China e Vietname inventaram a roda do desenvolvimento do Terceiro Mundo! Angola pode aprender a lição, se quiser- Joaquim Jaime



Angola encontra-se num momento decisivo da sua história económica. Com vastos recursos naturais, uma população jovem e uma localização estratégica, o nosso país tem potencial para se tornar num dos motores do desenvolvimento africano. No entanto, para transformar este potencial em realidade, Angola pode olhar para os exemplos bem-sucedidos da China e do Vietname - dois países que saíram da pobreza e se tornaram potências económicas em poucas décadas.

Nos últimos quarenta anos, a China e o Vietname trilharam caminhos de transformação, nunca antes observados na história económica, que chamam a atenção do mundo. Saíram de contextos de pobreza extrema, isolamento internacional e baixa produtividade, conseguiram criar economias dinâmicas, industrializadas e integradas ao mercado global. O nosso país, que busca diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo, pode encontrar nestas experiências asiáticas elementos estratégicos para moldar o desenvolvimento de que tanto carecemos.

Quando analisamos países como China e Vietname, invariavelmente ocorrem questionamentos sobre os modelos de desenvolvimento adoptados por aqueles países, considerando o rápido e consistente crescimento económico com reflexos positivos sobre a qualidade de vida das suas populações. A China e o Vietname não se desenvolveram por acaso: os seus líderes definiram planos claros de longo-prazo e, sobretudo, asseguraram continuidade na execução. Na China, os planos quinquenais alinham acções em áreas como infra-estrutura, indústria e inovação; no Vietname, a política “Doi Moi” (Renovação), lançada em 1986, mantêm-se como base do crescimento até hoje. 

Como resultado, a China tornou-se na segunda maior economia do mundo, responsável por mais de 30% de toda produção industrial mundial (mais do que a soma de todos países do G7) e o Vietname exporta mais produtos industriais do que a soma de todos países africanos.

A China construiu a maior rede de auto-estradas e ferrovias de alta velocidade do mundo. O Vietname modernizou os seus portos e estradas, tornando-se num hub logístico na Ásia.

A China tornou-se a "fábrica do mundo" ao atrair multinacionais com mão-de-obra competitiva. O Vietname especializou-se em têxteis, electrónicos e agro-processamento.

O Vietname passou de importador a maior exportador mundial de arroz. A China modernizou a sua agricultura, baseada na iniciativa familiar, para alimentar 1,4 mil milhões de pessoas.

Apesar das lições positivas, Angola deve adaptar estes modelos à sua realidade, combatendo a corrupção e melhorar a governança; investir na educação técnica para formar mão-de-obra qualificada e evitar dependência excessiva em empréstimos.

Para Angola, a principal lição passa pela consistência, coordenação e disciplina na execução dos planos, que se traduz na abstenção de mudanças abruptas de rumo e garantir que os planos como o PDN (Plano de Desenvolvimento Nacional) e a Agenda 2050 sejam aplicados de forma consistente, independentemente dos ciclos políticos.

Nem a China nem o Vietname adoptaram uma liberalização total de imediato. A abertura foi paulatina e controlada. Mantiveram o Estado como actor central na planificação estratégica, mas abriram gradualmente espaço para o sector privado e para o investimento estrangeiro, com prioridade aos sectores estratégicos.

Em Angola, este equilíbrio pode ser replicado: reforçar a gestão de empresas públicas, apoiar a iniciativa privada, estimular pequenas e médias empresas e atrair capital externo para áreas como agro-indústria, energias renováveis e manufactura, de modos a evitar a dependência de importações.

Tanto a China quanto o Vietname apostaram em transformar matérias-primas em produtos de maior valor agregado para o mercado internacional. Essa política resultou em milhões de empregos, receitas fiscais e transferências de tecnologia. Ambos países investiram em sistemas de educação de qualidade em todos os níveis, sem qualquer tipo de segregação social, com enfoque nas ciências e engenharias, bem como em formação técnico-profissional.

Para Angola, isso significa sair da exportação quase exclusiva de petróleo e investir na transformação local de minerais, produtos agrícolas e pescados, criando cadeias de valor e integração regional através da SADC e da ZLCA.

