A circuncisão para uma era de mulheres com poder- Sousa Jamba



Imagens de uma entronização régia no Huambo reacenderam velhas querelas sobre hierarquias entre os reinos do Planalto Central. A hierarquia mais urgente, porém, está mais perto do fogão e da cama. Que tipo de homens é que os nossos ritos de passagem estão a formar — e estarão à altura das mulheres que hoje escolhem parceiros, orientam a vida doméstica e exigem reciprocidade?


Dos mercados do Bailundo a Luanda, dos bancos da igreja aos grupos de WhatsApp, formou-se um consenso silencioso: circuncida-te se quiseres — mas sê limpo, sê amável, sê fiel e aprende a dar prazer. A circuncisão não é uma medalha; é uma rubrica num livro maior de cortesia, saúde e respeito.


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Há que encarar o que demasiadas famílias aprenderam à força. Em zonas rurais onde subsiste a prática tradicional, falhas de higiene podem ser devastadoras. Enquanto traduzia para médicos de visita ao Planalto Central, conheci jovens que — quando a sala lhes pareceu segura — falaram de infeções, cicatrizes, até impotência: corpos feridos que ensombraram o namoro e o casamento. Um deles chorou. Foi encaminhado para um urologista em Huambo; meses depois regressou transformado — saudável, esperançado, a preparar com a esposa a chegada de um filho. A lição é simples: quando a tradição caminha com a saúde pública, previnem-se danos e reparam-se feridas.


O caminho prático já se adivinha. Muitos rapazes urbanos fazem hoje a circuncisão em meio clínico. O que deve seguir-se é uma formação cultural inspirada na Mukanda: língua, história, competências de sobrevivência, ética comunitária e as histórias que soldam um povo. Historicamente, os iniciados absorviam saber fundo, e alguns tornavam-se Vingandji — portadores de conhecimento — distintos dos Chilima. Bem enquadrada, essa formação convoca os rapazes para o serviço, não para a fanfarronice.


Os antigos “manuais” orais viviam do tom e do gesto, ajustados pelos mais velhos a cada rapaz, atentos à estação e ao lugar. Mas pressupunham papéis estreitos para as mulheres. A Angola rural de hoje conta outra história. As mulheres cultivam, comerciam, gerem dinheiro, compram telemóveis — muitos, smartphones —, acedem a informação, adoptam planeamento familiar e afirmam a autonomia sobre o próprio corpo. Em tribunais de aldeia, ouvi jovens falar com franqueza: querem maridos que cheguem a casa sóbrios e limpos; que sejam presentes, fiéis e monógamos; que as respeitem em público e na cama. Como muitas contribuem hoje com rendimento e decisão, os homens estão a ajustar-se. Não têm alternativa.


Se um rito de passagem não ensina consentimento, comunicação e literacia anatómica, não prepara para a idade adulta — ensaia a prerrogativa. Quando as mulheres têm opções, os homens têm de melhorar. O resultado não é guerra entre sexos, é homens melhores.

Como poderia ser um programa modernizado? Comece-se por garantir, em todo o lado, a segurança clínica: instrumentos estéreis, controlo eficaz da dor, pós-operatório sensato e circuitos claros de referenciação. Em torno desse núcleo médico, restaure-se a pedagogia oral e actualize-se o seu conteúdo. Que anciãos e clínicos co-leccionem sessões onde provérbios sobre honestidade convivam com conversa clara sobre higiene; onde histórias de lealdade ancestral abram para a fidelidade, as finanças partilhadas, a co-parentalidade e a não-violência; onde a linguagem do respeito inclua o que antes parecia impronunciável: o prazer da parceira importa, e um bom homem aprende a garanti-lo.

Complementem-se as lições faladas com ferramentas do nosso tempo. Produza-se um manual conciso em umbundu e português — menos um código fixo do que um acompanhante da oralidade — e uma aplicação móvel simples. Áudios curtos podem levar provérbios a utilizadores com baixa literacia; canais privados de perguntas e respostas podem ligar rapazes e pais a clínicos e mentores; lembretes discretos podem incentivar os cuidados da ferida e as consultas de seguimento. Nada disto substitui a roda debaixo da árvore; alarga a roda ao quotidiano.


Se levamos os resultados a sério, as métricas têm de amadurecer. Sucesso não é o número de rapazes cortados nem o volume do canto. O sucesso aparece meses depois, em sinais tranquilos: menos infeções e referenciações mais atempadas; casais que relatam respeito mútuo e intimidade satisfatória; casas onde o dinheiro se discute sem humilhação; conflitos resolvidos sem violência; filhos educados por pais que cumprem a palavra. Julgue-se o rito pelas casas que ajuda a edificar.


Haverá protestos de alguns anciãos? Cada geração suspeita brandura na seguinte. Mas não há nada de brando num homem que se lava, espera, escuta, pede desculpa e se alegra com a alegria da sua parceira. Isso é disciplina — terna, exigente, adulta. A circuncisão pode abrir uma porta; o carácter é que a atravessa.

Que a preeminência do Bailundo descanse nos livros de história, e que a pompa prossiga — bem filmada, amplamente partilhada. Entretanto, revisemos o rito onde mais importa. Conservem-se a cadência oral, os provérbios, os cânticos; actualize-se o conteúdo para honrar a autoridade das mulheres e o saber contemporâneo; mantenha-se, com rigor, a segurança clínica.


Aos jovens que se preparam para a idade adulta: escolham o procedimento que vocês e a vossa família considerem seguro e adequado. Depois, façam o trabalho mais difícil — aprender a ser parceiro. Façam perguntas. Cumpram promessas. Na verdade mais subversiva de toda esta discussão, as casas mais felizes não se regem pelo medo ou pelo segredo, mas pela alegria mútua. Tornem-se não apenas circuncidados, mas bons. Esse é o padrão que as mulheres com poder já estabeleceram — e aquele de que o nosso tempo mais precisa.



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