O Filho de Mugabe- Sousa Jamba



A acusação de tentativa de homicídio que hoje recai sobre Bellarmine “Chatunga” Mugabe, em Joanesburgo, pode ler-se, com desconfortável plausibilidade, como prolongamento de uma intimidade antiga com a violência, e não como anomalia surgida do nada, no seio de uma família supostamente pacífica. Há histórias que não começam no dia do tiro; começam antes, num clima moral. E esse clima, quando se respira durante décadas, deixa marcas.  


A polícia sul-africana confirmou que Bellarmine “Chatunga” Mugabe, filho mais novo de Robert e Grace Mugabe, foi detido e constituído arguido por tentativa de homicídio, entre outras acusações, na sequência do baleamento de um jardineiro na residência de Hyde Park, em Joanesburgo. O ferido, segundo os relatos, ficou em estado crítico. O arguido compareceu no Tribunal de Alexandra; a audiência de fiança foi adiada; permanece sob custódia. O episódio, portanto, não nasce de um rumor nem de uma frase solta: há um processo, há um calendário judicial, há um Estado que, pelo menos por ora, não piscou.


E, ainda assim, logo após o incidente, instalou-se o reflexo costumeiro. Muita gente, dentro e fora do Zimbabwe, voltou a recitar a velha convicção africana sobre as famílias de poder: “isto resolve-se”. Resolve-se com telefonemas, com portas laterais, com a espécie de milagre burocrático que só acontece quando o apelido pesa. Falou-se, como seria inevitável, do ZANU-PF, partido no poder no Zimbabwe, e da hipótese de uma intervenção discreta, eficaz, quase invisível. As pessoas olham para este caso como quem olha para uma balança e quer saber se, desta vez, ela pesará mesmo.


Durante anos, Robert Mugabe cultivou uma imagem cuidadosamente polida: fatos impecáveis, óculos, discursos longos, um tom professoral que seduzia audiências e desarmava alguns espíritos incautos. Mas essa superfície assentou num projecto de Estado que recorreu, repetidamente, à coerção e à força letal. Há nomes que permanecem como cicatrizes na linguagem pública, mesmo quando se tenta apagá-los. Gukurahundi é um deles. Na década de 1980, a brutalidade infligida a civis ndebeles, em Matabeleland e no Midlands, foi descrita por sobreviventes e investigadores como um programa de terror, e não como um acidente de percurso. A mensagem que daí se desprende é seca: quando a autoridade se sente ameaçada, responde com ferro.


Mais tarde, em momentos eleitorais decisivos, a intimidação organizada, as agressões e os assassinatos de opositores voltaram a surgir como instrumento prático de conservação do poder. A violência, aqui, não é mero excesso temperamental. É gramática política. Aprende-se, normaliza-se, transmite-se.


É neste pano de fundo que a figura de Grace Mugabe ganha um relevo quase inevitável, porque nela a violência não aparece apenas como expediente político, mas como hábito íntimo, quotidiano, incorporado. Não seria agressiva apenas quando falava em público; segundo múltiplas descrições de quem a rodeava, seria também verbalmente abusiva no espaço doméstico, incapaz de tolerar contraditório, pronta a esmagar, com palavras e humilhação, qualquer pessoa que ousasse contrariá-la, ou contrariar o marido. Havia, nessa atitude, um desprezo organizado, como se o mundo à sua volta existisse para obedecer.


E depois vem a camada mais sombria: a do medo instalado como método de governo dentro de casa. A imagem que se desenha é a de uma mulher capaz de transformar a residência numa pequena corte de pavor, onde empregados, criados de mesa e pessoal de limpeza viviam na expectativa do castigo, como se a simples proximidade ao poder justificasse a agressão. A crueldade, aí, não seria descontrolo; seria encenação constante. Um prazer. Uma forma de marcar território.


Nessa versão da personagem, há ainda um requinte de maldade que não se contenta em dominar. Precisa de reduzir. Precisa de ver o outro quebrar. Uma mãe que se deleitava em ver gente em lágrimas; que, se alguém lhe atravessasse o caminho, não se limitava a desejar a queda, mas imaginava castigos, punições exemplares, torturas quase teatrais. Uma mãe que se comprazia em assistir à humilhação de outras mulheres, como se a desgraça alheia fosse espectáculo privado, como se retirar o chão, o sustento e a dignidade fosse uma extensão natural do seu poder.


E, quando a afronta era directa, a resposta, neste retrato, não se ficava pelas palavras. Seria uma mulher que, se se sentisse contrariada, passava ao gesto: bofetadas, pontapés, a agressão física como modo de restabelecer hierarquia, como se o corpo do outro fosse território disponível. A crueldade chegaria ao ponto de dilacerar, de morder, de ultrapassar a fronteira mínima que separa a ira humana da ferocidade.


Crescer num ambiente destes é aprender uma pedagogia deformada. Os filhos não são cópias automáticas dos pais; têm vontade própria, e cada um responde por si. Mas o ambiente em que se cresce é uma escola silenciosa. Se a figura paterna governa como quem comanda um aparelho capaz de esmagar dissidentes, e se a figura materna se mostra feroz, cruel, quase deleitada em semear temor, a lição que se instala é perigosa e simples: poder é isto. É intimidar. É ameaçar. É fazer os outros tremer, e chamar a isso “ordem”.


Por isso, a acusação que hoje pesa sobre Bellarmine “Chatunga” Mugabe não surge como um enigma metafísico. Surge como eco. Um eco que atravessa décadas: soldados em Matabeleland; milícias e intimidação em ciclos eleitorais; humilhação e medo no espaço doméstico; e, agora, o estampido de uma arma num bairro rico de Joanesburgo. O caso é dele, juridicamente. Mas o cenário, esse, é antigo.


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