A crescente tentativa de normalização da bicéfalia no seio do MPLA tem vindo a gerar profundas inquietações entre militantes históricos, membros do Conselho de Honra e distintas figuras ligadas à trajectória do partido. O que ontem era apresentado como um grave perigo para a estabilidade política e orgânica do MPLA, hoje passou, de forma contraditória, a ser defendido pelos mesmos que, em 2017 e 2018, pressionaram o então Presidente José Eduardo dos Santos a abandonar a liderança do partido.
Entre as vozes mais activas daquele período encontrava-se Ju Martins, hoje mandatário da candidatura de João Lourenço, que liderou o discurso segundo o qual o MPLA “não podia ter dois mundos”, isto é, um Presidente da República e outro Presidente do partido. Na altura, argumentava-se que a coexistência de José Eduardo dos Santos na liderança do MPLA e João Lourenço na Presidência da República constituía um cenário de bicéfalia incompatível com a estabilidade interna do partido.
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Entretanto, os mesmos actores políticos surgem agora a defender exactamente o contrário: que João Lourenço pode continuar como Presidente do MPLA enquanto o país venha a ser dirigido por outra figura indicada pelo partido. Esta mudança de posição levanta sérias questões de coerência política, ética e moral, além de demonstrar uma preocupante tentativa de manipulação da memória colectiva dos militantes.
Membros do Conselho de Honra consideram que esta narrativa representa uma afronta à verdade histórica e um desrespeito pela memória do Presidente José Eduardo dos Santos, homem que dedicou toda a sua vida à construção, consolidação e preservação do MPLA.
Importa recordar que José Eduardo dos Santos foi eleito Presidente do MPLA em congresso com mais de 99% dos votos e que o seu mandato terminaria apenas em 2021. Nunca foi sua intenção perpetuar-se no poder, nem criar qualquer situação de bicéfalia. Pelo contrário, a sua permanência até ao congresso ordinário de 2021 tinha como principal objectivo assegurar uma transição pacífica, organizada e bem-sucedida.
Depois de mais de três décadas na liderança do país, existiam inúmeros dossiês sensíveis que não poderiam ser transmitidos em escassos minutos de cerimónias protocolares. José Eduardo dos Santos mostrou-se disponível para acompanhar institucionalmente João Lourenço, funcionando como assessor directo durante o período de consolidação da nova governação, retirando-se posteriormente da vida política activa para dedicar-se aos seus projectos sociais, económicos e pessoais.
Foi igualmente público que, antes da sua saída da liderança do partido, realizou-se um almoço no Palácio Presidencial com membros do denominado núcleo duro do MPLA. Muitos questionam hoje se o abaixo-assinado promovido naquele período não terá sido um mero instrumento de pressão política destinado à preservação de interesses pessoais, cargos de decisão, créditos bonificados e outras garantias de continuidade no aparelho do Estado.
A maior decepção de José Eduardo dos Santos não foi apenas a ingratidão de antigos camaradas, mas sobretudo o facto de ter ficado registado na sua biografia política que “renunciou” à presidência do MPLA. Um homem que combateu, sacrificou-se e dedicou toda a sua vida ao partido acabou empurrado para uma saída pouco dignificante.
Ainda assim, fiel ao seu carácter conciliador e pacificador, José Eduardo dos Santos optou pelo silêncio. Não promoveu confrontações públicas, não alimentou divisões internas e aceitou retirar-se para evitar maiores fracturas no seio do partido que sempre considerou como o seu verdadeiro lar político.
Hoje, perante as tentativas de reescrever os factos e manipular os militantes, membros do Conselho de Honra entendem ser necessário alertar as bases do MPLA para os perigos da incoerência política e das agendas pessoais disfarçadas de patriotismo partidário.
Os militantes devem questionar por que razão a bicéfalia era considerada inaceitável em 2018 e passou agora a ser apresentada como uma solução legítima. Devem igualmente reflectir sobre os verdadeiros interesses daqueles que mudam de discurso conforme as conveniências do momento.
O MPLA necessita de verdade, coerência, respeito pela sua história e consideração pelos seus líderes históricos. Nenhum projecto político sólido pode construir-se sobre a manipulação, o esquecimento selectivo ou o desrespeito pela memória dos que deram tudo pelo partido.
José Eduardo dos Santos merece respeito. E os militantes do MPLA merecem honestidade.
Valdir Conego
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