Nova doutrina militar do general Petraeus e Angola- Rui Verde



A nova reflexão estratégica do general David Petraeus, uma das figuras mais influentes das forças armadas dos Estados Unidos no início do século XXI, assenta na convicção de que a guerra está a atravessar a mais profunda transformação desde a invenção da pólvora.


Petraeus, que comandou a Força Multinacional no Iraque, liderou a ISAF no Afeganistão e dirigiu posteriormente a CIA, tornou-se conhecido pela reforma doutrinária de 2006, quando redesenhou a estratégia de contrainsurgência norte-americana.


Hoje, porém, defende que essa reforma — então considerada revolucionária — é modesta quando comparada com a metamorfose tecnológica que está a remodelar o campo de batalha contemporâneo.

Fisioterapia ao domicílio com a doctora Odeth, liga agora e faça o seu agendamento, 923593879 ou 923328762

Segundo Petraeus, a integração de inteligência artificial, sistemas autónomos e processos de decisão à “velocidade da máquina” está a alterar não apenas as táticas, mas a própria lógica da guerra.


O centro de gravidade desloca-se das plataformas tripuladas, pesadas e dispendiosas, para vastas constelações de sistemas não tripulados — aéreos, terrestres e marítimos — capazes de operar em massa, com custos reduzidos e ciclos de inovação extremamente rápidos.


A experiência da Ucrânia tornou esta realidade incontornável: tanques, navios de grande porte e outras plataformas legadas revelaram-se incapazes de sobreviver num ambiente saturado de sensores, munições guiadas e drones de ataque.


Petraeus descreve ainda a emergência de uma “zona de morte” de cerca de 35 quilómetros em torno da linha da frente, criada pela autonomia de bateria dos UAVs. Neste espaço, as trincheiras tradicionais perderam eficácia, a concentração de tropas tornou-se suicidária e até operações básicas — como reabastecimento ou evacuação médica — passaram a depender de veículos operados remotamente.


O campo de batalha fragmenta-se, dispersa-se e digitaliza-se.


Para enfrentar esta nova realidade, Petraeus insiste que não basta adquirir drones.


É necessária uma transformação institucional abrangente, sintetizada no acrónimo DOTMLPF:


Doutrina, com novas conceções sobre o emprego da força;


Organização, incluindo unidades dedicadas exclusivamente a sistemas não tripulados;


Treino e Educação, preparando líderes e tropas para operar num ambiente dominado por sistemas digitais;


Material, com processos de aquisição acelerados, capazes de atualizar software quinzenalmente e hardware mensalmente;


Liderança, Pessoal e Infraestruturas, ajustados a um ecossistema militar em rápida mutação.


O passo seguinte desta doutrina é a transição para sistemas totalmente autónomos.


Ao eliminar a limitação humana — o número de pilotos disponíveis — torna-se possível empregar enxames de drones e agentes de IA que funcionam como “oficiais de estado-maior digitais”, fundindo dados, antecipando movimentos inimigos e coordenando operações com mínima intervenção humana.


A função do comandante passa a ser a supervisão estratégica, enquanto a execução táctica é delegada a sistemas inteligentes.


Petraeus conclui que a dissuasão moderna, sobretudo em regiões de competição estratégica como o Indo-Pacífico, dependerá da capacidade dos Estados em adaptar-se rapidamente a este paradigma de massa, autonomia e velocidade tecnológica.


Aplicação a Angola


A doutrina emergente de Petraeus tem implicações diretas para Angola, cuja geografia, desafios de segurança e prioridades estratégicas tornam o país particularmente apto a beneficiar desta transformação.


Num território vasto, com fronteiras extensas e áreas de difícil acesso, a vigilância e a mobilidade são problemas estruturais.


A adoção de sistemas não tripulados — UAVs para monitorização fronteiriça, USVs para patrulha costeira e proteção das rotas marítimas, UGVs para engenharia militar, desminagem e apoio logístico — permitiria reforçar capacidades essenciais sem depender de plataformas pesadas e dispendiosas.


A experiência ucraniana demonstra que a defesa de infraestruturas críticas, como oleodutos, sistemas energéticos — atualmente alvo habitual de vandalismo —, linhas férreas, portos ou o futuro Corredor do Lobito, pode ser significativamente melhorada através de sensores distribuídos, drones de patrulha e sistemas autónomos de resposta rápida.


Para Angola, que procura modernizar as suas forças armadas e reduzir dependências externas, a criação de um ecossistema tecnológico nacional — envolvendo universidades, centros de investigação e empresas — focado nos sistemas digitais militares seria um passo decisivo.


Tal ecossistema permitiria desenvolver soluções próprias, adaptadas ao contexto angolano, e acelerar a inovação em ciclos curtos, como defende Petraeus.


Por fim, a lógica DOTMLPF é particularmente relevante para Angola: a modernização não deve limitar-se à compra de equipamentos pesados, de certa maneira já obsoletos, mas incluir formação especializada, reorganização de unidades, revisão doutrinária e criação de capacidades industriais e digitais.


A guerra cada vez menos se fará com tanques, aviões tripulados e longas colunas de infantaria, e mais com veículos automáticos e centrais digitais.


A guerra do futuro será definida por quem conseguir integrar tecnologia, autonomia e velocidade — e Angola tem condições para aprender com este novo paradigma e moldá-lo às suas necessidades estratégicas.

Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação 

Postar um comentário

0 Comentários