O “milagre” asiático foi sustentado por investimentos maciços em estradas, portos, ferrovias, energia e telecomunicações. Sem logística eficiente, não há indústria competitiva.

Angola já deu passos importantes, como a reabilitação do Corredor do Lobito e a modernização de portos e aeroportos. Foi lançada a primeira pedra para construção de um ramal ferroviário de 260 km, que ligará Saurimo ao Luena. A lição é acelerar a expansão e manutenção destas infra-estruturas, ligando zonas rurais aos escassos centros industriais existentes e aos mercados de exportação.

Como dissemos anteriormente, a China e o Vietname investiram no ensino e formaram milhões de técnicos e engenheiros para sustentar a industrialização. A educação foi alinhada com as necessidades da economia. Angola pode priorizar o ensino técnico-profissional, ligando escolas e institutos a empresas e projectos estratégicos, de modos a garantir que a juventude esteja preparada para empregos no sector produtivo e tecnológico.

O crescimento asiático também apoiou-se na melhoria gradual da eficiência do Estado e no combate à corrupção em sectores estratégicos. Angola, que já criou instrumentos como o Serviço Nacional de Recuperação de Activos, pode aprofundar a transparência, digitalizar serviços públicos e reduzir a burocracia, criando um ambiente de negócios mais confiável. Alinhado a estas iniciativas, precisa-se urgentemente de reformular os critérios de selecção e nomeação de quadros dirigentes, dando prioridade aos quadros e dirigentes que estejam realmente comprometidos com o futuro do país, afastando da máquina pública todos que não estejam comprometidos com a causa. 

Fiscalizar e responsabilizar devem ser regras sagradas. Falta de comprometimento e incompetência deverão ter custos pessoais.

A China e o Vietname negociaram com o mundo a partir dos seus próprios interesses estratégicos. Receberam investimentos, mas direccionaram-nos para áreas que fortalecessem a sua autonomia produtiva. Angola pode fazer o mesmo, aproveitar acordos comerciais e parcerias internacionais, mas condicionando-os à transferência de tecnologia, à formação de mão-de-obra e ao desenvolvimento de cadeias de valor locais.

O exemplo da China e do Vietname mostra que desenvolvimento acelerado exige visão de longo-prazo, liderança pragmática e comprometida, industrialização planeada e investimento no capital humano. Angola tem recursos naturais abundantes, uma população jovem e uma localização estratégica que permite ser um hub logístico e industrial para a África Austral. Com disciplina, continuidade e um modelo adaptado à nossa realidade, Angola pode transformar-se, nas próximas décadas, numa economia diversificada, resiliente e competitiva no cenário global.

O modelo chinês-vietnamita prova que é possível transformar uma economia em poucas décadas. Angola tem os recursos e o potencial para seguir um caminho semelhante, mas a escolha é nossa: continuar dependente do petróleo ou seguir os passos da China e do Vietname para se tornar numa economia moderna e diversificada.

Mas precisa de:

Foco, rigor e disciplina para materializar as políticas de longo-prazo.

Reformas económicas corajosas e sustentáveis para diversificar a economia.

Investimento no povo através da educação e saúde de qualidade.

Postos aqui, concentremo-nos na China:

A China combateu a corrupção com métodos rígidos (incluindo punições severas) e planeamento estatal de longo-prazo.

O que Angola pode fazer?

Fortalecer as instituições anti-corrupção: Como a China fez com a Comissão Nacional de Supervisão, mas com transparência, de modos a evitar que seja usado como instrumento político.

Reformular o combate à corrupção e melhorar a governança: Aumentar a moldura penal para todos os crimes económicos e contra a Administração Pública (incluindo a gestão das empresas públicas).

Planeamento económico de longo-prazo: Criar um plano de 10-20 anos para industrialização, sem mudanças bruscas a cada governo.

Reformar a gestão pública: Reforçar o Programa de Simplificação Administrativa (Simplifica) para reduzir a burocracia e o clientelismo que atrasam investimentos.

