protege ninguém na fila do autocarro.


O que aqui se passa não é um episódio lateral de um conflito europeu. É um espelho desagradável do nosso lugar na hierarquia do sofrimento. Jovens africanos são aliciados porque a pobreza é uma porta sem fechadura. São úteis porque, para demasiadas pessoas, a vida deles pesa pouco. E tudo isto se tolera em silêncio porque, em demasiados países africanos, o Estado já não consegue oferecer aos seus cidadãos aquilo que deveria ser o mínimo: trabalho digno, horizonte, pertença.


A vergonha não cabe apenas a quem recruta. Cabe também a quem consente. Cabe à indiferença que olha para isto como “casos isolados”, como “migração de risco”, como “opções individuais”. Não são. São sintomas. Quando um rapaz aceita trocar o seu nome por um número numa trincheira, assina, sem o querer, uma acusação contra a ordem económica que o empurrou até ali.


E a neve, minha velha inimiga, regressa aqui como metáfora e como matéria. Cobre tudo com uma aparência de pureza. Debaixo dela, porém, há sangue, há lama, há homens que não conheciam o inverno e que agora o conhecem da pior forma. O mundo adora a brancura das superfícies. O problema é aquilo que decide esconder com elas.  


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