Há pessoas que parecem ter nascido com uma tarefa já escrita na voz. Monteiro Eliseu, deputado da UNITA na Assembleia Nacional, produz essa impressão rara: a de ter vindo ao mundo para a tribuna, e para a tribuna com eficácia. Circulam vídeos das suas intervenções, partilhados por páginas que lhe são dedicadas, vistos por milhares, como se cada frase fosse um recorte pronto a arquivar.
Há, antes de mais, o instrumento: uma voz funda, grave, capaz de encher a sala sem perder nitidez. E há, depois, a escola invisível onde essa voz se educou: uma cultura de oralidade, com o umbundu a ensinar o gosto pela imagem e pelo golpe limpo da metáfora. Antes de concluir, abre caminho com figuras que prendem: o leão é carnívoro, mas não come as crias. Não é adorno. É método.
Fala de modo a poder ser citado sem esforço, como quem escreve com lâmina curta e mão disciplinada. A brevidade, ali, não é pobreza: é domínio. E o que parece espontâneo, quase fácil, denuncia outra coisa por baixo, mais exigente e mais lenta: a carpintaria do pensamento.
Alguns de nós conhecemos o trabalho de Monteiro Eliseu há mais tempo do que a maré recente de vídeos sugere. E há um detalhe que muita gente, sobretudo fora do planalto, talvez ignore: o umbundu tem hoje um ecossistema vivo de podcasts, animado por vozes do Huambo, com uma audiência fiel, ruidosa, quase comunitária. Basta olhar para o que acontece em Bailundo. Por razões que misturam curiosidade, pertença e espectáculo moral, milhares seguem, em cadeia, os julgamentos no tribunal do rei, como quem assiste a uma aula pública de sociedade. Esse apetite pelo relato, pela fala que organiza o mundo, não nasceu ontem. Vem de longe e, nos podcasts em umbundu, ganhou microfones, gravações limpas, ritmos de rádio caseira.
Eu próprio já o ouvi, nesses registos, a fustigar o governo sem pose nem pregação. Fá-lo com humor, quase com comédia, como quem sabe que a ironia abre portas que a indignação fecha. Tempera a crítica com folclore, com imagens do mato e da estrada, com metáforas que cheiram a terra quente, com referências ao país concreto, aquele que se atravessa a pé e se mede por rios, lavras e mercados. É, no fundo, um contador de histórias. E um contador de histórias raro, porque prende sem esforço.
Quando fala da guerra, não se limita a enumerar factos: compõe uma atmosfera. Conta como se puxasse o ouvinte para dentro do tempo, com cenas tão nítidas que pedem continuação. E quando desce ao quotidiano, consegue o mesmo efeito: pode falar dos dias de kupapata no Huambo, dos gestos, das manhas da rua, do pó, dos perigos pequenos e dos risos grandes, e tudo ganha corpo, cor, movimento. Fica-se a querer mais, não por concordância política, mas por fome narrativa.
Há ainda outra camada, menos visível nos recortes do plenário e mais audível para quem o escutou no Huambo: o Monteiro da rádio, o Monteiro do debate ao vivo, onde a política se mistura com a astúcia e o riso. Quem se senta diante dele num estúdio, com microfone aberto e público atento, percebe depressa que o humor não é enfeite. É arma. Dispara frases tão inesperadas, tão bem ritmadas, tão naturalmente cómicas, que a mesa inteira pode ficar a rir, literalmente em convulsão, e o adversário perde dois segundos preciosos a recompor-se. Dois segundos bastam para ele empurrar a conversa para onde quer. Por isso, quem o debate precisa de entrar preparado, alerta, quase em guarda. Não para “vencer” a gargalhada, mas para não ser engolido por ela.
O problema é que, se não se reage, o público lê a frieza como azedume. A pessoa parece sem desportivismo, sem graça, sem humanidade. Se reage demais, parece leviana. Se reage pouco, parece pedante. É uma armadilha elegante: ele cria um clima em que a inteligência tem de dançar, e não apenas argumentar. Esse mecanismo torna-se ainda mais cruel para quem tenta atacá-lo pela via moral, como se a crítica fosse, por definição, insolência. O humor dele reata o fio com as pessoas. Faz com que o acusador, muitas vezes, passe pela figura do homem que veio estragar a festa, o fiscal sem ouvido, o sujeito incapaz de perceber o tom do país. E, de repente, o crítico é que fica exposto, reduzido a caricatura.
Viu-se isso, por exemplo, naquele episódio sobre a rua principal em Londouimbale, com a água a correr pelo meio, como se a estrada tivesse desistido de ser estrada. Quando um rival tentou censurar a ida “à noite” para verificar edifícios e infraestruturas públicas, apresentou a crítica como falta de ética. A frase caiu no ridículo quase no instante em que foi dita. Não por ser grave, mas por ser desajustada, fora do senso comum. E o resultado foi o inverso do pretendido: quem acusou virou motivo de riso, repetido, triturado, partilhado, enquanto ele saía reforçado.
E Monteiro Eliseu mostra-nos também outra lição, talvez mais incómoda para quem confunde política com aritmética: no Parlamento, nem sempre manda o número. Manda a palavra, quando a palavra é manejada com perícia. Pode haver uma maioria compacta, disciplinada, capaz de aprovar leis, chumbos, moções, orçamentos. Pode haver dezenas de deputados a levantar o braço no mesmo minuto. Mas a percepção pública, essa matéria volátil que decide reputações, raramente se escreve com mãos numerosas. Escreve-se, muitas vezes, com uma ou duas vozes que sabem transformar um tema em imagem, uma denúncia em cena, uma estatística em ferida visível.
É aí que entram os comunicadores eficazes, os oradores que também são, no fundo, escritores orais. Um pequeno núcleo, se souber falar, pode cravar na praça uma ideia que se torna refrão. E um refrão, repetido, torna-se mais forte do que uma bancada inteira, porque se fixa. Circula. Entra nos telemóveis, nos táxis, nos mercados, nos pátios, nas conversas de fim de tarde. Assim, paradoxalmente, uma maioria pode vencer na votação e perder no imaginário. E uma minoria pode perder no placar e ganhar na memória. Quando há um ou dois deputados com talento para dizer o país em voz alta, com frases que ficam, o peso deles ultrapassa o número. Não porque tenham mais poder formal, mas porque conseguem aquilo que quase ninguém consegue: fazer com que a política, por um instante, pareça assunto de todos.
Publicidade
Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação



0 Comentários