A decisão de demolir o Hospital dos Cajueiros levanta mais do que uma questão técnica: expõe, de forma crua, o estado actual do país e as prioridades que continuam por resolver.
Num país onde o acesso à saúde ainda é um desafio diário para milhares de cidadãos, a demolição de uma unidade hospitalar sobretudo uma que foi reabilitada há poucos anos soa, no mínimo, contraditória. A pergunta que se impõe não é apenas “demolir ou não demolir?”, mas “em que país estamos a investir e para quem?”.
É verdade que decisões governamentais exigem visão de longo prazo. Pode haver argumentos estruturais, urbanísticos ou técnicos que justifiquem a demolição. No entanto, quando o contexto económico é frágil, o desemprego persiste, os hospitais carecem de equipamentos, profissionais e medicamentos, e a população luta para sobreviver com dignidade, a perceção pública não pode ser ignorada.
A economia angolana ainda pede contenção, eficiência e responsabilidade. Cada kwanza investido precisa de gerar impacto real na vida das pessoas. Demolir algo que foi recentemente reabilitado transmite a sensação de desperdício, má gestão ou, no mínimo, falta de alinhamento entre planeamento e execução das políticas públicas.
Politicamente, o país vive um momento em que a confiança precisa de ser reconstruída. Decisões sensíveis exigem transparência, comunicação clara e participação pública. Governa-se também explicando, ouvindo e justificando sobretudo quando se trata de sectores essenciais como a saúde.
Angola precisa de muito: mais hospitais funcionais, mais escolas, mais emprego, mais produção interna, mais justiça social. Precisa de reformas, sim, mas também de coerência. O desenvolvimento não pode ser apenas estrutural; tem de ser humano.
Não se trata de atacar o governo, nem de negar a necessidade de mudanças. Trata-se de lembrar que o país ainda está em construção e que, numa casa em obras, não se deita abaixo o que ainda pode servir, sem antes garantir onde as pessoas vão se abrigar.
A verdadeira questão não é se a demolição é exagero ou necessidade. A questão é se, no actual estado do país, esta era a prioridade certa, no momento certo, para as pessoas certas.
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