Gostaria de exprimir a minha gratidão ao meu irmão mais velho, Jorge Henriques Chilulu Jamba, que me levou, pela primeira vez, a uma sala de cinema. Esse episódio ocorreu na Escola de Fátima, no Huambo em 1971, quando eu teria pouco mais de cinco anos, idade em que a memória ainda não sabe separar o que viu do que desejou ver  .
Recordo, com uma nitidez quase física, o essencial: a história de um homem que passara anos afastado da sua terra natal e que, por fim, regressava a casa. Esse regresso permaneceu em mim como promessa e ferida ao mesmo tempo. Recordo igualmente o Ciclópe, criatura de um só olho concebida para assustar e, ainda assim, irresistível. Naquele tempo, em Angola colonial, enquanto eu me encontrava sentado no banco curto da infância, esse monstro incendiou a minha imaginação como uma lâmpada oculta no peito.
Desde então a mitologia grega nunca mais me abandonou. Há mitos que não exigem prova; exigem companhia. Crescem connosco, mudam de veste, mas não mudam de pulsação. Por isso me intriga agora a mera possibilidade de que se diga que Lupita Nyong’o poderá ter sido escolhida para interpretar Helena de Tróia numa futura Odisseia. Há rumores que passam como poeira, e há rumores que tocam numa prateleira antiga da alma e fazem cair, de súbito, o mesmo fascínio de 1971.
O que se seguiu, contudo, não foi mera curiosidade: foi reacção, troça, hostilidade e, sobretudo, uma prova desconfortável do estado de determinados debates públicos. A gritaria contra a ideia de Nyong’o como Helena diz menos sobre a actriz do que sobre a deterioração intelectual de uma parte do nosso tempo. Aquilo que poderia ter sido um convite fértil a reimaginar um mito clássico a partir de outra luz cultural foi reduzido a um concurso de berros sobre “rigor histórico”. O mito foi confundido com documento; a imaginação tratada como heresia.
Na tradição grega, Helena nunca foi uma pessoa histórica fixa, dotada de certidão de nascimento e fotografia de época; ela é, antes, uma figura poética, síntese de beleza, desejo e consequência, que vive num espaço mítico e não num mapa. Insistir que apenas uma actriz branca pode representá‑la “com exactidão” equivale a falhar o ponto essencial: o mito existe precisamente para ultrapassar fronteiras estreitas, sejam elas raciais, nacionais ou temporais. A arte, quando é arte, não se limita a conservar; recria. O alarme em torno do suposto elenco denuncia uma recusa, ou incapacidade, de pensar por símbolos, de compreender o mito como metáfora e não como vitrina, sinal de uma cultura que começou a confundir correcção enciclopédica com entendimento.
Há, nesta reacção, um contraste ainda mais inquietante. O mundo inteiro aprendeu, há muito, que os mitos viajam; e, quando viajam, ganham corpo novo. O cineasta Idrissa Ouédraogo, em Tilai, construíu um drama atravessado por uma lógica trágica que faz eco a Sófocles e Eurípides: o choque entre parentesco, dever e destino, a moral como armadilha, a honra como lâmina. Ninguém o acusou de “roubo cultural” por escrever, com matéria africana, uma tragédia que dialoga com a gramática do teatro grego.
Do mesmo modo, Akira Kurosawa reimaginou Macbeth no Japão feudal em Trono de Sangue, numa transformação tão completa que deixou de ser mero exercício de fidelidade para se tornar parte do próprio cânone do cinema mundial. E há ainda uma lembrança que desmonta, com elegância, a retórica da “impossibilidade”: em 2007, críticos teatrais em Inglaterra escreveram com entusiasmo sobre Chiwetel Ejiofor, não por ter “imitado” Shakespeare, mas por ter infundido uma electricidade rara às personagens; interpretou Otelo, o mouro, e Hamlet, o príncipe dinamarquês. Duas figuras distantes entre si, duas tradições dentro da mesma tradição; e, no entanto, a crítica reconheceu o óbvio: quando o actor é verdadeiro, a personagem deixa de ser um passaporte e volta a ser o que sempre foi, uma vida emprestada.
