Hipocritas Africanos…- Sousa Jamba



Alguns intelectuais africanos exibem uma hipocrisia quase didáctica quando se trata de amparar ditaduras. Basta que um tirano saiba tocar a melodia certa para encontrar, com frequência desconcertante, um coro pronto a absolvê-lo, a emprestar-lhe vocabulário e, sobretudo, a oferecer-lhe a capa de respeitabilidade que só a escrita, quando se vende, consegue fabricar.


Lembro-me dos anos oitenta. Houve quem, com zelo de sacristia ideológica, reproduzisse a voz do regime comunista polaco e tratasse Lech Wałęsa, o operário de Gdańsk, como mero instrumento do Ocidente. A acusação tinha a elegância suja da calúnia barata: colava-se o rótulo e dispensava-se o resto, a coragem quotidiana, a fome, a noite das fábricas, o risco da pancada e da cela.


Noutro cenário, existia a colónia de escritores em Yalta, à beira do Mar Negro, onde se ia terminar livros, beber vinho decente e provar beluga, como se a literatura pudesse ser lavada em água salgada. Diz-se que Ngũgĩ wa Thiong’o escreveu ali um romance. O mesmo entusiasmo que erguia hosanas à União Soviética raramente encontrava uma sílaba para os poetas e romancistas que apodreciam nas suas prisões, soterrados pelo silêncio cúmplice e por essa forma confortável de chamar “complexidade histórica” ao que era, na verdade, cobardia.


Quando Muammar Gaddafi caiu, abriu-se a Prisão de Abu Salim, em Trípoli. Dali saíram romancistas, poetas, professores, ensaístas. Uma fauna inteira da inteligência, que qualquer regime nervoso aprende a tratar como inimigo visceral. O que veio depois foi previsível: memórias, testemunhos, ensaios escritos com a urgência de quem regressa do subsolo e ainda traz o cheiro da humidade na frase.


E, no entanto, a pergunta permanece. Quantas vezes se ouviu, antes disso, uma única voz africana de prestígio a falar desses escritores? Quantas vezes houve solidariedade pública com os que apodreciam em celas por terem discordado? Quase nunca. O hábito era outro: apanhar um avião, aterrar em Sirte e render homenagem ao “grande africanista”, ao homem que, supostamente, tinha a coragem que o continente aguardava. Muitos intelectuais, quando são tratados como crianças mimadas, respondem como crianças mimadas. Dêem-lhes conferências, púlpitos, hotéis e aplauso, e esquecerão os seus próprios pares que gemem atrás de grades. A ditadura, quando é esperta, não compra apenas armas. Compra linguagem. E a linguagem, quando se vende, passa a chamar virtude ao silêncio.


O mesmo mecanismo repete-se noutras latitudes. Raramente se ouve uma palavra sobre El Helicoide. Durante os anos de Hugo Chávez e, depois, sob Nicolás Maduro, jornalistas, escritores e professores foram ali encerrados com acusações opacas e processos viciados. Há famílias que ainda hoje aguardam notícias de parentes transformados em prisioneiros políticos. Mas isto raramente entra na conversa. O que se ouve é o refrão gasto da “agressão americana”, a epopeia anti-imperial que dispensa o detalhe do porão.


Também aqui o regime soube explorar a liturgia certa: conferências, cimeiras, classe executiva, hotéis de luxo. O intelectual convidado confunde hospitalidade com virtude política. Em 2010, Julius Malema visitou a Venezuela como hóspede do chavismo, e o gesto foi celebrado como peregrinação ideológica. O louvor foi abundante. A solidariedade com os escritores encarcerados, inexistente.


Há ainda um motivo menos confessado: o fascínio cru pelo poder. Muitos desses intelectuais partilham um elitismo estrutural, a crença de que o mundo funciona melhor quando um homem concentra em si a capacidade de ordenar, punir, esmagar. A figura do “forte” seduz-lhes a imaginação. Por isso há africanos que acham Donald Trump fascinante. Quem o apoia projecta nele o mito do chefe absoluto: o homem que quer controlar tudo, que transforma adversários em humilhações públicas, que reduz rivais à insignificância com crueldade exibida. É uma fantasia de domínio total vendida como vitalidade.


É precisamente aqui que a inteligência deveria começar. Um intelectual distingue-se quando recusa a hipnose do poder e escolhe o trabalho do discernimento. Pode haver um regime a executar políticas sociais que parecem positivas e, ao mesmo tempo, a manter um rasto sombrio em direitos humanos, prendendo quem discorda, fabricando acusações, instalando o medo como método. Perceber essa duplicidade, nomeá-la, denunciá-la sem adoração nem truques é uma das poucas tarefas que ainda justificam a palavra “intelectual”.


Há um argumento preguiçoso que regressa sempre: a ideia de que, por se declarar “contra o Ocidente”, uma ditadura se torna automaticamente virtuosa. É uma confusão infantil. Ser anti-ocidental não é sinónimo de democracia; odiar Washington não é programa político; rejeitar a linguagem liberal não cria, por milagre, tribunais independentes ou imprensa livre.


Veja-se Teerão. A hostilidade ao modelo político ocidental é antiga e ritual. E, no entanto, essa oposição não converteu repressão em dignidade. A rejeição do Ocidente, por si só, não é critério de saúde política. Pode ser apenas outra máscara, outro pretexto para exigir silêncio.


O Ocidente tem falhas profundas. Alguns de nós denunciámo-las durante anos. Ainda assim, quando a escolha se coloca entre um regime que prende por capricho e um sistema onde subsiste um mínimo de instituições, justiça e contraditório, a maioria prefere o segundo. Não por amor cego, mas por instinto de sobrevivência cívica.


Há um detalhe que trai muitas retóricas. Os que passam a vida a atacar “o império” raramente escolhem viver sob o império da farda. Criticam, inflamam, denunciam e, à primeira oportunidade, procuram visto e aeroporto para um lugar onde a frase não se converte em prova criminal. Até os que louvaram o comunismo com fervor acabaram por escolher cidades onde se podia escrever sem pedir licença. A boca dizia uma coisa. O corpo, quando teve de decidir onde viver, disse outra.


É por isso que a romantização de “novas ordens” no Burkina Faso exige prudência. Confundir postura anti-ocidental com virtude automática é trocar análise por slogan. Uma sociedade não respira por palavras de ordem. Respira por instituições, por limites ao poder, por regras que não mudam ao sabor da farda. Sem isso, a promessa de soberania degrada-se numa soberania menor: a soberania de um homem sobre os outros.


No fim, tudo converge para um ponto simples. A coragem intelectual não está em escolher o homem forte certo, mas em recusar todos. Está em ver as contradições, em nomeá-las, em recusar o conforto do aplauso. Está em dizer, com clareza incómoda, que uma escola construída não apaga uma cela, que uma estrada inaugurada não absolve um porão e que nenhum aplauso, por mais sonoro que seja, substitui a liberdade de pensar sem medo.  


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