No mercado angolano, ainda persiste uma perceção perigosa e equivocada: a de que gerir imagem e reputação resume-se a um exercício transacional de relações públicas.
Muitos acreditam que o trabalho termina na oferta de contrapartidas financeiras a órgãos de comunicação, jornalistas e influenciadores para garantir que o "negativo" seja omitido e o "positivo" amplificado, ou vezes sem conta, “fabricado”. Isso não é gestão de reputação; é, no máximo, uma ilusão de óptica temporária.
A verdadeira Gestão do Risco Reputacional é uma disciplina de inteligência. Quando a estratégia se baseia apenas em transações (compra de silêncio, omissão, ampliação ou fabricação), o risco não desaparece — ele acumula-se silenciosamente até que se transforme em crise, e se torne incontrolável (na maior parte dos casos)
*A Anatomia de uma Falha de Perceção*
Recentemente, fez manchete na mídia angolana, uma intenção (tornada pública) de investimento de 100 milhões de Kwanzas, de uma instituição pública, para que a sua imagem e reputação, fossem “geridas”.
Há aqui, um interessante caso de estudo valioso sobre como a ausência de análise de risco pode ser dispendiosa.
A falha aqui não reside na legalidade do contrato (nem é o foco deste artigo), mas na negligência estratégica sobre a percepção pública.
Ao se interpretar que um órgão de comunicação possa ressoar e disseminar eventuais sucessos macroeconómicos criou-se um "vazio de credibilidade". Pior: tal “saia justa”, aperta o hipotético cliente e o presumível prestador de serviço.
O público interpreta tal cenário, como tentativa de "branqueamento" encomendado.
O resultado foi imediato: o conhecimento público da intenção de um investimento milionário, gerou um passivo reputacional, fragilizando a independência editorial (do prestador de serviço) e desgastando a confiança na instituição.
*O Mito dos Influenciadores e a Armadilha do ROI Invisível*
Vemos hoje empresas e instituições, a investir orçamentos consideráveis em influenciadores que "mascaram" a realidade com métricas de vaidade. Milhares de likes e comentários criam uma sensação de sucesso, mas o ROI (Retorno sobre Investimento) Reputacional permanece invisível. Um "gosto" não é um voto de confiança. Sem afinidade real e monitorização de dados, estas acções podem ser lidas como inautênticas, desperdiçando recursos em audiências que não conferem autoridade à marca.
Aliás, basta lembrar que nas últimas eleições nos EUA, a candidata democrata (derrotada), contou com o apoio de Taylor Swift, um fenómeno musical global que tem 560 milhões de seguidores nas redes sociais, e 56% dos adultos americanos (que vota) declarou-se fã de Taylor. Ainda assim, a candidata que ela apoiou, PERDEU.
*Do "Like" ao Insight: Medir o que realmente importa*
É imperioso profissionalizar o sector da gestão de imagem e reputação em Angola. É urgente e incontornável substituir o amadorismo das métricas superficiais por KPI’s de Inteligência:
*Net Sentiment Score (NSS)*: Qual é o saldo real entre o que é positivo e o que é crítico após uma acção?
*Índice de Credibilidade e Autoridade*: O público passou a ver a empresa, instituição ou marca como uma fonte fiável ou apenas como um anunciante?
*Share of Voice Qualitativo*: A instituição, empresa ou marca domina a conversa de forma orgânica ou apenas enquanto houver pagamento?
*Taxa de Propagação de Crise*: Com que velocidade um sentimento negativo se espalha face à resposta oficial?
*A Reputação é um Activo Financeiro*
A credibilidade demora anos a construir e segundos a fragmentar-se.
No mercado actual, a transparência não é uma escolha ética, é um escudo estratégico.
Identificar conteúdos que representem riscos reputacional e alinhar o discurso com a realidade, são as únicas formas de proteger o "contrato de confiança" com o público.
A credibilidade e sobrevivência das instituições,empresas ou marcas não se garantem com tentativas de "compra" de silêncio, ampliação de ruído, ou fabricação de cosméticos de sucesso.
A credibilidade é garantida pela utilização de dados e inteligência, para proteger o activo mais escasso e valioso: a confiança pública.
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Alfredo Salvador Carima
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