Porque disso se faz a formação artística, e disso vivem as grandes escolas: troca de ideias, expansão do olhar, mistura de linguagens, contaminação criativa. Conservatórios, escolas de teatro, de cinema, de artes, existem para ampliar o mundo, não para o encolher. O génio não nasce do medo de errar; nasce do risco de ver de outra maneira.
Mas há um factor novo, mais sombrio, a empurrar esta pobreza de leitura para o centro do palco. Nos Estados Unidos, um conjunto de magnatas do imobiliário e de bilionários da tecnologia passou a dominar a política com a confiança de quem confunde dinheiro com autoridade moral. E alguns deles são culturalmente surpreendentemente magros: não se interessam por arte, não leem literatura e, em certos casos, mal leem qualquer coisa. Não trazem consigo a densidade do mundo, nem a paciência dos séculos, nem a humildade de quem aprendeu com livros que há sempre mais do que aquilo que se vê à primeira.
O problema não é apenas a ignorância; é o orgulho da ignorância, convertido em estilo. Quando um bilionário é paroquial, arrasta atrás de si uma multidão de seguidores semi‑letrados, gente com internet no bolso e horizonte curto na cabeça, que faz da falta de leitura uma medalha e da brusquidão uma virtude. Produzem opiniões rasas, repetem‑nas com solenidade, e o eco dá‑lhes a ilusão de profundidade. É aí que o anti‑intelectualismo deixa de ser falha e passa a ser programa.
Foi nesse caldo que se viu um espectáculo particularmente triste: pessoas a insurgirem‑se contra Nyong’o no YouTube, muitas vezes sem a menor noção do que é a mitologia grega, de o que é uma figura mítica, de o que é uma tradição poética. E, no vazio do conhecimento, entrou o veneno: racismo, anti‑negritude, anti‑África. Frases cuspidas como se fossem argumentos. E, do outro lado, a reacção previsível: gente instruída, sofisticada, em várias capitais europeias, a rir‑se daquele teatro de ignorância, a fazer troça do ridículo, a desmontar o disparate com um sarcasmo fácil.
Há aqui uma tristeza dupla: tristeza por ver o preconceito tão à vontade, tão desinibido, tão sem vergonha; e tristeza por ver que a resposta, muitas vezes, não é educação, nem diálogo, nem paciência, mas apenas o riso dos “informados” perante os “bárbaros”, como se a humilhação fosse antídoto, como se a cultura se defendesse com desprezo .
O episódio Nyong’o expõe, assim, menos um zelo pela tradição do que um medo da complexidade. Numa era de algoritmos e indignação automática, o discurso público passou a premiar binários simplistas: autêntico contra inautêntico, correcto contra incorrecto, nosso contra deles. Pensar dá trabalho; reduzir dá aplausos fáceis. Questionar se uma mulher africana negra pode encarnar Helena de Tróia é confessar ignorância sobre o funcionamento do mito e revelar uma ansiedade mais funda: quem tem licença para imaginar, reinterpretar e herdar o chamado cânone ocidental.
Ao rejeitarem a Helena de Nyong’o, certos críticos agarram‑se a uma fantasia de pureza na arte, na história e na identidade. A ironia é quase didáctica: a própria mitologia grega é uma herança mestiça, moldada por contactos e cruzamentos com o Egipto antigo, a Mesopotâmia e a Ásia Menor. Negar essa linhagem cosmopolita equivale a reescrever o passado ao serviço de um etnonacionalismo actual. O que poderia ter sido celebração de possibilidade criativa torna‑se, deste modo, termómetro: mede a extensão do anti‑intelectualismo, não apenas na política, mas na própria imaginação cultural.
No fim, a pergunta não é se Lupita Nyong’o pode ser Helena; a pergunta é se o público ainda sabe pensar o suficiente para perceber por que razão, no território do mito, ela já o é. E volto, com gratidão, àquele primeiro cinema: um irmão a conduzir um miúdo pela mão, uma sala simples, um ecrã a abrir‑se como mar, e a infância a aprender, sem saber, que as histórias mais duradouras não pertencem a quem as reclama, mas a quem tem coragem de as reinventar.
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