A China tirou 800 milhões da pobreza com reforma agrária (com foco na agricultura familiar), industrialização massiva e programas sociais direccionados.

O que Angola pode fazer?

Programas de crédito à agricultura familiar:  Apoiar pequenos produtores com sementes, irrigação e acesso a mercados.

Renda mínima vinculada a capacitação: Como o programa "Kwenda", mas com treinamento profissional para reduzir a dependência.

Investir mais em saúde e educação básica: Seguir o exemplo chinês de universalização de serviços essenciais para aumentar produtividade.

Evitar "elefantes brancos": Priorizar obras úteis (como o Porto do Caio) em vez de estádios ou aeroportos subutilizados.

Voltando ao tema principal, a experiência chinesa-vietnamita prova que um país pobre pode se desenvolver rapidamente com políticas certas. Angola tem petróleo, minerais, terras férteis e uma população jovem. O que falta é estratégia clara - e reformulação da vontade política para mudar. Caso contrário, continuaremos reféns do ciclo vicioso: endividamento → exportação de crude → importação de produtos acabados → mais pobreza.

A China e o Vietname deixam-nos lições valiosas que vale relembrar. 

A transformação económica acelerada da China e do Vietname, que, em poucas décadas, saíram da pobreza generalizada para se tornarem potências industriais e exportadoras, são trajectórias que não foram frutos do acaso, mas sim de planeamento estratégico, pragmatismo e compromisso político de longo-prazo. Para Angola, que procura diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo, há muito a aprender com esses dois modelos.

O primeiro ensinamento vem da industrialização orientada para a exportação. Tanto Pequim quanto Hanói criaram zonas económicas especiais e atraíram investimento estrangeiro directo, mas não de forma passiva. Exigiram contrapartidas: transferência de tecnologia, formação de mão-de-obra e incorporação de fornecedores locais. Angola, com o potencial agrícola, mineiro e energético, pode aplicar a mesma lógica para transformar recursos brutos em produtos de maior valor agregado e competitivos no mercado internacional.

O segundo ensinamento é o investimento estratégico em infra-estrutura. A China construiu redes ferroviárias, portos e centrais energéticas antes mesmo de ter a demanda plena, apostando na infra-estrutura como motor de crescimento. O Vietname conectou corredores industriais a portos eficientes para integrar-se às cadeias de valor globais. Angola precisa replicar essa visão, investindo não só em estradas e portos, mas também em energia estável, telecomunicações e logística interna que ligue o interior produtivo aos mercados nacionais e externos.

O terceiro ensinamento é o capital humano como prioridade nacional. Tanto chineses quanto vietnamitas investiram em educação básica universal e formação técnica direccionada às necessidades da indústria. Em Angola, uma juventude numerosa e crescente pode ser a maior vantagem competitiva, desde que haja programas robustos de formação, incubação de negócios e estímulo à inovação.

O quarto ensinamento é o pragmatismo reformista. O Vietname, com a sua política Doi Moi, reformou de forma gradual, testando soluções em escala reduzida antes de expandi-las. Angola pode adoptar este método, evitando reformas apressadas que possam desestabilizar sectores sensíveis, e privilegiando políticas-piloto bem avaliadas antes de escalá-las.

Contudo, é preciso reconhecer que nem tudo pode ser copiado. Angola deve evitar o risco de endividamento insustentável, a dependência tecnológica externa e modelos que ignorem a importância da participação cidadã e da transparência. O modelo angolano tem de ser adaptado à nossa realidade social, institucional e cultural.

A verdadeira lição da China e do Vietname não é fornecer um manual pronto, mas sim mostrar que com visão de longo-prazo, investimento em pessoas, infra-estrutura e indústrias estratégicas, é possível criar um ciclo virtuoso de crescimento e desenvolvimento inclusivo. Angola tem recursos, capital humano e posição geográfica favorável. O desafio é transformar essas vantagens em resultados concretos, com coragem política e pragmatismo - tal como fizeram, cada um à sua maneira, os gigantes do Oriente.

A China e o Vietname inventaram a roda do desenvolvimento para o Terceiro Mundo! Angola pode aprender a lição, se quiser!


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