JOÃO LOURENÇO ENTRE O MARTELO E A BIGORNA: A CRISE DE LIDERANÇA E O CERCO INTERNO NO MPLA- HITLER SAMUSSUKU



Há momentos na história política em que o poder deixa de ser apenas um instrumento de governação e passa a ser um fim em si mesmo. O MPLA parece viver hoje esse instante crepuscular. Nunca, desde a sua fundação, o poder foi tão cobiçado, tão disputado e, paradoxalmente, tão frágil. O partido que sempre se orgulhou de lideranças capazes de construir consensos — ou de os administrar com mão de ferro, neutralizando qualquer oposição interna — enfrenta agora uma crise de liderança que expõe fissuras antes cuidadosamente ocultadas.


Durante décadas, o MPLA funcionou como um organismo fechado, quase metafísico: o partido confundia-se com o Estado, e o líder encarnava a ideia de unidade nacional. Agostinho Neto governou pela autoridade moral da libertação; José Eduardo dos Santos, pela lógica da estabilidade e do medo do caos. Ambos, cada um à sua maneira, souberam gerir consensos, reais ou fabricados, e impedir que a dissidência interna se transformasse em alternativa política. A saída de José Eduardo dos Santos não inaugurou apenas uma nova liderança; abriu uma caixa de Pandora.


João Lourenço chegou ao poder prometendo ruptura ética: combate à corrupção, ao nepotismo e à bajulação. O discurso era sedutor, quase redentor. Contudo, como advertia Maquiavel, não é o discurso que define o príncipe, mas a coerência entre palavra e acto. A defesa intransigente de Manuel Vicente, símbolo maior da corrupção sistémica, expôs a contradição fundadora do novo poder. Prometeu-se o fim da bajulação, mas apenas se substituíram bajuladores antigos por novos; prometeu-se o combate ao nepotismo, mas a teia sistémica permaneceu intacta, resiliente como uma estrutura invisível que sobrevive às mudanças de rosto.


No plano político, o país assiste ao aprofundamento de um Estado cada vez mais autoritário. Leis de natureza restritiva, perseguição de activistas, intimidação de jornalistas e repressão de grupos sociais como taxistas revelam um poder que, temendo perder o controlo, escolhe governar pela coerção. Hannah Arendt lembrava que o poder que recorre excessivamente à força revela, na verdade, a sua própria debilidade. Em Angola, essa debilidade manifesta-se no medo da alternância.


O paradoxo atinge o auge quando João Lourenço, impedido constitucionalmente de concorrer a um novo mandato presidencial e, à luz dos estatutos do MPLA, de continuar na liderança do partido, ensaia a alteração das regras do jogo. A proposta de revisão estatutária e a tentativa de promover uma bicefalia revelam uma ironia histórica difícil de ignorar: o mesmo homem que combateu ferozmente a bicefalia quando José Eduardo dos Santos acumulava os cargos de Presidente da República e do MPLA, agora tenta ressuscitá-la quando o poder lhe escapa. O poder, quando absoluto, não apenas corrompe; ensurdece e cega, convencendo o governante de que as regras existem apenas para os outros.


A um ano das eleições gerais, o MPLA surge sem candidato claramente definido, enquanto as redes sociais transformam-se em campo de batalha simbólico. Surgem nomes e insinuações: Fernando Garcia Miala, figura controversa que, eticamente, levanta uma questão central do Estado de Direito — como pode um militar no activo, responsável pelo Serviço de Informações e Segurança do Estado, ser objecto de campanha política? A memória colectiva não esquece que o mesmo Miala foi detido, julgado e condenado entre 2006–2007 por ambicionar o poder na era de José Eduardo dos Santos. A história, por vezes, repete-se não como farsa, mas como tragédia circular.


Outros nomes orbitam o centro do poder: Adão de Almeida, Manuel Homem, Mara Quiosa, e sobretudo Higino Carneiro, general, empresário e político que declarou publicamente a ambição de liderar o MPLA. Higino Carneiro tornou-se alvo recorrente de ataques directos de João Lourenço em comícios, entrevistas e reuniões partidárias. Não por acaso. Ele representa uma ameaça real, pois agrega sectores marginalizados e perseguidos pelo actual regime — uma base social silenciosa, mas ressentida, que vê nele uma possibilidade de ajuste de contas interno.


Há ainda sombras mais densas. Fernando da Piedade Dias dos Santos, o “Nando”, que parecia configurar-se como obstáculo sério ao actual equilíbrio de forças, morreu de forma inesperada numa sauna, precisamente quando se preparava para manifestar o desejo de concorrer. Em política, como na filosofia trágica, certas mortes nunca são apenas factos biológicos; tornam-se símbolos, alimentando suspeitas e narrativas num ambiente já marcado pela desconfiança.


Estas disputas internas ocorrem num contexto em que a oposição foi estrategicamente fragmentada. A saída de Abel Chivukuvuku da Frente Patriótica e a sua posterior exposição mediática, com sinais de proximidade ao regime, enfraqueceram a construção de uma alternativa sólida. Paralelamente, com o apoio do SINSE e do Tribunal Constitucional, o MPLA promoveu à legalização de uma multiplicidade de partidos cuja função prática parece ser a de fazer “oposição à oposição”, diluindo o descontentamento popular. Restam, com credibilidade reconhecida, a UNITA e o Bloco Democrático, mas a Frente Patriótica — que foi um sucesso eleitoral em 2022 — dificilmente se manterá coesa neste novo xadrez político.


Vivemos, assim, um momento de esvaziamento simbólico do regime. O MPLA continua no poder, mas já não controla plenamente a narrativa; governa, mas já não inspira; manda, mas já não convence. Neste interregno, para usar a expressão de Gramsci, “o velho morre e o novo não pode nascer”, e é nesse espaço que surgem os monstros — autoritarismo, manipulação institucional e medo da alternância.


Resta ao povo angolano a consciência de que a alternância política não é um capricho, mas uma necessidade histórica. Não se trata apenas de mudar governantes, mas de romper com a lógica de um poder que se reproduz a si próprio. Uma nova Angola só será possível quando o poder deixar de ser um fetiche e voltar a ser aquilo que deveria sempre ter sido: um serviço público, limitado, transitório e submetido à vontade soberana dos cidadãos.


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