Vote contra André Ventura- Sousa Jamba



Entristece-me ver angolanos que, tendo direito de voto nas eleições portuguesas, optarem por André Ventura. É um ato legal, sem dúvida; não é, porém, um ato neutro. Muitas vezes nasce de um reflexo quase tribal: a urgência de aplaudir qualquer voz que pareça afrontar o poder de Luanda, como se a simples oposição, por si só, conferisse virtude. O desacordo converte-se em atalho; a raiva, em bússola. E nesse atalho perde-se precisamente o que melhor nos resguardaria: o juízo frio, a capacidade de separar um programa de um espetáculo, uma proposta de um temperamento.


Se é angolano em Portugal, conhece a sensação de ser classificado. Às vezes, com luvas. Um senhorio que, de súbito, “já tem outro candidato”; uma rececionista que transforma uma pergunta banal numa pequena fronteira; uma entrevista de emprego que desliza, sem necessidade, para a sua origem e para os seus “planos”. Outras vezes, sem máscara. A piada que testa a sua disponibilidade para sorrir; o comentário sobre “essa gente”; o olhar que permanece um segundo a mais na caixa do supermercado. Nada disto precisa de uma lei nova para existir. Precisa, isso sim, de uma permissão nova; de um aceno vindo de cima; de um clima.  


É precisamente esse clima que Ventura vende. O seu método político precisa de um inimigo como o fogo precisa de oxigénio. Ora são “as elites”, ora “o sistema”; depois, “os ilegais”; a seguir, a lenda da “substituição”, meia demografia, meia fantasia. Quando o combustível baixa, alarga o alvo. Não se limita a discordar; classifica pessoas. Faz das instituições palco, da política uma rixa, da frustração uma identidade. E empurra a ideia de que os serviços públicos se afundam porque chegaram estrangeiros “em catadupa”, como se a saúde, a habitação e os salários fossem brinquedos quebrados por mãos alheias, e não o resultado de planeamento curto, contratos viciados, burocracias que proliferam como bolor.


Há um sinal revelador na escolha dos seus alvos. Os ataques à comunidade cigana não foram “infelizes” por falta de tato; são graves pelo que insinuam: a ideia de que há portugueses por inteiro e portugueses por tolerância. Quando afirmou que Portugal “não é o Bangladesh”, ecoou a pior tradição de arruaçeiros europeus, essa escola de rua que confunde patriotismo com desprezo. A frase não é apenas feia. É um bilhete de entrada para uma conversa pública onde o estrangeiro deixa de ser pessoa e passa a ser ameaça.


Alguns angolanos, é verdade, partilham esses impulsos. Existe, por vezes, entre nós, um desejo inquietante de subir um degrau social imaginário empurrando alguém para baixo; uma ânsia de “provar” pertença por alinhamento com o preconceito dominante. É erro moral e é erro estratégico. Hoje a mira aponta aos Roma; amanhã aponta ao imigrante “em excesso”; depois, sem cerimónia, aponta ao africano que fala alto, ao brasileiro que “enche”, ao angolano que “não sabe estar”. Quem aplaude a lógica da triagem não controla a lista.


Há, ainda, um motivo mais frio e, por isso mesmo, mais decisivo: Ventura ameaça as pontes. Angola e Portugal não estão ligados apenas por história e língua. Estão ligados por remessas, bolsas, parcerias, universidades, empresas, casamentos; por famílias que aprenderam a amar dois lugares ao mesmo tempo. Quando alguém faz troça da relação com os PALOP como se fosse um duelo de orgulho, não está a comentar o passado. Está a anunciar como trataria o presente: com azedume, ressentimento, uma diplomacia de pose e quezílias. E quando as relações azedam, quem paga primeiro é sempre a diáspora: os estudantes, os trabalhadores, as famílias misturadas.


Os portugueses foram heróis do oceano, e isso não se apaga com facilidade. Tenho viajado pelo mundo e, em lugares improváveis, encontro vestígios de uma ousadia histórica que merece respeito. É precisamente por isso que o nacionalismo de Ventura me parece, além de perigoso, pobre. Invoca a nação, mas reduz Portugal a uma bravata de mesa de café; a um orgulho que precisa de alguém por baixo para se sentir por cima. Não é patriotismo com vocação. É nacionalismo de impulsos: frases para aplauso rápido, simplificações que comprimem a complexidade portuguesa numa caricatura zangada.


Portugal merece melhor. E nós, angolanos, também. O voto de um angolano em Portugal não é gesto abstrato; é uma escolha sobre o ar que se respira. É decidir se a diferença continua a ser administrada pela lei, ou se passa a ser caçada pelo humor da rua. Recuse a política que vive de bodes expiatórios. Recuse o homem que diz “o povo” enquanto, semana após semana, estreita quem conta como povo. Vote contra André Ventura. Não por medo, mas por inteligência. Não para conservar um sistema, mas para preservar um país onde os seus filhos entram numa sala, falam, e são ouvidos como cidadãos, não como categoria.  


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