Chorar em Umbundu- Sousa Jamba



Nos últimos tempos, tenho notado como certos cânticos evangélicos se infiltram, discretos e insistentes, no quotidiano do Planalto Central  de Angola. Quase todos seguem o mesmo ritual: uma voz solitária inicia, contida, soprando a primeira sílaba da emoção; depois, como se uma comporta se abrisse, irrompe o coro, repetindo, respondendo, elevando a frase. É a antiga chamada e resposta africana, levada para a América nas igrejas negras e devolvida ao continente, agora em casa nas igrejas protestantes do planalto central.


O meu pai, Tavares Hungulu Jamba, foi um grande solista. Conservamos uma gravação preciosa em que a sua voz se ergue sozinha, firme e vulnerável, verdadeira relíquia entregue pelo reverendo através do Dr Laurence Henderson. Nela ouvimos o que hoje se repete em tantos cultos: a voz que se despe de pudor e lança a súplica inicial, e a comunidade que a prolonga, dando coragem coletiva à palavra que, no princípio, nasceu sozinha.


Com o tempo, percebe-se que quase todos estes cânticos, mesmo quando bebem do folclore, carregam uma tristeza fundadora. Giram em torno da saudade: falta da aldeia, do pai, da mãe, das irmãs; o corpo na cidade, o coração ainda sentado na ombreira da casa de barro, a olhar o terreiro da infância. Foi isso que tornou Justino Handanga tão amado. Se juntássemos as suas canções numa única oração, ouviríamos sempre a mesma confissão: hoje estou triste, vou chorar, vou beber para afogar as mágoas.


As “cartas” que chegam das aldeias, por dentro destas melodias, raramente trazem boas novas: avós que partiram em silêncio, raparigas grávidas demasiado cedo, doentes sem cura, parentes perdidos entre guerras. Falam da banana madura da terra do pai que a cidade nunca reproduz; dos mutilados de guerra olhados de lado, tratados como peso, carregando no corpo o mapa esquecido do conflito. Aos poucos, estas figuras tornam-se metáfora do derrotado, do esquecido, daquele que prepara a cama onde os outros se deitam.

Os cânticos evangélicos atuais respiram essa dor: são hinos à perda, ao cansaço de viver, à sensação de um mundo desalinhado com o desejo íntimo. Falam da dor de perder parentes, de ver a injustiça repetir-se, de acordar numa vida que não é o sonho. E, no entanto, quase sempre, no fim, como uma lâmpada que resiste ao vento, surge a promessa: um dia junto de Deus, um dia em que tudo fará sentido, esta vida apenas como passagem, prova, penumbra.


É belo, triste e doce. A mentalidade Ovimbunda  parece feita dessa disposição: mergulhar nas mágoas, acariciá-las, regá-las com lágrimas e, simultaneamente, erguer os olhos para um céu redentor. Talvez por isso sejam conservadores, desconfiados, determinados, amantes da certeza e da linha reta. Eu próprio, apesar de ter saído de Angola aos dez anos e de viver entre línguas e cidades, trago essa marca; continuo a gostar de canções tristes, choro ao ouvi-las, por mim e por todos, como se cada verso abrisse uma torneira antiga que já não controlo.


Mas o repertório em umbundu não é só tristeza devota. Há também canções abertamente eróticas, de atrevimento surpreendente. O célebre “Enhango”, cantado nas aldeias quando a bebida aquece o sangue, parece brincadeira de bêbedos, mas é uma mulher que fala: pede calma ao parceiro, que encontre primeiro o compasso certo, que não seja egoísta, que o prazer não seja apenas dele. No abrigo da música, onde a vida quotidiana cala certas verdades, aquelas palavras tornam-se uma pequena declaração de poder feminino, válvula de escape para frustrações sem lugar em catecismos.

Há ainda canções da escassez absoluta: ausência de carne, sangue só visto em feridas, nunca no prato; lamento pela fome de dignidade, pelo dia em que já não seja preciso mendigar nem contar moedas para comprar sal. É um grito que passa de melodia em melodia, de garganta em garganta.


As pessoas procuram exatamente isso. Vão aos cultos, abrem o telemóvel, seguem vídeos da IECA e da Igreja Adventista, deixam-se apanhar por estes cânticos em umbundu que milhares já ouviram. Nos comentários repetem-se variações do mesmo desabafo: “Cantei isto a chorar”, “Esta canção salvou o meu dia”, “Chorei, mas senti paz”. Quase sempre começa igual: precisei de chorar, chorei tanto ao ouvir isto.


Há algo na língua umbundu que solta as lágrimas, como se cada vogal abrisse uma fissura num dique. Não é apenas veículo de fé; é o lugar onde a dor encontra gramática, onde o mudo ganha palavra. A vogal prolongada do coro, o eco obsessivo da frase repetida, dão tempo ao coração para abrandar, para enfrentar o que fugia. Por isso, tanta gente escreve, depois de ouvir: finalmente consegui chorar. A língua transforma memória em lágrima e, ao cair, a lágrima aligeira o peso do dia, e por um instante o mundo fica suspenso entre o pranto e a promessa.


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