A filha do falecido Presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Nando, fez saber que divulgará em breve, por intermédio dos seus advogados, alguns comunicados públicos que, segundo afirma, lhe permitirão finalmente viver em paz. Acrescenta que tenciona revelar aspectos da sua relação com a madrasta, como se aí residisse o núcleo derradeiro de um drama excepcional. A verdade, porém, menos teatral e mais humana, é que dificilmente haverá nisso matéria de espanto. Há famílias que guardam os seus conflitos no recato; há outras que, por fraqueza, exasperação ou imprudência, os entregam ao rumor público. A substância, contudo, raramente difere muito.
Os atritos entre filhas biológicas e madrastas pertencem ao inventário antigo da vida doméstica. Repetem-se, com diferenças de temperamento, de linguagem e de cenário, mas obedecem quase sempre ao mesmo fundo emocional: a disputa pela atenção do pai, o sentimento de preterição, a suspeita de favoritismos, a memória, justa ou ampliada pela dor, de velhos agravos. A madrasta ocupa, em muitas imaginações, esse lugar sombrio em que a figura real é rapidamente substituída pela caricatura: a intrusa, a usurpadora, a mulher que entra numa casa já marcada pela ausência e que, por isso mesmo, dificilmente será recebida sem reservas. Não há madrastas perfeitas. Também não há filhas perfeitas. E quase nunca há, nesses combates silenciosos, testemunhas inteiramente inocentes.
Nada disto, contudo, tem a grandeza do inaudito. Não se trata de uma revelação vinda de outro mundo, nem de um segredo capaz de alterar a compreensão da condição humana. Trata-se, antes, de uma velha gramática afectiva, reconhecível em inúmeras famílias recompostas, onde ciúmes, memórias concorrentes, susceptibilidades mal curadas e lealdades feridas se enredam umas nas outras com persistência quase mecânica. O público poderá ouvir esses relatos com curiosidade; dificilmente os ouvirá com verdadeiro assombro. E, quando a esse fundo emocional se juntam dinheiro, favores, expectativas de protecção, benefícios distribuídos de forma desigual ou ressentimentos ligados à herança material e simbólica, o enredo tende a resvalar para o mesmo imbróglio de sempre. O que parecia apenas mágoa converte-se em contabilidade moral; o que era desavença íntima endurece em litígio; cada gesto do passado passa a ser relido à luz de vantagens, exclusões, promessas e dívidas.
Há, porém, em tudo isto, uma pergunta mais séria do que todas as outras, e é essa que deveria preceder qualquer impulso de exposição pública: como reagiria o pai a este espectáculo? Aprovaria ele que o seu nome, já pertencente à memória institucional e nacional, fosse agora arrastado para o ruído miúdo de um circo familiar? Reconheceria nisto um gesto de justiça ou veria, antes, uma forma de empobrecer a dignidade da sua recordação? Os mortos, quando foram figuras de autoridade, de trabalho e de sacrifício, continuam a impor deveres aos vivos. Nem todo o sofrimento exige tribuna. Nem toda a verdade precisa de megafone. Há ocasiões em que a honra consiste menos em dizer tudo do que em saber o que não deve ser atirado para a praça.
É triste verificar, por vezes, como certas famílias, em vez de protegerem a memória dos seus, parecem dispostas a administrá-la como prolongamento das próprias querelas. Ao insistirem nas disputas internas, ao converterem em matéria pública aquilo que talvez devesse permanecer no âmbito severo da reconciliação privada, acabam por não honrar quem dizem evocar. Numa família numerosa e respeitada como a do senhor Fernando da Piedade Nando, custa crer que não existam tios, tias, parentes mais velhos, amigos próximos, pessoas dotadas de autoridade afectiva bastante para travar a deriva e dizer, com sobriedade, que há um limite a partir do qual a franqueza deixa de esclarecer e começa apenas a degradar. Não por hipocrisia, nem por culto vazio das aparências, mas porque a dignidade familiar também se mede pela capacidade de preservar do ridículo aquilo que a dor ameaça expor sem critério.
A consequência, aliás, é previsível. Virão os comentários fáceis, as leituras maliciosas, a alegria vulgar dos que gostam de ver famílias ilustres reduzidas à escala do mexerico. E, mais grave ainda, tudo isto servirá de alimento àqueles que hostilizavam o pai, que nunca lhe perdoaram a ascensão, a autoridade ou o prestígio. O que pode apresentar-se como desabafo legítimo será lido, por muitos, como oportunidade de diminuir, postumamente, um homem que já não está presente para se defender nem para impor à sua casa a disciplina do seu nome. A família arrisca-se, assim, a fazer por dentro aquilo que os adversários sempre desejaram fazer por fora.
Isto não significa negar a possibilidade de mágoas reais, de injustiças efectivas, de ressentimentos fundados. Tudo isso pode existir. Muitas vezes existe. Mas a maturidade moral consiste precisamente em impedir que essas sombras se tornem maiores do que o essencial. E o essencial, neste caso, deveria talvez prevalecer sobre o azedume: a memória do pai, o peso afectivo da filiação, o privilégio, nada pequeno, de ter nascido de um homem com projecção pública, influência histórica e lugar reconhecido na vida nacional. Nem todas as biografias paternas são iguais; nem todas deixam aos filhos uma herança de nome, de referência e de pertença. Quando isso acontece, a obrigação de estar à altura dessa herança torna-se ainda maior.
No fundo, a lição é simples e antiga. As famílias dos poderosos, dos ricos, dos admirados e dos temidos padecem também dos males vulgares da condição humana. Sob o verniz da posição social reaparecem os mesmos ciúmes, os mesmos cálculos, as mesmas feridas, a mesma fome de reconhecimento que percorrem, de forma menos visível, quase todas as casas. Mas, justamente por isso, a prudência continua a ser uma forma superior de inteligência. Nem tudo o que se sofreu deve ser exibido. Nem tudo o que se sabe deve ser declarado. Nem tudo o que se pode dizer deve ser dito.
Talvez a recordação de Fernando da Piedade Nando mereça mais do que isto. Mereça que as amarguras sejam contidas pela memória do que nele houve de mais alto. Mereça que os ressentimentos, por mais vivos que sejam, não apaguem a gratidão nem obscureçam o legado. Mereça, enfim, que a família compreenda que há momentos em que o silêncio ponderado honra mais do que a denúncia ruidosa e em que a verdadeira fidelidade aos mortos consiste em não deixar que as pequenas guerras dos vivos reduzam a sua memória à escala da indiscrição.
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