Factos, bancos e insinuações- Rui Alves/ Consultor



O jornalismo económico tem o dever de escrutinar operações relevantes no sistema financeiro, sobretudo quando envolvem grupos empresariais com crescente presença na banca. Esse dever, contudo, não se confunde com a legitimação de insinuações que, ao serem repetidas, ganham aparência de facto sem nunca o serem.


No recente tratamento editorial sobre a entrada do Grupo Carrinho no capital do Banco de Fomento Angola, o BFA, são avançadas várias alegações que carecem de sustentação factual. Entre elas, a ideia de que o reforço da presença do Grupo Carrinho na banca, através do Banco de Comércio e Indústria, do Banco Keve e agora do BFA, estaria associado a uma estratégia de influência no sistema financeiro nacional, beneficiando de alegadas proximidades com o poder político.


Essa leitura é apresentada como se resultasse de uma evidência objectiva. Não resulta.


O mesmo jornal afirmou, no decurso de 2025, que o Banco de Comércio e Indústria e o Banco Keve figuravam entre os principais compradores de dívida do Ministério das Finanças, sugerindo um favorecimento recorrente dessas instituições. Essa informação foi formalmente desmentida pelo próprio Ministério das Finanças, que divulgou a lista dos maiores compradores de dívida pública, onde nem o BCI nem o Keve constavam entre os seis primeiros. Este facto é público, verificável e incontornável.


Apesar disso, o novo texto editorial retoma a narrativa de uma relação privilegiada entre o Grupo Carrinho, o Banco Keve e o Estado, agora ancorada no financiamento à Reserva Estratégica Nacional. O que não é dito é que esses financiamentos foram operações bancárias regulares, enquadradas na actividade normal de várias instituições financeiras, e que a gestão da Reserva Estratégica Nacional foi retirada ao Grupo Carrinho por decisão política anunciada em Agosto de 2024. Se houvesse favorecimento, essa decisão seria difícil de explicar.


Mais grave é a tentativa de associar directamente um quadro do sector financeiro e segurador a esta estratégia, sugerindo que actuaria como ponto de ligação entre o Grupo Carrinho, o Banco Keve, o BCI e decisões do Estado, por via da sua relação familiar com a Ministra das Finanças. Esta é uma imputação séria, que não pode ser feita por insinuação.


Onde está a reunião realizada em nome do Grupo Carrinho. Onde está a intervenção junto do Ministério das Finanças, do Banco Nacional de Angola ou de qualquer entidade pública. Onde está o processo, o acto administrativo ou a decisão que tenha resultado dessa alegada influência. O texto não apresenta um único elemento factual que sustente essa narrativa.


A estrutura accionista e de representação do Grupo Carrinho no sector financeiro é pública e conhecida. O grupo tem representantes formais, incluindo Atandel Chivaca, accionista e administrador, com participação directa no Banco de Comércio e Indústria. Não existe qualquer evidência de que terceiros actuem como representantes informais ou intermediários de interesses do grupo junto do Estado.


As decisões relativas à supervisão do BCI, do Banco Keve e do BFA competem ao Banco Nacional de Angola, à Comissão do Mercado de Capitais e, quando aplicável, à Autoridade Reguladora da Concorrência. São processos formais, documentados e colegiais. Sugerir que estes mecanismos podem ser contornados por relações pessoais é desvalorizar as próprias instituições reguladoras.


O crescimento do Grupo Carrinho, goste-se ou não da sua dimensão, tem sido feito à luz do escrutínio público e da regulação existente. Criticá-lo é legítimo. Imputar-lhe vantagens indevidas sem prova não é análise económica, é especulação editorial.


A credibilidade do jornalismo mede-se pela capacidade de distinguir factos de conjecturas. Quando bancos são nomeados, pessoas são associadas e interesses são sugeridos, a exigência de rigor não diminui. Aumenta.


Num debate sério sobre banca e poder económico, os nomes próprios obrigam a factos próprios. Tudo o resto é narrativa.


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